A onda dos food trucks e a ressaca da inclusão

Jairo Marques

Meu povo, em grandes cidades brasileira, já há alguns meses, existe uma onda “bacanuda” de liberar caminhões de comida, chicosamente chamados de “food trucks”, a venderem rango pelas ruas de forma mais segura que as barriquinhas clandestinas, com praticidade e preços competitivos.

“Tio, agora você vai deixar os malacabados e escrever sobre gastronomia? Num é à toa que cê tá goooordo, né?”

Não! Calma que já vou soltar os cachorros! 😎

Por sempre haver um desses carros de rango próximo ao jornal, muitas vezes tenho optado por escolher uma comida em algum deles, mas, infelizmente, não existe nenhuma preocupação específica com atendimento ao povo ruim das pernas ou dos sentidos.

Normalmente, fico por ali na beirada dos caminhões, que possuem balcões naturalmente altos, igual a mais um cachorro perdido à espera de alguma atenção.

food2

A falta do olho no olho faz os atendentes demorarem, várias vezes, a perceberem que o cadeirante é um cliente como outro qualquer.

Em alguns food trucks dos EUA há uma indicação, com o símbolo internacional da acessibilidade, mostrando um local de atendimento preferencial ou mais baixo ou em que o atendente vai “se ligar” de oferecer um olhar mais atento ao cliente.

simbolo2

O que tenho percebido é que, embora os caminhões de comida sejam uma revolução urbana, um ganho social, a onda começou com um erro de percurso: ninguém foi treinado para situações de atendimento à diversidade.

“Cê tá querendo melzinho na chupeta? Quer que o chapeiro vá lá te fazer um mimo?”

A minha demanda, como a de todas as pessoas com deficiência, é, somente, igualdade de condições. Penso que os atendentes poderiam descer do caminhão, para ficar um pouco mais em situação de dignidade em uma conversa, para atender a um cadeirante ou uma pessoa com nanismo, por exemplo.

Pela lei paulistana que autoriza os food trucks, os veículos não possuem nenhuma obrigação com inclusão, o que mostra um erro desde o nascimento do serviço. A única orientação que remete à pessoa com deficiência é que os veículos guardem distância de rampas e aparelhos de acessibilidade.

Porém, se os caminhões são comércios, precisavam, a meu ver, obedecer alguns critérios semelhantes aos de outros: cardápio em braile pro povo cego, indicação de um espaço de atendimento, sinalização visual para surdos etc.

food1

O lance não é entrar no caminhão. Nada a ver, claro. O lance é desenvolver um novo serviço já com um espírito do para todos, já com uma consciência de que o coletivo demanda, às vezes, uma atenção ligeiramente diferente. Funcionários que não recebam um cego, um surdo, um PC, um down com espanto ou dúvida, mas como potenciais clientes como outros quaisquer.

Nunca deixei de ser atendido em nenhum caminhão de comida, nem acho que deve-se quebrar o clima informal desse tipo de comércio. Acho, contudo, que pequenos ajustes, sem grandes custos, dariam um up em algo que tem sido tão importante para as cidades.

Comentários

  1. Entendi seu ponto. Faz sentido e não é grande coisa adaptar ou bolar uma solução “inclusiva”.
    No início pensei que seu texto fosse só chororô e essa bobajada politicamente correta. Depois vi que você faz uma boa sugestão.
    Quem bolar um truck assim sairá na frente e venderá mais (especialmente para essa galera que quer salvar o mundo). Não quer dizer que venderá mais para cadeirantes, claro. Mas mostrará que tem preocupação com a inclusão. É um bom marketing… E de quebra ajuda a gente.

    Anhn, e esse nome do blog que “assim me come”? Xô galo!

Comments are closed.