Ela é cadeirante, ele cego: juntos, só amor!

Não existe nenhuma propensão natural para que pessoas com deficiência se atraiam por parceiros “malacabados” também.

O que pode acontecer é que, às vezes, as trupes podem juntar gente com interesses, demandas e batalhas conjuntas e daí, naturalmente, pode rolar um casalzinho ou outro.

O que é bem verdadeiro é que o amor entre duas pessoas com deficiência é cheio de pequenos desafios a começar da curiosidade dos outros sobre o “como é possível?”

Ninguém está isento de não compreender exatamente as demandas e o jeito do outro, assim como não está isento de estranhar a forma como alguém que não exalta os seus próprios padrões de vida faz para tocar o dia a dia.

Mas o antídoto que faz tudo isso virar bobagem e detalhe é o sentimento. É a atração por aquilo que o parceiro ou parceira representa, seja ela do jeito que for!

Diante de todos esses aspectos, convidei minha amiga Diana Sabbag, que é cadeirante, a dividir um pouco com os leitores como se constrói, se viabiliza, se mantém um relacionamento com outra pessoa também com deficiência.

Vinicius, o namorado, é cego… juntos eles se amam, passam perrengues e também dão boas gargalhadas! E feliz dia dos namorados a todos!

OLHA POR ONDE ANDA

Nos conhecemo-nos há três anos na Oficina dos Menestréis onde fazíamos parte do elenco de teatro [são várias trupes inclusivas]. Quando ele entrou, eu já fazia parte. Não dei muita atenção, não por antipatia, mas porque o Vini sempre foi muito quietinho e eu uma tagarela que conversa até com o poste se bobear…

Ele lembra até hoje do fato dele se apresentar para mim, o que foi muito engraçado. Ele perguntou meu nome, eu respondi, ele não entendeu (estava muito barulho no local), ele perguntou de novo e eu respondi meio brava… 😛 . Confesso que paciência é algo muito limitado em mim!

Fizemos uma peça – “Aldeia dos Ventos”, do Oswaldo Montenegro -, mas não trocamos mais do que poucas palavras naquela temporada. Ele namorou uma pessoa do elenco e eu também estava namorando.

O casal Diana e Vinicius, que se conheceram em ensaios teatrais Imagem: Arquivo Pessoal

Em 2016, ao fazermos outra peça do Oswaldo – “Noturno-, ensaiávamos no Centro Cultural, em São Paulo, nos aproximamos mais e acabamos por nos tornar namorados.

O que me atraiu no Vini foi o carisma, a doçura e a maturidade de um rapaz de apenas 26 anos, na época, mas com cabeça de um homem mais velho.

Sempre falava que jamais me relacionaria com um homem mais novo, mas sabe aquele ditado “Não cospe para cima que cai na testa?!”, então, aconteceu! Além do bom humor e do sorriso mais cativante do mundo que ele tem!

Papeando durante uma semana, comecei a sentir um calorzinho diferente dentro de mim a cada papo! Uma vontade de sempre ter contato, de saber como ele estava, de ouvir a voz…
Ele diz que o papo diariamente fez com que o bichinho do amor o picasse também. Que nossas conversas, nossas risadas, o dia após dia foi a plantinha sendo regada para que o amor nascesse.

O preconceito é algo inexistente para nós. Nunca passamos por essa questão, pelo menos abertamente. Acredito que o meu jeito comunicativa que já fala na cara as coisas (sempre digo que um completa o outro no que precisamos) faz com que as pessoas quebrem esse tabu de que o diferente não pode se completar.

Eu, cadeirante, ele, deficiente visual (baixa visão), o que para os desconhecidos parece ser algo impossível de acontecer, mas juro que é como qualquer outro casal. O que importa é o respeito, a compreensão e o amor!

Eu o ajudo em tudo que ele precisa referente às questões visuais e ele me ajuda em tudo que eu preciso na minha limitação física.

Leio o que o leitor de tela não consegue captar, por exemplo, alguns documentos, leio placa na rua, faço descrição dos locais onde vamos e isso me fez amadurecer muito, pois passei a captar coisas que antes não dava bola.

Diana e Vini curtem um passeio na praia; eles são abordados por um cão golden Imagem: Arquivo Pessoal

Passei a ver os detalhes e até perdi aquele problema feminino de direção (esquerda e direita), pois fiz meu amor, no começo do namoro bater tanto a cabeça, que agora sei direitinho os lados… 😎

Tinha muito medo da rejeição em aspectos íntimos do relacionamento devido a certos tabus referentes à minha limitação e no começo conversamos muito sobre isso.

O Vini me surpreendeu muito ao dizer que não ligava para nada disso, que gostava de verdade de mim e que nada nos atrapalharia. Hoje tudo flui como com flui em qualquer outro casal.

De fato, nada nos atrapalha e somos felizes em todos os sentidos na nossa relação, nos completamos em absolutamente tudo!

Temos uma página no Facebook que retrata com muito bom humor o nosso relacionamento. Lá, mostramos as pérolas que saem devido às nossas deficiências e como o diferente pode se completar e ser tão bonito. Afinal de contas, ninguém é igual ninguém.

Independentemente de ter uma deficiência ou não, o que faz a relação interpessoal fluir é você entender que o outro tem a dificuldade dele e que se não for a mesma que a sua, dá para conviver, viver e até nascer algo muito bonito. E foi isso que nos permitimos, através do carinho e do respeito.

Um percebeu que completaria o outro, sendo um a perna e o outro os olhos e assim, conseguimos olhar e caminhar rumo ao mesmo horizonte.

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