Alunos “especiais”

Aula de literatura em uma escola da zona norte de SP

Cada vez mais, as crianças têm chegado às salas de aula com recomendações de diagnósticos médicos debaixo do braço. São hiperativas, possuem algum grau de autismo, possuem transtornos que afetam a concentração ou parte do aprendizado ou mesmo são pequenos que possuem algum nível de deficiência física ou sensorial.

Na Europa e nos EUA já se trabalha até com detecção de casos de estudantes que são considerados muito “sensíveis”: indivíduos com os sentidos bastante aguçados em relação aos estímulos sonoros, táteis, olfativos ou mesmo que possuem grande retração para interagir ou para participar de atividades coletivas, por exemplo.

De um lado, um diagnóstico pode facilitar a criação de estratégias pelo professor e pela escola para melhor atender o aluno, por outro, ele pode criar subgrupos escolares que caminham rapidamente rumo ao estigma. Há escolas que os tratam como alunos “especiais” e outras como “alunos de inclusão”.

É sem dúvidas um avanço a molecada ter precocemente a chance de ser inserida no ambiente escolar já se levando em consideração suas peculiaridades. Isso ajuda a ela ser melhor observada e entendida naquilo que a difere.

O que pode desvirtuar-se muito facilmente diante disso é o papel da criança como aluno. Ter uma característica diferente não pode ser, de maneira nenhuma, razão que a isole, que a torne um bibelô intocável e ou um ser problemático para o ambiente de ensino.

Uma coisa é dar mais tempo de prova para um pequeno que tenha paralisia cerebral e vai escrever devagarinho ou que se evite expor uma criança com autismo a um ambiente com diversos estímulos desconhecidos por ele. Outra coisa é excluir o estudante de participar de uma atividade ou “poupá-lo” de uma situação corriqueira em sala de aula porque ele é “especial” e alguém julga à revelia que seria melhor evitar sua exposição.

Importante pontuar também que ter uma deficiência ou diagnóstico de alguma particularidade não pode ser jamais um escudo para que o aluno se afugente de ser cobrado, de ser atuante em classe ou extraclasse. Cabe ao professor desconsiderar essa desculpa como instrumento para aliviar pressões naturais que todo estudante precisa ter.

Aos pais é fundamental saber dividir bem o que é ter cuidado com o filho e com suas demandas específicas, cobrando um bom programa educacional, com preceitos inclusivos de verdade, e o que é superproteção que o fará menos apto não só durante a vida escolar, mas por todo o seu futuro.

Quando se mistura a necessidade pontual de adotar novas táticas metodológicas ou de interação para que um aluno tenha um aprendizado digno e pleno com o medo de dialogar com essa criança, com uma barreira imaginária que a difere das outras pelo simples fato de não seguir um padrão, o princípio da inclusão não se estabelece.

Todos ganham com a exploração daquilo que é diverso e é esse um caminho seguro chamar à participação os tais “alunos especiais”. Educar é permanente processo de reaprender, de rever e de buscar maneiras de compreensão e colaboração.

Comentários

  1. Educação inclusiva é a ideia do momento. Sou do tempo em que havia classes especiais para surdos, deficientes mentais, visuais. Acabaram-se. Vamos tateando e tentando incluir os alunos com dificuldades ou deficiências. Mas ainda falta muito em termos de acompanhamento e ajuda aos professores e às escolas. Um dia chegaremos na escola ideal!

  2. Muito lúcida a sua fala, tenho um filho autista de 13 anos e sei que todos os pais de crianças com alguma “diferença” sofrem, sofrimento que mais do que pelo problema em si e causado pelo temor de como os outros ditos “normais” tratarão a este ser, isso aliado a deficiente formação de professores e de toda a escola de modo geral e e pior, ao panorama desequilibrado que se encontra nestes locais onde muitos, infelizmente muitos pais despejam seus filhos “imaginando” é o que melhor podem fazer por eles em termos de educação. Obrigado

    1. Maurício, vc foi no ponto! Aos pais não cabem apenas arrumar um lugar para colocar o filho. Cabe acompanhar, ajudar a compreender as demandas e como solucioná-las… sem isso, fica muito difícil que as coisas funcionem e que a educação se dê de maneira completa ou dentro de nossas expectativas.

  3. Bom dia Jairo.
    Você trata do assunto a partir do fato de já estar constatado existência de uma deficiência, e então se passa aos procedimentos usuais.
    Dos sentidos, aquele que tem os efeitos fisiológicos menos conhecido é a surdez. Se é leve, poderia trazer síndromes, como falta de atenção, ou raciocínio lento, por exemplo. O aluno pode sofrer isolamento já a partir do professor. Sem que ninguém, absolutamente ninguém se dê conta disto.
    Estamos gatinhando, um dia chegamos lá.

  4. Olá Jairo, vou deixar minha opinião/receio.
    O excesso de subgrupos está criando um mundo segmentado e de exclusão. A impressão que tenho é que acadêmicos buscando justificar seus próprios erros ou criar nomenclaturas buscando seus nichos de mercado estão esquecendo de aplicar rigor científico as suas conclusões. A possível consequência será uma maior exclusão, excesso de melindres, pessoas despreparadas para a vida e o maior problema de todos: desrespeito às opiniões alheias e consequente aumento nos atritos com diminuição da diversidade.

  5. Você já visitou uma escola de periferia para constatar como ocorre a aprendizagem? Inserir o “aluno especial” em uma classe dessas é detonar com a autoestima e a dignidade dela. Como sempre tudo cai nos ombros do professor. A causa desta questão você não explorou.

    1. Não só visitei como já morei. Sobre “detonar” a autoestima, seu ponto de vista não condiz com a realidade do século 21, embora eu o respeite.

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