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Jairo Marques

Assim como você

Perfil Jairo Marques é jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP

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O crime e o perdão

É de reconhecer, no mínimo, a nobreza do ato do ciclista que perdoou o jovem motorista baladeiro que, munido de um carro, avançou sobre a faixa reservada às bikes, arrancou-lhe o braço direito e fugiu.

À vítima não coube a chance de tentar um possível reimplante do membro decepado, pois o estudante atropelador não teve tempo de pensar nisso. Pensou apenas em escafeder-se daquele momento azedo e livrar-se do membro que sujava o carro e por demais poderia comprometer seu futuro. Aquele braço, afinal, servia apenas para limpar vidros.

O Brasil tem um exército de amputados, mas, diferentemente de nações em guerra, em conflitos civis, nos quais soldados se ferem em minas terrestres ou à bala, os batalhões tupiniquins formam-se em trincheiras urbanas (na violência do trânsito), no descompromisso do labor (em acidentes por displicências) e no descaso com a saúde preventiva (nas amputações geradas pelo diabetes).

Ao passo que se aplaude o perdão do humilde operário, a sociedade tem de ser implacável para cobrar a fatura que coube a si no crime: o custo elevadíssimo do processo de reabilitação do rapaz, um possível –mesmo que temporário– pagamento de benefício social e o valor de reprogramar a vida e o trabalho que será despendido ao jovem.

Não tenho dúvidas de que o garoto irá se recuperar bem e de que voltará a atuar plenamente em todos os campos de sua vida. Mas, após se apagarem os holofotes sobre sua história, o que deve acontecer em breve, ele terá de enfrentar a rudeza de sua nova condição, muitas vezes, sozinho. E não haverá perdão: reaprender a conhecer seu corpo, suas possibilidades e suas habilidades vai ser fundamental para seguir adiante.

“Ah, mas pelo menos ele já ganhou uma prótese ultra, mega, hipersofisticada!”

Sorte grande. Próteses modernosas que aparecem na TV, dando tchauzinho, tocando cavaco e espremendo piolho, são para poucos. O valor desses equipamentos, que realmente atingiram um nível “maraviwonderful” de sofisticação, é de fazer a gente sentar no asfalto quente e chorar uma semana sem parar.

Há próteses que valem mais dinheiro que automóvel de playboy solto na rua para arruinar a felicidade alheia com velocidade e irresponsabilidade. O uso desses equipamentos exige treino, testes, paciência. Além disso, é preciso aguentar dores, tanto físicas como de fracassos e de alguma revolta.

Ao contrário do que se possa imaginar, o sistema de saúde pública do país não garante que a remodelagem da funilaria avariada seja realizada com produtos de primeira linha, que seja tudo o mais puro creme do milho. Quem quer algo além do básico tem de fazer rifa de frango assado ou quebrar o porquinho para conquistar.

Pessoas com membros amputados podem e devem ter um cotidiano normal. Muitas vezes, elas estão ao lado por anos e jamais se percebem suas peculiaridades, tamanha é a perfeição desse nível de reabilitação, de readaptação.

É grandioso e edificante perdoar, porém crimes podem respingar muito além do círculo entre vítima e algoz. Neste momento, faz-se necessário o rigor da Justiça e que se dê o exemplo para a juventude.

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Acessibilidade zero

Faz alguns dias, em um evento, escutei da boca do governador Geraldo Alckmin uma frase que, afora seu caráter e poder político, deixa um compromisso no ar para ser cobrado insistentemente.

Ele disse, para uma plateia de umas 400 pessoas: “São Paulo é o Estado da inclusão e do respeito às diferenças”.

Não sou apoiador de tucano (estou bem mais para papagaio :) ), mas gostei da manifestação. Acho, inclusive, que por aqui as demandas do povão ‘malacabado’ estão sendo ouvidas, estão sendo encaminhadas e realizadas.

Neste mesmo contexto, recebi um apelo dramático da leitora Luziana Cardoso, 26, que mora no interior da Bahia. Lá, para ser puxador de cachorro, motorista de cadeira de rodas, prejudicado do escutador de novela, “tchube” ou demais sobreviventes da guerra, o cabra tem de ser também muito macho.

“Mucugê, fica no centro da Chapada Diamantina, uma região altamente turística da Bahia. Turistas inclusive com diversos problemas de locomoção. Se isso já seria um empecilho para um possível passeio ou viagem turística, imagina-se que tornasse algo imensamente pior para os seus moradores.

Ruas da cidade com piso de pedras

Meus pais são daqui, eu não nasci aqui, mas moro desde os meus 5 anos. Nasci em Feira de Santana, mas nos mudamos pra cá inclusive pelas facilidades que uma cidade do interior teoricamente proporcionaria para alguém com minhas limitações físicas, limitação que não é só minha , mas também de meus irmãos que possuem o mesmo problema ( Distrofia Muscular Progressiva).”

O raciocínio da Luziana está corretíssimo. Espera-se que, no interior as condições sejam menos “brabas” para quem algum tipo de deficiência, uma vez que a dimensão dos problemas é menor e fica bem mais tranquilo de resolver. Sem falar que elementos “complicosos” da cidade grande, como fracasso do transporte público, trânsito caótico, estrutura urbana em frangalhos, quase não existem.

Ruas de pedras e grande escadaria para chegar ao topo sem rampa

Mas, a realidade não é bem assim. O descaso com as diferenças físicas e sensoriais das pessoas também existe e o imobilismo das condições que não nos favorecem é brutal. A ação política em prol da inclusão em alguns rincões tem força de mosca morta.

“Sou funcionária pública municipal há quase quatro anos, e enfrento problemas diários de locomoção desde que me entendo por cidadã. Entendo todas as limitações de um município pequeno, e que conta com poucos recursos, mas entendo também que atitudes mínimas e iniciativas de média proporção já facilitariam a vida de nós “mal-acabados” como vc sempre diz. Sinalizações, rampas, acessibilidade na amplitude de sua nomenclatura.

Portas estreitas e sem degraus

Seria mais fácil para mim, e para a sociedade, que eu fosse isolada, mas minha família, e amigos, em especial minha mãe, não nos deixou viver à mercê do mundo. Com grande sacrifício sempre se esforçou para que não vivêssemos somente dentro de casa, atitude essa que me fez ter o não conformismo em viver do jeito que seria mais fácil pra todo mundo.”

Banheiros com portas estreitas e sem cabine adaptada

Me angustia demais saber que milhares de pessoas com deficiência ainda ficam trancafiadas em casa em decorrência da pobridão urbana, das barreiras arquitetônicas e de atitude. Tenho certeza que, em algum momento da história, a civilização vai se envergonhar muito de tal postura omissa.

Calçadas bloqueadas por degraus para acesso a estabelecimento

Entendo que, em algumas situações, prefeituras pequenas possam ter dificuldades de caixa para ampliar acessos, porém, são vastas as linhas de financiamento e de fomento federais e até internacionais para dar conta do recado.

Outro ponto que envolve apenas responsabilidade e não necessariamente investimento público é o planejamento das cidades. Quando se tem um programa urbano sério, o comércio, os cidadãos tomam medidas que incluem a todos.

Ruas de pedra e calçadas inclinadas e com degraus

“Em todos esses anos em que vivo aqui, algumas adaptações foram feitas na cidade: duas das três escolas da sede do município possuem rampa, mas os banheiros não são adaptados, há rampas de maneiras esparsas e mal localizadas, o que não ajuda muito já que em algumas horas podemos subir num ponto e não conseguimos descer em outro.

O calçamento da cidade é algo dificultoso ao extremo. Por ser um cidade tombada pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), não há possibilidades de grandes mudanças estruturais de acessibilidade, e as mudanças que podem ser realizadas passam por um processo lento e burocrático nesse instituto.”

Fico com sangue nos ‘zóio’ todas as vezes em que vejo relatos que dão conta que o patrimônio histórico está acabando com a história de vida das pessoas. Isso é aberrante, é ultrajante. De nada serve um museu de 500 anos se ele não pode ser contemplado, admirado e desfrutado por todos.

Alguns defensores da “coiserada veia” precisam se atualizar. Precisam de criar maneiras inteligentes para deixar desse ranço de que “nada pode” doa a quem doer. Esse tipo de mentalidade não existe em nenhum ponto civilizado do planeta.

Calçadas irregulares e quebradas

“Devido há esses acontecimentos, resolvi crias uma petição pública, que encaminharei ao Ministério Público, Prefeitura, IPHAN e Câmara Municipal para que algo seja feito pelo menos no intuito de amenizar tais dificuldades.

Sei que o mínimo que eu consiga com minha atitude, não mudará a atitude e o discernimento de cada indivíduo que desrespeita o espaço do outro, que estaciona numa rampa, que ocupa uma calçada, mas mostrando o meu direito de manifestação e indignação sei que outros buscarão também os seus direitos.”

Eu apoio demais a atitude dessa baiana, mesmo aqui, há quilômetros de distância. Atitudes são fundamentais para a mudança de realidade. Bora gritar bem alto para que alguém em Mucugê nos ouça… Mucugê e qualquer outro município dos “confins” brasileiro… com orgulho.

Para acessar a petição pública, é só clicar no bozo. 

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Violência e deficiência

O tema é muito grave e admito que pouco tratei dele em vários anos de blog: a violência a que parte do povo ‘malacabado’ está exposto em situações comuns de convívio social como ir ao cinema, a uma praça, à escola ou à casa do chapéu, tanto faz.

“Credo, tio, do que é que você tá falando, heim”?

O papo é seríssimo, ‘zimininos’. Muitas vezes, as pessoas não entendem reações, gestos ou mesmo atitudes de alguns ‘estropiados’ e partem para a violência em uma tentativa de “arrumar” a situação.

Pensem, por exemplo, em um indivíduo que tenha problemas de fala. Pode-se achar que ele está zombando de alguém, fazendo brincadeira. Os casos são mais graves, entretanto, com pessoas com deficiência intelectual ou com algum comprometimento nas faculdades psíquicas, os “tchuberubes”, digamos assim.

Existem síndromes ou transtornos que fazem o cidadão ter o humor alterado ou que o fazem falar muito alto. O mais comum, claro, é estranhar aquilo e quer dar um fim. Raramente nos damos conta de que ali pode estar alguém alterado ou que, devido a uma deficiência, reage de uma forma não usual.

O relato abaixo é de uma mãe que viu o filho apanhando na rua em consequência de ações geradas por sua enfermidade. É dramático imaginar que isso acontece aos montes.

Importante que, cada vez mais, todos fiquem cientes de peculiaridades comportamentais que possam existir em alguém com deficiência e saibam como atuar diante delas. O caminho da violência com aquilo que se estranha, contudo, não é nada humano, nada que agregue e nada que construa uma sociedade melhor.

Fiquem com o texto e com a profunda e dolorosa reflexão de Golby Pullig…

♥ 

Pra sermos mães precisamos de filhos. Tão óbvio quanto a lógica de que pra estarmos vivos precisamos respirar. E pra sermos mães de filhos com deficiência precisamos de quê? Precisamos ser o quê?

Qual medida usar pra sermos boas, adequadas, justas, competentes, as capazes mães de filhos ‘diferentes’? Quantos ‘sins’ e quantos ‘nãos’ devemos dizer, quantas caras feias e de nojo suportar, quantas lágrimas segurar, quanta fé, quanta força desenvolver pra protegê-los das maldades do mundo? 

Como dosar essa proteção pra não se tornar super? Quantos mares terei que mandar abrir pra que meus filhos passem sãos e salvos? São perguntas que de vez em quando aparecem na minha lista de questões sem resposta imediata, que normalmente me dão trabalho pra encontrar.

Enquanto eu pedia aos céus que um bálsamo fosse derramado sobre as dificuldades diárias que enfrento por muitas vezes não saber lidar com meu combo (lá em casa recebi duas especialidades de presente), fiquei de uma hora pra outra diante de mais um desafio: lidar com uma situação extrema que coloca todas essas dúvidas no chinelo.

Agora a missão não é buscar respostas apenas pra mim, mas pra todas as outras mães que se sentiram tão afrontadas e agredidas em ver um jovem com visíveis dificuldades ser agredido de forma banal dentro de um ônibus.

O tio Jairo deve colocar o Bozo aqui pra quem quiser ver.

(Clique no bozo para ver a cena ). O motivo: falou alto demais, gritou comigo ao telefone, e ao ser interpelado e mandado que calasse a boca pelo motorista, disse que não calaria. 

Após dizer isto, eu que estava ouvindo tudo pelo telefone, fui testemunha de uma série de gritos, mas ouvia principalmente os dele que pediam: “me larga, me larga”.

Os detalhes desse atrito dentro do ônibus ficou gravado no boletim de ocorrência, mas da minha mente não saiu o relato dele suprimido deste texto porque, de fato, não é isto o que importa. O que importa é que anos de indignação e revolta por bullying, incompreensão e preconceito vieram à tona no coração dele.

Tantas injustiças de tantas formas eclodiram de uma vez só. O consolo foi garantir que processaria a quem preciso fosse.

Sou uma mãe muito paciente. Jó deve ser meu ancestral. Mas sou rígida, cobro que meus filhos superem suas limitações e avancem em direção às suas conquistas por seus próprios méritos.

Ajudo no que for preciso, me desdobro e até há pouco tempo me anulava pra que eles pudessem sobreviver ou viver melhor. Mas não tenho peninha, não. Vamos à luta!, é o lema lá em casa. E tento educar, como qualquer mãe de qualquer filho, com os valores que acho corretos.

Respeitar os mais velhos, respeitar as pessoas de uma forma geral, comer com educação, não falar alto. Erro muito como toda mãe na tentativa de acertar.

Meu filho tem um transtorno que o caracteriza com comportamento bordeline. No geral é educado, alegre, brincalhão, curioso, inteligente, mas fala muito alto tanto quando está eufórico. Grita quando está nervoso.

Esse foi o grande erro dele. Mesmo com as escoriações ele ouviu que poderia ter se controlado, mas nada, nada mesmo justifica aquele absurdo. Os óculos tão desejado e procurado, quebrado e não devolvido; celular jogado no chão; chute no traseiro.

Muitas pessoas vieram até mim durante os dias que se seguiram à exibição do vídeo pra prestar solidariedade. Muitos me disseram que choraram muito. Vocês não têm ideia do quanto eu chorei.

A dor que doeu nele doeu tão mais em mim porque li no comportamento dele, aquela saída resignada depois da agressão, uma atitude de “tudo bem, vamos em frente”. Sim, vamos em frente sem deixar esta agressão pra trás.

Esta é a mensagem que quero deixar pra quem passa por situações semelhantes. Aprendi com tudo isso que é preciso ensinar nossos filhos a serem fortes, guerreiros, resistentes e também sensíveis ao que não é justo consigo mesmo.

Não é possível ainda falar sobre isso sem chorar, sem me indignar, sem me revoltar. Não quero vingança, quero Justiça. Estou procurando ter calma pra não cometer erros neste processo. Pensar em Justiça é um conflito pra quem aprende a superar todos os dias as dificuldades das limitações físicas, emocionais, intelectuais de seus filhos, irmãos, mães, pais, amigos e as suas próprias.

Demitir motoristas não vai melhorar o sistema que se fecha em si mesmo já que o usuário cobra o município, que cobra as empresas, que deveriam cobrar os profissionais que trabalham nas ruas. Somos um corpo só, um corpo único dentro das cidades e que precisam se respeitar.

Ele é um jovem. Eu conheço bem o histórico dele. Conheço cada traço de suas expressões. Já senti na pele a angústia que o acompanhou durante anos porque se sentiu excluído ou injustiçado, desprezado, ridicularizado.

Em determinado momento da adolescência passou a agir assim como uma espécie de catarse. Como se quiser ferir por ser tão ferido. Graças a Deus está superando isso com  entendimento espiritual, maturidade, remédio correto, terapia, amor, cuidado, limite, cobrança, paciência e mais amor.

Eu que não sabia como começar esse texto agora não sei como colocar um ponto final, mas tenho a certeza de que o que precisa ser dito é: as demandas especiais que cada um de nós tem é por respeito, por autoestima, por dignidade, por Justiça, por amor.

Agradeço às dezenas de pessoas, conhecidas e desconhecidas que se solidarizam comigo, compartilham o vídeo (que já é viral na internet), choram, oram, se indignam.

Sou jornalista e aprendi a ouvir e contar relatos de histórias parecidas. Nunca imaginei que nós estaríamos do outro lado da notícia.  Este vídeo não foi gravado por acaso. Ele representa tantas pessoas vítimas dos maus tratos praticados por motoristas de ônibus em Rio Branco (AC) e que agora é possível provar.

Há outras provas. Todos estão mais alertas. É preciso sim buscar e lutar por seus direitos. É isso o que vamos fazer, o que estamos fazendo. Quanto ao Ariel, meu filho amado, ele só ri e canta desde que soube que alguém gravou o que aconteceu.

Enquanto eu tremia e chorava ao ver o vídeo, ele simplesmente gritou: “Uhuuul. Agora vão acreditar em mim”.

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Óleo para deputado

Quis saber mais sobre a vida do deputado Marco Feliciano (PSC-SP), que agora vai me representar na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, e encontrei nas internets, como diria Cony, uma das dezenas de cenas do cidadão em sua função primeira, a de pastor se dirigindo ao rebanho.

Nas imagens, o político conta como salvou um rapaz da desgraceira da deficiência que o trancafiava em uma cadeira de rodas: besuntou o desgraçado com um óleo extraído sabe-se lá de onde, entoou aquelas palavras firmes que mais parecem bronca de açougueiro em cachorro pidão e botou a mão em riste, provavelmente, intermediando alguma luz divina ou para tapar a cara e não envergonhar o divino.

A história termina, evidentemente, com o cidadão, que era mais quebrado que arroz de terceira, curando-se milagrosamente e arrotando para o mundo que falta aos outros indivíduos mal-acabados ter mais fé em ao se lambuzar no óleo.

O efeito que ações assim provocam na vida das pessoas com deficiência e suas famílias pode ser devastador. Tanto é preciso ter paciência de Jó para aguentar abordagens de estranhos na rua dizendo que, “se você for à igreja xyz, o pastor vai te curar” como se ganha a pecha de incrédulo, de indivíduo de pouca fé no coração.

Na infância, eu seria capaz de desafiar um pastel de feira para ver quem foi mais exposto a sebos de todas as origens, qualidades e densidades. Eram sempre ilusões vãs para almas angustiadas em busca de uma solução para o irremediável.

Quando o pastor Marcos Feliciano se compromete a curar um cadeirante lambuzando-o com óleo, passo a questionar se ele vai respeitar sua condição de ser vivente, se vai entender suas demandas sociais e se vai mesmo tentar garantir seus direitos.

Somo minha indignação à dos gays, que se veem desrespeitados com uma representação que, abertamente, é contrária à evolução de suas conquistas, e à dos negros, que tiveram tratamento, para o dizer o mínimo, esdrúxulo por parte do deputado.

A representação que Feliciano fará de diversos grupos no Congresso tinha de ser legítima do começo ao fim, tinha de ser incontestável e ungida com vigor por aqueles que dele vão depender em uma das esferas democráticas mais importantes.

As leis que abrigam as minorias demoraram séculos para serem aceitas, entendidas e abraçadas. Não é possível que um sujeito tão longe dessa história e tão perto de tudo o que significa o retrógrado seja mais forte.

Creio que o deputado ainda falará mais de perto com sua tão inabalável fé e verá que a ele está faltando um óleo salvador, um óleo que alise sua vaidade de querer atuar em palco onde é enxovalhado, que melhore seu atual aspecto de petulância diante gritos que parecem não ressoar em madeira.

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Fui assistir ao vibrante filme “Colegas”, de Marcelo Galvão, que lotou uma kombi de pessoas com síndrome de Down e mostrou ao planeta que há muita felicidade, beleza e graça na diversidade.

A obra dá uma rasteira no “coitadismo”, no assistencialismo ridículo e encanta o público mostrando possibilidades infinitas quando se é diferente. Vá e leve as crianças!

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Mulher e amores

A conclusão não é nova, nem vai trazer surpresas: mulheres seguram bem mais o rojão no momento em que uma fatalidade acontece em um relacionamento.

Elas costumam ter mais maturidade quando o caldo entorna e é preciso rearranjar a forma de lidar com o outro em sua realidade física e psicológica. Mulher tem menos medo de enfrentar a batalha da reconstrução de um amor.

Para homenagear o Dia da Mulher, trago hoje a história de um casal que se reinventou para manter o sentimento. Bárbara comeu o pão que o capeta não quis no momento em que Marcos se acidentou e ficou tetrão.

“Di certeza” que muitos homens cairiam fora em um momento de tamanha pressão e responsabilidade (ou depois que a tormenta se acalmasse um pouco), mas mulheres se pautam pelo todo, não pelos pedaços.

A perseverança feminina, muitas vezes, é o que mantém a união e dá fôlego para um romance, uma história de vida.

Acho que ‘ceitudo’ terão uma leitura saborosa e inspiradora tanto para valorizar amores como para vibrar com um pouco da garra e da terminação ‘macha’ das mulheres.

♣ 

“Comecei a namorar meu marido há dez anos, em 2002. Como todo o relacionamento, tivemos nossos altos e baixos, mas sempre lidamos com as dificuldades com muito bom humor. Mesmo nas fases de “vacas magras”, nós estávamos juntos, rindo e procurando aprender com as dificuldades.

No fim de 2011, tudo parecia estar lindo: eu estava no comecinho de uma gravidez inesperada, porém desejada e tínhamos resolvido passar a virada do ano com amigos, numa viagem de barco pelos rios Tapajós e Anapuruns (PA).

Dia de sol, a viagem prometia ser incrível. Na primeira parada do barco, o pessoal desceu e entrou no rio. Todos começando a se divertir quando de repente vejo alguém caído na areia.

Estava no outro barco, dançando e conversando com as amigas e, míope que sou, precisei ‘apertar’ a vista pra reconhecer meu marido deitado no chão. Nem lembro como é que desci do barco! Só sei que cheguei ali, ao lado dele, na certeza de que uma arraia o ‘atacara’.

Antes fosse. Ele mergulhou do segundo andar do barco, bateu a cabeça num banco de areia e teve uma lesão medular na sexta e sétima vértebras cervicais. O dano foi maior na altura da C6. 

 

Enquanto esperávamos pela chegada dos Bombeiros, na Ponta do Cururu, os amigos se revezavam entre segurar a canga, para manter Marcos na sombra, manter sua boca hidratada, massagear seus ombros e acalmá-lo.

Cerca de duas horas depois, chegou o resgate com a maca do Samu e um colar cervical. Devidamente seguro e imobilizado, seguimos juntos para o Hospital Municipal de Santarém, onde Marcos recebeu os primeiros socorros e realizou uma série de tomografias. Eu ainda estava atordoada e em choque.

Ele foi operado uma semana depois e ficou internado no Hospital Regional do Baixo Amazonas durante 44 dias. Teve broncopneumonia, úlcera de pressão, que ainda está em processo de cicatrização e perda dos movimentos de braços e pernas. O prognóstico era o pior possível.

Eu nem conseguia pensar em nada, só em estar ali, ao lado dele. Afinal de contas, era meu marido, meu companheiro, meu parceiro de tudo quem estava ali… Acho que nunca chorei tanto na minha vida. Minha avó sempre dizia que chorar dá rugas, e eu devo ter envelhecido uns cinquenta anos em um mês e meio.

Santarém é a segunda maior cidade do Pará, e até ir para Alter do Chão, só tinha ouvido falar da cidade por causa da novela “Tieta”. Alguém se lembra que a personagem principal foi morar em Santarém, com um coronel, antes de voltar para Mangue Seco?

E lá eu estava sozinha, sem família, sem casa, sem nada.  Alguns amigos ficaram com a gente nos primeiros dias, ajudaram a encaminhar as coisas e seguiram viagem.  O pai do Marcos chegou na virada do ano e, em seguida, vieram os irmãos, amigos, minha mãe. Todo o mundo se revezando nos cuidados com ele.

Mas eu nunca estava de fato sozinha: amigos ligavam toda a hora querendo saber noticias e principalmente, saber como ajudar. A irmã dele lançou uma campanha de arrecadação de recursos e muita gente ajudou.

Algumas amigas minhas organizaram uma feijoada beneficente, que foi um sucesso. Outra amiga fez uma rifa. Várias amigas fizeram posts em seus blogs e compartilharam a história e a campanha de arrecadação de recursos. Nessas horas, a gente aprende a dar valor a tanta coisa! Eu me sentia abraçada o tempo todo, o que me deu muita força.

O que me mantinha viva e forte eram as lembranças, e principalmente, a esperança de um futuro melhor.  Alem disso, eu nunca acreditei nos vaticínios dos médicos: quem são eles pra dizer o que Marcos iria recuperar, e o que não iria?

Logo, descobri que lesão medular é um negócio totalmente imprevisível: não dá pra prever o que a pessoa vai recuperar, nem como, nem quando, nem nada. Ai pronto: virei pra ele e disse que não era pra acreditar em nada do que os médicos dissessem, que tudo ficaria bem. De um jeito ou de outro.

 

Nos momentos mais tristes, ficava me lembrando de vários momentos bacanas, como quando começamos a procurar apartamento, pra morar juntos. Ele era compulsivo, desenhava as plantas dos apartamentos, pensava nos móveis, fazia tabelas e rankings dos apartamentos mais legais…

Quando finalmente mudamos, nós escolhemos juntos o melhor varal, a torneira da cozinha e do banheiro, os lustres ‘estilosos’ pra sala e quarto… e saíamos pra escolher móveis juntos – ele cheio de paciência e disposição, medindo tudo com a trena, e eu querendo comprar o primeiro rack que víamos na frente.

Hoje em dia, o que eu mais sinto falta, é da nossa rotinazinha: ligação pra saber se eu queria alguma coisa do mercado, pensar no jantar e cozinhar juntos. Essas coisas que parecem bobas, mas que fazem tanta falta quando não temos mais, e que não sei se teremos novamente.

Uma das memórias que tenho, do início de tudo, foi a de reler “Feliz Ano Velho” depois de voltar a São Paulo. Lembro de ter achado tudo muito parecido, apesar de não saber o que Marcos andou pensando nos primeiros dias dele, lá em Santarém.

Escrevi num diário que comecei, na época: ‘Eu ainda to assimilando tudo. A vida mudou e eu tô tentando racionalizar e encontrar esperanças. Decidi não me preocupar com o que os médicos falam sobre a reabilitação porque isso não faz a menor diferença: o importante é o estado clínico do Marcos. É disso que depende a reabilitação dele: sem febre, sem escara, sem assadura, sem anemia – é isso que vai fazer toda a diferença.’

Um ano depois do acidente, nós continuamos juntos. Ele continua sendo o amor da minha vida, o cara mais sensacional do mundo. Eu continuo com a certeza de que quero dividir a minha vida com ele e nós continuamos a fazer planos e a sonhar com a nossa casinha (ele está, provisoriamente, na casa dos pais).

Depois do acidente, eu só conseguia pensar que se a vida tinha me dado limões, eu faria dela uma limonada suíça, ou uma caipirinha caprichada. Não temos como voltar atrás nas coisas. Eu resolvi que era hora de respirar fundo e seguir em frente.

Alguns fatos simplesmente não têm explicação. Olho as fotos do Marcos e não me canso de lembrar tudo o que vivemos até o dia do acidente. E quando olho pra frente, só enxergo o dia seguinte.

Uma das coisas que eu achava mais fofo era ver nossas fotos, ao longo dos anos, e perceber que o olhar apaixonado permanecia ali. No mínimo, inspirador.

A vida segue. A gente vem aprendendo, todos os dias, a superar as dificuldades, as dúvidas, os medos. Tudo isso graças à parceria que construímos ao longo dos anos juntos.

Hoje, ele já movimenta bem os braços, já consegue segurar um copo sozinho, digitar os números no telefone, comer pão de queijo! Pequenas conquistas que fazem toda a diferença. Aprendi a empurrar a cadeira e a gente sai juntos: cinema, jantar fora, boteco com os amigos! A vida ficou um pouquinho mais difícil, mas já melhorou tanto em vista do quadro que se formou na época do acidente!

E eu sei que vai melhorar ainda mais. Nós vamos fazer uma festa de casamento, temos planos de engravidar (aquela gravidez não foi adiante…), de realizar muitos sonhos juntos.

Não estamos morando juntos, por enquanto. Por uma decisão nossa, ele voltou a morar com os pais, durante esse período inicial da reabilitação. Tudo porque morávamos no terceiro andar de um prédio sem elevador, e eu não tive tempo hábil (nem condições emocionais) de resolver mudança e reforma durante o tempo em que ele esteve na primeira internação.

Então, a ausência dele me consome demais. Contornamos isso nos falando diariamente, não raro, mais de uma vez ao dia. Choramos juntos, brigamos, fazemos planos e definimos assuntos importantes para conversar pessoalmente. E aprendemos a aproveitar muito mais o tempo que ficamos juntos. 

Assim, a vida tem seguido. Dizem que a gravidade segura tudo em seus lugares, mas quem faz o mundo girar é o amor”.

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A deficiência reversível

Ainda não caiu no senso comum no Brasil, nem mesmo entre a classe médica, mas existe uma deficiência que é altamente reversível nos dias atuais: a surdez, em algumas condições.

“Aí, tiozão, pirou de vez?”

Não, meu povo. A tecnologia, felizmente, já consegue fazer uns ‘ziriguiduns’ no cérebro que são capazes de, grosso modo, reprogramar o escutador de novela avariado que volta a ‘funfar’ de uma maneira que beira ao milagre.

Digo isso a vocês porque acompanho um desses processo há uns dois anos por meio de uma de minhas primeiras leitoras mais fiéis, que se chama Lak Lobato.

Na imagem, Lak de chapéu, sorrindo, em uma festa de aniversário

Quando a conheci, ela fazia leitura labial para entender o que os outros falavam e pronunciava com alguma dificuldade, com um ruído na voz.

Lak perdeu quase toda audição na infância e cresceu surda. Mais tarde, bem mais tarde, conheceu uma alternativa para reativar o sentido perdido. Incrível.

Dia desses, em um dos meus plantões de final de semana, o telefone tocou e….

“Zairo….? Tudo bem? É a Lak!”

E a moça que não ouvia, agora, consegue até bater papo ao celular. O resto da história, ela mesma conta.

Importante é circularmos a informação, popularizar o tratamento (que nem todas as pessoas, infelizmente, conseguem ter resultado) e cobrar mais incentivo à ciência, à tecnologia séria que vai dar mais qualidade de vida para todos!

“O dia em que voltei a ouvir”

Algo que muita gente não sabe é que, de certa forma, todos somos capazes de fazer milagres. E o meu , foi um milagre feito a muitas mãos, mas tudo começou aqui no Assim Como Você.

Lembro que há três anos e meio, vagueava na internet, na minha primeira semana de trabalho – e estava sem ter o que fazer – numa agência (sou publicitária) e cai nesse blog.  Identifiquei-me com a linguagem leve, de quem fala de deficiência sem pesar, sem mágoas, sem coitadismos.

Porque perdi a audição cedo, aos 10 anos de idade e me sentia meio diferente da maioria das pessoas ao meu redor. Muito porque a surdez não me privou do contato com as pessoas, só limitou um pouco. Sempre falei oralmente e sempre li lábios, o que já me colocava distante da maioria dos surdos, que utilizam a língua de sinais como forma de comunicação.

Aqui no ACV, pela primeira vez, eu me senti em casa. Não sei explicar essa união simbiótica que existe entre os leitores do blog. E justamente por me sentir bem, comecei a falar mais do assunto e acabei criando o próprio cantinho de textos, o “Desculpe, não ouvi!”, vulgo DNO. (clique no bozo para acessar!)

 

Lak, em frente ao computador, mostrando seu blog, o Desculpe, não ouvi!

 

Foi de lá que, escrevendo sobre surdez com foco exclusivo nos surdos que não usam a língua de sinais, um grupo pouco conhecido, veio a vontade de ouvir um pouco melhor do que os aparelhos que eu usava me permitiam. Por causa do blog, conversei com muitos usuários do Implante Coclear, que é uma tecnologia disponível que permite que deficientes auditivos de grau severo/profundo tenham acesso aos sons.

E, apesar de morrer de medo da anestesia, acabei encarando fazer essa cirurgia em outubro de 2009, que foi o despertar de todo um renascimento sonoro. A experiência está totalmente documentada na internet. Foi um momento lindo, com milhares de descobertas diárias de sons.

Meus textos acabaram servindo também de inspiração para muitas pessoas, com casos similares e outros nem tanto, buscarem o IC também. Acabei virando uma espécie de poetiza da comunidade implantada. Viajei para encontros de usuários do IC, dei palestras, entrevistas, gravei documentários. Tudo porque eu colocava poesia em cada som que ouvia, declarava o imenso prazer de sair daquela clausura silenciosa de quase três décadas.

Mas, apesar do entusiasmo, eu ainda dependia da leitura labial. Meu IC foi um sucesso no ponto de vista emocional, mas não auditivo. Minha cóclea, onde é inserido o feixe de eletrodos que substituem as células ciliadas da audição, não estava em bom estado físico e, dos 22 eletrodos de um feixe completo, somente 18 foram inseridos e 15 ativados.

 

Raio-x do crânio de Lak, onde é possível ver o implante internamente

 

Ainda assim, não me era motivo de desânimo ou tristeza. Sou surda desde os 10 anos e, apesar de ter encarado uma cirurgia para ouvir de novo, não tinha problema não ter conseguido isso plenamente. Minha surdez é parte de quem eu sou…

Meu médico sempre insistiu para que eu tentasse o IC no outro ouvido ainda não implantado, o direito. Ele achava que a chance de ter um ganho melhor era grande e a gente deveria tentar. Pior que já estava, certamente não ficaria…

Demorei exatos três anos para criar coragem. Muito mais pela preguiça dos ‘trocentos’ mapeamentos que o primeiro ano de implantada exige (mapeamentos são as programações feitas, aos poucos, para ajustar o som até ele ficar adequado ao tipo particular de perda auditiva que cada implantado tem), do que aversão a uma nova cirurgia.

A única coisa que pedi pro médico foi pra ele tentar o impossível para incluir todos os 22 eletrodos, porque sabia que os eletrodos a menos afetavam as frequências da fala e me obrigavam a continuar dependendo da leitura labial.

Todos os especialistas diziam, pelo tempo que fiquei sem ouvir (eram quase 26 anos) os resultados, a revelia da quantidade de eletrodos, iriam ser demorados e dependeriam de treino.

Pois bem, fiz a segunda cirurgia e, assim que acordada da anestesia, tive a confirmação que, daquela vez, a cóclea estava perfeita e foi possível inserir todos os 22 eletrodos facilmente. Chorei tanto quando tive a notícia, que parecia que eu já sabia tudo que me aguardava a partir dali.

São 30 dias entre a cirurgia e a ativação do aparelho e, pra mim, parecia que o tempo não passava. Acho que atormentei todas as pessoas ao meu redor por conta da ansiedade.

Quando ativei o aparelho, foi de acordo com o esperado. Bem baixinho e tudo o que ouvia se parecia com sinos. É, seria necessário esperar, quem saberia dizer quanto tempo?

Nove dias depois, Jairo fez aniversário (citando o fato só para ilustrar a coincidência!) e fizemos uma festa surpresa pra ele. Foi tudo lindo e perfeito, como deveria ser. Saindo da festa, peguei um táxi com o marido, já tarde da noite e eu estava olhando para o meu celular, quando ouvi a voz do Eduardo, claramente, dizendo “Passa em frente ao aeroporto e vira à direita”.

Foi o maior susto da minha vida! Vinte e cinco anos sem entender claramente sequer uma palavra sem ler lábios e entendi uma explicação complexa apenas nove dias depois de ativada.

No dia seguinte, tentei ouvir a primeira música – porque, embora eu conseguisse ouvir a melodia, com o IC esquerdo, eu não conseguia entender a letra – e foi um sucesso. Chorei rios de lágrimas por conseguir algo que, para todos os efeitos, estava totalmente fora do meu alcance. Cheguei a achar, de verdade, que nunca mais poderia fazer isso. E pude! Graças ao implante coclear.

A partir daí, comecei a tentar conversar com as pessoas sem olhar pra elas, para treinar entendê-las sem fazer leitura labial.

 

Mostrando a parte externa do IC

 

Duas semanas depois, veio um novo desafio: tentar utilizar o telefone. Para quem depende de leitura labial, esse é o desafio máximo, porque é somente o som que é transmitido pelo telefone, sem nenhum apoio visual, portanto, é a coisa mais difícil para a gente fazer. A primeira ligação foi de brincadeira com o Edu, que estava na sala e eu, no quarto. Não foi difícil, porque estou acostumada com a voz dele. Depois, fiz uma tentativa insana, liguei para minha melhor amiga, do nada. A conversa foi rápida, mas perfeita!  

É claro que ainda tenho chão pela frente, meu cérebro está reaprendendo a ouvir, coisa que não fez por duas décadas e meia. Mas, cada conquista minha é festejada, vira poesia, vira inspiração para muita gente. Eu me divirto de entender as frases ditas por gravação no edifício onde trabalho, com as coisas que as pessoas falam durante o abraço, de entender a conversa alheia da qual não faço parte, com a sensação de que os sons estão dentro da minha cabeça, porque a diferença de ouvir bem com dois ouvidos, de um só, é basicamente essa, com os dois, a sensação que dá é que o barulho entra diretamente no seu cérebro…

 

Lak em um momento de “deslumbramento sonoro” ao lado de uma pequena corrente de água

 

Ainda tenho minhas limitações, obviamente. O IC não curou a minha surdez, só me deu acesso aos sons. Sou péssima para entender em locais barulhentos (nesse caso, recorro à leitura labial), meu IC depende de pilha (ou seja, ela pode acabar em momentos imprevistos) e tenho que tirá-lo para dormir e tomar banho. Portanto, a praia continua tendo que ser curtida em silêncio.

Porém, independentemente de quaisquer limitações que o IC possa vir a ter, admito que vivo em estado de graça. Meu pai fez aniversário nesse meio tempo e pude, pela primeira vez na vida, fazer um simples telefone para desejar feliz aniversário.

Percebo que sou uma criança deslumbrada, no corpo de uma pessoa adulta. Quase tudo que tem a ver com som me é novidade. Me delicio, me divirto, me encanto, depois de quase três décadas de silêncio, com tudo o que é sonoro!

Jairo, de verdade, você pode dizer que seu blog é capaz de tudo, inclusive de milagres! O meu foi um deles!

Beijinhos sonoros!

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Às vidas na UTI

É comum ouvir por aqui e por acolá: “Fulano está nas últimas. Foi parar até na UTI, coitado”. É como se o destino de quem precisasse da unidade de emergência máxima de um hospital já estivesse selado e o calcanhar do cidadão já começasse a afundar na cova. Parar ali seria como se apresentar na antessala de são Pedro.

Essa aberrante história da médica do Paraná que, ao que tudo indica, dormia fora da casinha e adotava procedimentos heterodoxos na unidade que chefiava, pelo menos pode servir para chamar mais a atenção para aqueles que precisam, em algum momento, ficar em um local de tratamentos intensivos.

Como ex-hóspede de UTIs por três vezes (após serviços de funilaria na coluna e nas pernas tortas), penso que as unidades não devem jamais ser vistas como o pavilhão da morte, como a porta de entrada do além.

Os locais são, sim, as esferas máximas da ciência e da inteligência humana em prol da vida, em prol da recuperação da carcaça abatida, da mente desgastada, de ajuste após uma pane no sistema de controle de poder acordar e fazer tudo igual ou não.

É na unidade de terapia intensiva que os médicos mais profundamente agarrados aos valores humanos deveriam trabalhar. Para eles, fazer diferenciação no modo de tratar os que ali estão seria impensável, impraticável e impossível.

No sangue desses profissionais só correria garra de fazer mais, os batimentos cardíacos só gritariam “para a frente, para a frente” e suas pressões arteriais, equilibradíssimas, empurrariam para caminhos de esperança, de novas possibilidades.

Na UTI, só deveriam entrar aqueles capacitados para serem incansáveis em acreditar na recuperação dos outros, aqueles mais sensíveis para entender que, para cada um dos internos de sua unidade, há uma família aflita por esperança e por boas-novas.

Quando alguém entra em um serviço de tratamento intensivo, fica do lado de fora um caminhão de dúvidas: quantas vezes vão escovar seus dentes e cuidar dos cabelos? Quem fará os movimentos do seu corpo enquanto a mente estiver descansando? O clima lá dentro é de esperança ou é insosso?

Já ouvi relatos de barbaridades ditas por profissionais que atuam com pessoas que supostamente estavam “para lá de Bagdá”, entubadas, aparelhadas, sedadas ao máximo, mas, em alguns casos, conscientes.

Mais uma vez, aqui, penso que essa área hospitalar teria de, permanentemente, relembrar entre a equipe suas funções, suas missões, suas obrigações médicas, morais e de humanidade.

Ir “parar na UTI” deveria ser entendido como o momento em que tudo será feito para que você tenha uma nova chance de seguir adiante. E quem é bem acolhido em uma situação dessas, quem resgata a existência após uma experiência dessas, tende a ser agraciado com pacotes imensos de esperança a ser distribuída.

Há vidas nas UTIs. Há pessoas agarradas à fé de que a evolução do homem é tão maravilhosa que é capaz de resgatar qualquer um de seu suposto ponto final. Xô aos incrédulos que querem abreviar o caminho de quem brecou em uma curva, mas que ainda tem muita estrada adiante!

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Muito além de apenas sexo

Finalmente, consegui ver “As Sessões”, atualmente, em vários cinemas do país e concorrente ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, com Helen Hunt. O filme me foi mais recomendado que banho de sal grosso pra olho gordo… :lol:

Claro, o tema central da trama é a vida de um “malacabado”, daqueles beeeeem arruinados mesmo, que dão mais trabalho que um tanque cheio de roupa suja…

O ponto alto: a busca do personagem principal, Mark O´Brien, por uma realização sexual. Ele teve paralisia infantil grave e ficou absolutamente dependente de todos, vivendo em uma maca e tendo de respirar por meio de uma geringonça imensa.

De cara, o filme pisa no calo e pega um montão de pessoas com deficiência ou que, por alguma razão, tenha algum tipo de obstáculo para atingir o gol na cama, um rala e rola, uma funfada!

Como alguém com restrições severas de movimentos conquista alguém ao ponto de conseguir transar com ela? Será que sexo é algo para os fortes, para os certinhos e para os completinhos?

Caso não consiga um “alguém especial”, é legítimo e bacana contratar um serviço para satisfazer o tesão que é algo nato, saudável e gostoso de todo “serumano”?

Morre-se virgem e angustiado com o mundo?

“As Sessões” expõe uma situação que muitos preferem criar falsos moralismos ou esconder de baixo do tapete para botar na mesa: como resolver a vida sexual daqueles que mal conseguem tocar no “bilau” ou na “perseguida”. :shock:

“Zimininos”, eu vibrei com o desenrolar do filme, que vai ganhando complexidade à medida que Mark vai chegando mais perto daquilo que tanto quer: dar uma trepada, seja com quem for.

Mistura-se a isso religiosidade, pois o danado do aleijado para tudo o que faz se confessa com um padre, sentimentos românticos e relacionamentos.

“Tio, mas falai: só os quebrados vão curtir? E qual a sua impressão disso tudo?”

Certamente que todo mundo vai ser cativado por Mark e por suas dúvidas existências. Sem falar que, o diretor bota na roda a discussão da importância do sexo e as possibilidades de amar.

Para mim, é legítimo que haja um serviço, um puteiro ou o seja lá o que for destinado às pessoas com deficiência. Sexo é algo que enquanto não se faz, pode atormentar  o desenvolvimento emocional, afetivo e de confiança do cidadão.

O filme tem uma sacada incrível no seu desenrolar: mostrar até que ponto é mesmo o vuco-vuco necessário e fundamental para sermos mais HOMENS ou mais MULHERES.

Recomendo fortemente para que vejam e para que reflitam sobre essas questões que “As Sessões” aborda. Para dar uma curiosidade, segue abaixo um trailler legendado! #ficadica

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Bêbados e cadeirantes

Havia tempos eu não me atrevia a enfiar minhas quatro rodas em uma muvuca, mas no Carnaval eu resolvi dar uma “despirocada” e deitei o cabelo para o interior de Minas para curtir a festa junta à “famiage”.

Desde menino tenho siricutico na alma e gosto de música, gosto de samba, gosto de povão festejar. Então, não há momento melhor para dar vazão a esse espírito que a folia carnavalesca, né, não?

“No meu tempo” :) , eu encarava as cinco noites de Carnaval. Tudo era festa e disposição, mas agora, mais ‘véio’, é aquele negócio de dor nos braços, nas juntas, uma falta de ziriguidum.

Mesmo assim, encarei o desafio, botei terno de palhaço e fui com minha deusa participar de um bloco. Muito confete e muita serpentina, uns ‘zimininos’ mais animados que filhote de tartaruga quando nasce ;) , um bocado de chuva de lombo e a rua cheia de alegria.

Lá no meio da avenida, junto do ‘galerê’, até me esqueci de um personagem que AAAAAMA de paixão :O pessoas em cadeiras de rodas soltas na folia: os bêbados.

Durante os trajetos que fizemos pela cidade atrás do trio-elétrico, perdi a conta de quantos bebuns, daqueles punks mesmo – fedidões, com bafo, sujões, mas mega alegres- eu abracei e tive de dançar, rodopiar pelas avenidas.

“Ahhh, vem cá me dá um abraço! Olha que felicidade, é isso mesmo, tem que ser feliz! Vamos dançar”, diziam os manguaçados quando me viam.

E era só Thaís sair alguns segundinhos de trás de mim que lá vinha mais um animadíssimo para me girar e “ajudar” a dançar o Carnaval. Ahhhh, meu povo, e alguém precisa de ajuda para bagunçar com marchinhas????

“Eu vou te empurrar!!! Uhrúúúú… descansa que eu vou te ajudar a sambar”… Dai-me saco, meu pai…. :)

Penso que, talvez, os bêbados vejam nos cadeirantes pessoas que estejam no mesmo barco que eles: o barco dos lascados, dos apartados socialmente, dos que, de alguma maneira, tenham sido abandonados.

Juro que não estou exagerando. Devo ter abraçado, cumprimentado e dado um “ala la ô” com uns dez breações em cada noite de folia.

Enfim, é só uma historinha um pouco atrasada do meu Carná! Mas me digam, please, qual razão vocês veem por essa ‘paixão’ que os bêbados têm pelos ‘malacabados’?

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O casamento da diversidade

Uma cena única quebrava vários paradigmas que envolvem a vida das pessoas com deficiência
 
Tinha mesmo de ter acontecido em uma igrejinha de São Judas Tadeu, o santo que, segundo seus devotos, viabiliza causas desacreditadas, impossíveis, “complicosas”, como diria uma tia minha que já morreu.
 
Os desavisados ficaram curiosos com a estrutura em placas metálicas que formava uma rampa suave que vencia os degraus até o pé do altar e com a quantidade de gente em cadeira de rodas e meio tortinhas presente. Teria havido rebelião na Santa Casa?
 
Nada disso: era apenas o casamento da diversidade. Uma noiva tetraplégica daquelas que usam cadeira motorizada, com seu noivo grisalhão, inteirinho, boa-pinta e sorridente. Mas só olhares mais atentos entenderiam de fato o porquê do batismo de “diversidade” à cerimônia.

O padre era daqueles velhinhos, meio surdos e simpáticos. Um dos padrinhos se segurava apoiado em uma bengala, e os demais sorriam de uma maneira tão intensa que pareciam eles mesmos os agraciados com o matrimônio.
 
Entre os convidados, uma moça branquinha, também cadeirante, ao lado do marido “normal”, abrigava no colo um casal de pretinhos, seus filhos adotivos. Os quatros com cara de felicidade.
 
Como o mundo tem mudado, pensava eu, enquanto a noiva adentrava o evento. Detalhe importante: ela não foi num carro luxuoso até a igreja. Saiu foi de um táxi acessível, desses que ainda pouco se veem, mas que muito ajudam na vida de pessoas com mobilidade reduzida.
 
A bela de branco passou por mim, que estava no gargarejo, e deu um sorrisinho –deve ter feito isso umas 300 vezes no percurso, evidentemente. Mas ali na minha frente, uma cena exclusiva: ela passando discretamente em cima do pé do noivo com a roda da cadeira. Como o amor é para essas coisas e outras, ele aguentou impassível.
 
Ao som instrumental de “Numa folha qualquer, eu desenho um sol amarelo”, entram duas crianças com as alianças. Gêmeos, filhos da noiva e de seu passado. Difícil segurar a choradinha.
 
E pensar que uma cena única quebrava sozinha vários paradigmas que envolvem erroneamente a vida das pessoas com deficiência: o da impossibilidade de gerar menino, de abraços apertados com calundus, de estátuas diante da festa diária da existência.
 
Mas o final da cerimônia guardava para si o melhor momento: a coroação do espírito do diverso de uma sociedade mais moderna e inclusiva tão sonhada.
 
Enquanto uma voz com sotaque lindamente italiano cantava ao fundo “Eu tenho tanto para te falar, mas com palavras não sei dizer”, os recém-casados deixavam o altar acompanhados da família: os dois pequenos dela e o adolescente dele.
 
Valores humanos se sofisticam à medida que se respeita mais o modo como as pessoas se sentem felizes e realizadas. Valores humanos ganham amplitude e beleza quando ultrapassam carapaças visuais, ultrapassadas e estigmatizadas.
 
O casamento da diversidade ainda contou com momentos “maraviwonderfuls” em sua festa, encerrada com um show dos mais escandalosos e “purpurinados” possíveis: uma drag queen montadíssima encenando “I Will Survive”.

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