A cirurgia espiritual e a cicatriz real

Jairo Marques

Estava fazendo os preparativos finais para uma cirurgia dramática, mas vital. Era preciso readequar com hastes de metal nobre a minha coluna que era sinuosa como um esse e, aos poucos, estava amassando meu sistema respiratório.

Foram necessárias 12 horas de trabalho e abrir as minhas costas como se abre um peixe para ser assado: 42 pontos fechariam depois a obra médica.

Antes de tudo isso, porém, o médico, entre o espanto e a surpresa, aborda minha mãe com uma radiografia em mãos, apontada para um quadro de luz: “Quando ele fez esse outro procedimento que aparece aqui?”.

Eu tinha entre nove e dez anos de idade e, de fato, já havia passado por muita funilaria para dar jeito nos estragos da pólio, mas nunca na coluna vertebral. No momento, mamãe não tinha ideia do que falava o médico, mas, matutando, dias depois, lembrou-se da única possibilidade: eu havia passado, aos quatro anos, por uma longa cirurgia espiritual.

Dezenas de pessoas esperam por atendimento espiritual em um durante uma seção de cura em Franca (SP) Foto: Silva Junior/ Folhapress março de 2011

O médico recebeu o relato com atenção, não questionou mais nada e realizou a operação que me permitiu seguir adiante minha infância e minha jornada com total normalidade, dentro das minhas diferenças marcantes de menino cadeirante.

Não me recordo da cirurgia espiritual que me deixou a intrigante “cicatriz”, mas me recordo de outras dezenas de visitas a templos de cura, de vibrações para o bem e de exposições a procedimentos que envolviam energias, imposição de mãos e entrega a um universo que mistura inquietações, fé e toda a vulnerabilidade do ser humano em querer entender a si mesmo.

Se nesses mundos existem potenciais enganadores, abutres da fragilidade decorrente da doença, dos males diversos do existir, neles há também muita gente disposta a produzir o ambiente da recuperação, da regeneração, do fortalecimento daquilo que nos move além da carcaça.

Expor-se a um suposto médium de cura é antes imergir em uma atmosfera de acolhimento àquilo que lhe provoca muito mais do que o sofrimento físico, mas a incompletude de viver, o desânimo e a falta de forças para construir o dia a dia.

O aconchego de ser bem-vindo turbina a fé, rega a esperança e faz ampliar a visão que se tem de si mesmo –algo tão relevante como uma cura–, e isso tudo nada tem a ver com ser mais sabido ou ter maior desespero diante de uma situação.

Médium junto com seus auxiliares faz cirurgias espirituais em Franca (SP) Foto: Silva Junior/ Folhapress março de 2011

Atormenta demais ler e ouvir as denúncias de crime sexual em um ambiente onde só se esperavam relatos de vitória e de libertação, mas é necessário jogar luz para o entendimento mais amplo das vítimas e para o resguardo dos seguidores e trabalhadores do local.

Ninguém pode relativizar o sofrimento ocasionado, assim como não se pode ultrajar os relatos de devolução da saúde, de novo sentido para o raiar do sol e da esperança aos que assim se sentem contemplados por suas práticas religiosas.

Todos os anos, nesta época, costumo escrever algo sobre o Natal, mas, com tanta desgraceira na atualidade, enfrentamentos e conflitos, ficou quase impossível contemplar até o lúdico Papai Noel.

Mas, como incorrigível sonhador, meu apelo é para que cada um convoque em si uma atitude de construção positiva, de solidariedade. Que cada um convoque em si sua cicatriz que marca o apego ao próximo e dá força para enfrentar as vaidades, a soberba, a cobiça, a ganância e o egoísmo.

Que cada um convoque a cicatriz, às vezes muito aferrada em valores mesquinhos, que faz lembrar que cada ser é único em suas fragilidades, ideias e desejos de abraçar a vida e dar sentido ao mundo.