França proíbe vídeo sobre valor da vida com down

Meu povo, uma polêmica envolvendo pessoas com Síndrome de Down vem ganhando terreno desde o final da última semana aqui no Brasil. É que autoridades francesas resolveram proibir a veiculação de um vídeo que tem como finalidade mostrar que a vida de um bebê com down deve ser preservada e vale a pena.

Vários conceitos estão amarrados nessa questão: o avanço científico que consegue detectar com o feto em poucas semanas a possível ocorrência da síndrome, o direito da mulher e da família em decidir se querem ou não ter o bebê “diferente” e a própria ampliação de conceitos relativos à viabilidade de uma existência diante uma diferença física ou sensorial.

É preciso pontuar, antes de mais nada, que a França descriminalizou o aborto há mais de 40 anos. A mulher, no país europeu, tem a supremacia sobre seu corpo e decide se quer ou não levar adianta uma gravidez, independentemente de o feto ser assim ou assado.

Dito isso, penso ser importante colocar que naquele país o debate de ideias tem outro nível de evolução, que os direitos individuais possuem outra dimensão e que a questão da proibição não passa isoladamente pela defesa de uma bandeira liberal. São décadas de argumentação e contra-argumentação.

O principal ponto para a proibição da peça, que é uma fofura pura, muito bem produzida,premiada,  e é  muito comovente (veja abaixo), é que ela agrediria ou deixaria numa situação de constrangimento das mulheres que por ventura desejem abortar um feto com down e ainda aquelas que tenham abortado.

https://www.youtube.com/watch?v=gzuigigDJEs

Por dezenas de vezes já manifestei aqui no blog e em minhas colunas a minha convicção de que um bebê, uma criança, uma pessoa com down possuem capacidade de desenvolvido e de viver de maneira feliz e completa incontestável.

As leis brasileiras se ampliaram no abraço a essa diversidade humana e as famílias têm se apoderado mais e mais para capacitar, encorajar e defender seus “filhos” em sociedade. Tudo isso é formidável, mostra, a meu ver, evolução em reconhecimento do “serumano” em suas mais diversas representações.

Bem, mas, tudo isso, é diferente de fazer um julgamento razoável da atitude dos franceses. Penso ser pouco legítimo para mim, de fora da convivência cultural do país, emitir uma opinião rápida sobre a ação de proibição.

Em uma comunidade onde os direitos individuais já foram debatidos de maneira exaustiva, não passa apenas por um sim ou não uma decisão como essas. Retirar a peça publicitária do contexto francês e trazê-lo para o Brasil, que ainda proíbe o aborto, é uma atitude temerária.

Se alguém delibera que há ofensa em relação à mãe que quer abortar, penso ser necessário levar isso com mais profundidade do que apenas dizer que seria um absurdo proibir uma ação de defesa da vida, da viabilidade da vida com down.

São claramente discussões diferentes e que, de forma diferente, precisam ter suas defesas consideradas. Talvez seja um absurdo para um americano da Califórnia, por exemplo, saber que o Brasil proíbe certas publicidades de comidas infantis, afinal, ele é regido por outros tipos de discussões e valores.

Um manifestação pública de várias partes do mundo pedindo a liberação do comercial das crianças com down na França está sendo feita, o que também considero legítimo. A peça comercial, feita no intuito de divulgar a causa dos downs, conta a participação de pessoas de várias partes do mundo. O que é fundamental levar em consideração é que não se impõe verdades e convicções sobre os outros, sem amplo conhecimento da realidade do outro.

O avanço científico, o direito da mulher e a vida em sua plenitude de possibilidades evoluem todos os dias e vão demandar sempre a atualização das discussões em diversas esferas sociais. O melhor caminho para soluções razoáveis me parece estarmos dispostos a ouvir o contraditório, a questionar nossas verdades e a ampliar nossos conceitos.

Comentários

  1. Também não entendi o porquê da França ter censurado o vídeo. Talvez porque a França, como tantos outros países, está assistindo à uma ascenção ao poder de políticos mais conservadores, geralmente contrários ao aborto. O Trump falou a campanha inteira que pretende acabar com as clínicas Planned Parenthood, que garantem abortos e outros serviços de planejamento familiar, exames preventivos e tratamento de doenças sexualmente transmissíveis para as americanas. Talvez no futuro próximo veremos vídeos como esses aqui na América. Também pode ser que setores mais progressistas da sociedade francesa tenham se mobilizado pra que o vídeo não fosse divulgado justamente porque ele apresenta uma visão bastante incompleta da Síndrome de Down. Eu achei um vídeo tendencioso, sentimentalóide. É bonito, mexe com a emoção, mas não fala toda a verdade. E falha por não mostrar que nem toda criança que nasce com essa síndrome consegue crescer e se tornar um indivíduo autônomo. Muitas nascem com severas limitações mentais e também físicas, problemas cardíacos importantes ,entre outras complicações. E representam sim um enorme desafio para muitas famílias. Não só na parte emocional, mas também financeiramente, as despesas com terapias, etc etc. Complicado. Esse é o tipo da questão que não admite uma resposta única. Nem fácil. Assumir que todas as mulheres já dispõem de informações sobre a Síndrome de Down e que não poderiam ser influenciadas pela mensagem do vídeo me parece meio naif.Acho bastante perigoso, desrespeitoso até, quem produz um vídeo — que começa com uma grávida fazendo uma pergunta angustiada sobre como será ter um bebê com Down– só mostrar o lado rosa da realidade e omitir o resto do quadro. A própria questão do aborto, se a gente pensar bem, é meio absurda nos dias de hoje. A gente nem devia mais ter que discutir sobre aborto, deveria ser uma prática em desuso, algo pra se recorrer em última instância, em raras circunstâncias. Porque sobram informações. Sobram métodos anticoncepcionais e tantos outros recursos pra interromper seguramente, sem dor nem violência, uma possível gravidez nos primeiros dias após uma relação sexual. E apesar disso tantas mulheres ainda recorrem ao aborto, milhares sangram até morrer por causa disso, no mundo inteiro. Quando se trata de seres humanos não dá para assumir nada.
    Eu admiro as mulheres que decidem ter um filho, mesmo sabendo que a criança vem vindo com problemas sérios de saúde, seja Síndrome de Down, autismo, microcefalia, outras condições de fundo genético, whatever. Mas também não condeno quem decide interromper uma gravidez, seja por qual motivo for. E digo mais: nem Igreja, nem Estado deveriam jamais se meter num assunto que é de âmbito pessoal. E por razões tão únicas e válidas quanto cada um de nós.

    1. Silvia, tenho muito orgulho de ser seu amigo, pois vc não se acua de ter opiniões que possam levar ao conflito e que não necessariamente são populares. E esses pontos de vistas, como eu já disse, são fundamentais para o amadurecimento dos debates. Beijosss

  2. Li o texto, que está ótimo! Por que não toma partido de ninguém e só questiona a validade ou não da suspenção do dito vídeo dos downs. Agora, me pergunto: se este vídeo é uma forma de conscientização sobre os downs, eles não deveriam censurar (a meu ver, isto também é um tipo de censura). As mulheres que optaram por abortar, por que o filho ia ser down, ora a escolha foram delas – com todos os preconceitos nas costas da mesmas – mas foram delas. Deve ter mulheres que optaram por ter o filho down. Então, não sei o motivo para a preocupação de melindrar estas mulheres. É claro que existem n fatores culturais diferentes das nossas, mas todos somos humanos. E os downs que estão vivos e que tiveram o maior incentivo e dedicação dos pais, estão dando certo, ou seja: eles estão por ai se formando em cursos universitários, trabalhando, fazendo artes etc. É claro que existe os graus de limitações, mas um vídeo que visa a conscientização sobre os downs, acho que é benéfico, tanto que o vídeo recebeu prêmios mundiais.
    Existe também a parte econômica da questão: o tratamento médico, de terapias ocupacionais, fisioterapêuticos etc,, além dos treinamentos para professores e outros profissionais, saem muito caro para o País, não é? E quanto menos deficientes existirem, melhor para o governo.
    Esta é a minha opinião. Mas estou pronta para ouvir ou ler mais opiniões sobre o assunto.
    Bjs em você e na família.

  3. Um dos maiores problemas sobre essa proibição é que o vídeo não é uma campanha anti-aborto. Ele foi criado por ocasião do Dia Internacional da Síndrome de Down e a mensagem é que uma pessoa com síndrome de Down pode ser feliz, o que é uma verdade, inclusive comprovada por estudos, mas que muitas pessoas desconhecem. Como o Conselho de Estado francês pode atender aos apelos de duas mulheres incomodadas com o “excesso de felicidade” das pessoas no vídeo? Além do cerceamento da liberdade de expressão, a censura é discriminatória. Senão, de acordo com a lógica do argumento para a censura deste vídeo, qualquer campanha em que aparecessem crianças felizes poderia “incomodar” pessoas que fizeram “escolhas pessoais diferentes”, uma vez que estas escolhas não são feitas apenas em relação a crianças com síndrome de Down.

  4. Interessante a questão e bem adequada a abordagem do articulista. Mas questiono o seguinte: a proibição do vídeo – a qual eu considero incorreta – não torna a questão, altamente complexa, unidimensional? Digo, aqueles que são favoráveis ao aborto nessa situação não podem nem ao menos serem “constrangidos” quanto a sua posição? Constrangimento esse que deve ser entendido no âmbito de uma sociedade aberta, democrática, onde há e deve haver discussão pública sobre assuntos dessa natureza. Discussão essa em bom tom, como faz o vídeo e o presente texto. Enfim, entendo que houve censura da peça, e essa é a situação, para que não fossem tocadas sensibilidades alheias.

    1. Bem interessante seu argumento, Daniel. Levanto, porém, a possibilidade de a questão ser vista como algo já “sacramentado” dentro da realidade francesa. Pode ser uma grande bobagem o que estou dizendo aqui, mas num terreno em que um direito é “líquido e certo” a favor da mulher que quer abortar, revirar o fato não jogaria contra essa mulher? De novo, repito, a tentativa é debater, ampliar uma discussão!

  5. Nossa, como é bom ouvir um comentário que se abstém de tomar partido para esse ou aquele lado. Hoje vivemos tempos que todos são obrigados a tomar partido e a condenar ações sem entender o seu contexto sócio cultural. Ótimo ver que ainda é possível ter opinião sem julgar, adorei o texto.

    1. Pois é, Felipe. Normalmente, procuro “tomar partido”, mostrar uma convicção. Mas esse caso, em especial, tem elementos muito distantes da realidade que eu supostamente domino. Então, penso ser melhor abrir o debate e examinar os argumentos. Um abraço

  6. Porque incomoda o vídeo ??? Se a mulher tomou sua decisão devia se sentir confortável nela.Vejo o vídeo como uma forma de desmitificar a síndrome apesar dela ter formas mais severas.Enfim se no país foi tão debatido as individualidades as liberdades porque esse alarde???? Será que apresentar outra firma de pensar é tão ruim assim????Me parece algo meio egotista e atrasado dos francesas afinal escolhas sempre tem seu preço

  7. Jairo, como defensor da liberdade de expressão, sou absolutamente contrário à proibição da veiculação do vídeo. Não há nele qualquer tentativa de enganar deliberadamente as futuras mães, que já dispõem de informações e liberdade suficientes para tomar sua decisão. Espero que a maioria dos leitores desta coluna não se limite a simplesmente assistir ao vídeo, mas que principalmente leiam o que você escreveu sobre não impormos verdades e convicções, sobre ouvir opiniões divergentes, questionarmos nossas verdades e ampliarmos nossos conceitos. O aborto é um debate muito mais complexo do que o que assistimos no Brasil, permeado por imposições religiosas e – consequentemente – interesses políticos que colocam em segundo plano a liberdade das mulheres. Parabéns pelo ótimo texto!

    1. Obrigado, Gustavo! Eu acho que faltou no texto uma reflexão maior sobre justamente um ponto que você coloca: a liberdade de expressão. A minha dúvida, porém, é se, nesse caso, não moraria a defesa direta de um outro direito. Não sei se estou sendo claro, mas quando o Conar se posiciona contra um anúncio, por exemplo, e ele tem de sair do ar, não é uma questão de liberdade que está em jogo, me entende? Enfim, vamos debatendo. Um abraço

      1. Entendo perfeitamente, Jairo! Cabe destacar, porém, que o Conar tem um papel de autorregulamentação, e não exatamente de poder de polícia – que cabe ao Estado, não a uma organização da sociedade civil. As agências de publicidade e outras empresas do setor aceitam as determinações de um ente não-estatal para que jogo entre elas seja limpo sem a interferência do Estado, que costuma ser bastante nociva em qualquer coisa que tente regular. Mas voltando à liberdade de expressão: neste caso do vídeo, não estamos falando de uma propaganda no sentido comercial. Não se trata de vender um produto, e sim de divulgar uma ideia, um valor, um princípio. Nesse sentido é, a meu ver, algo que deve ser fortemente defendido por quem advoga pela liberdade de expressão. Se alguém se sente ofendido, problema é dele… nos EUA, os parâmetros para definir onde acaba a liberdade de expressão e onde começa o discurso de ódio (“hate speech”) são frequentemente abordados em decisões da Suprema Corte. Lá, alguém pode postar um comentário ofensivo na internet (p.e., dizendo que odeia um determinado grupo social) e jamais terão o FBI ou algum órgão policial investigando. A Igreja Batista de Westboro (se não conhece, dê uma pesquisada nesses idiotas), por exemplo, volta e meia faz protestos dizendo que “Deus odeia os gays”, etc. Sob a luz da legislação brasileira, é óbvio que seriam processados – nos EUA, virou um caso em que a Suprema Corte manteve a liberdade de expressão dos membros da igreja, por pior que isso possa nos parecer (vide o caso “Snyder v. Phelps”, de 2011). É claro que somos culturalmente muito diferentes dos EUA, mas eu sinceramente preferiria que as pessoas tivessem liberdade para dizer o que pensam. Creio que ajudaria muito a combater todo tipo de preconceito se soubéssemos até onde ele vai, ao invés de ser mascarado por essa nossa falsa cordialidade. Novamente, parabéns pelo texto e pelo ótimo debate!

        1. Gustavo, sua contribuição técnica e teórica são fundamentais para o enriquecimento deste debate. Só tenho a agradecer! Grande abraço

  8. Dentro desse pensamento, o simples fato de existirem pessoas com Down vivas, trabalhando, produzindo, se formando, casando, tendo filhos, é um grande ofensa àqueles que resolveram matar seus bebês diferentes. Vamos isolar, esconder as pessoas com síndrome de down para não ofender aqueles que acham que eles não valem a pena.

    1. Complementando, eu acho que o fato de você ser jornalista, se expor tanto num jornal de grande alcance como a Folha, ofende as pessoas que, usando a supremacia sobre seus corpos, deram fim a vida de crianças deficientes como você. Acho que você deveria escolher uma profissão mais reclusa tipo, sei lá, virar um ermitão.

        1. Meu rei, tô aqui preparando minhas mal traçadas pra contribuir com o debate.
          Gostaria, no momento, de dar minha impressão sobre a postagem da Karina: não interpretei como ofensa pessoal a você, pelo contrário a achei irônica. Claramente ela se posiciona de forma contrária ao aborto (principalmente se o fato gerador é a gestação de uma pessoa ‘diferente’) e entendi que por vias indiretas ela disse que você não estaria publicando seus textos se tivesse dado o azar de nascer em terras napoleônicas. Pelo menos foi esse o contexto que identifiquei. Obrigado pelo seu comentário a respeito do meu último texto. Abração.

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