Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Brinquedo que não tem

Por Jairo Marques
Elis e eu “causando” no Natal do shopping

“O papai foi com a gente no carrinho do Papai Noel, não é, mamãe?” Muito mais breve do que eu imaginava, Elis, aos dois ano e meio, já consegue notar que nem sempre o mundo acolhe as necessidades de um cadeirante e também já vibra com as pequenas conquistas inclusivas em família.

Era apenas um passeio despretensioso no shopping para que ela visse as luzes natalinas, os enfeites e puxasse a barba do velho do saco, mas quando se sai com criança o potencial de surpresas é sempre incontrolável.

Após uma sessão de fotos com pinheiros gigantes, guirlandas e jujubas chegava a hora do gira-gira, formado por renas e trenós. “Veeem, pai”, gritava a menina, que foi logo engambelada pela mãe e me poupou da vertigem.

Embora houvesse uma rampa para acessar o brinquedo, fiquei de fora tirando fotografia e viajando nos pensamentos do quanto a vida da voltas, literalmente. Eu, que nunca embarquei em gira-gira nenhum em minha infância, contemplava minha menina alucinada sobre um bicho de pelúcia bem menos charmoso que um veado do Cerrado.

Dando tchau pro papai, toda faceira

Dali, ela quis ir ao escorregador, que simulava a grande fábrica de presentes de Noel. Enganchou-se logo no primeiro degrau, bem antes do tubo da felicidade deslizante. Corre a mãe para ajudá-la. Fiquei na torcida, emanando pensamentos positivos. Deu tudo certo. Muitas risadas, muita alegria.

Eis que surge em nosso trajeto encantado pela “Lapônia” plastificada uma fila daquelas rabugentas cheia de crianças ansiosas e pais suando para mantê-las com um mínimo de compostura. Elis não titubeia e nos amarra em seu desejo urgente:

“É a casa do Papai Noeeel, vamos! Tem trenó, papai!”

Nessas horas, não tem outra solução a não ser segurar firme na mão de nossa senhora da bicicletinha e enfrentar a fila, a ansiedade da menina e a vontade de mandar o espírito natalino às favas.

Os olhos de Elis soltavam feixes de pura fofura a cada vez que saía um novo trenó de dentro da casa trazendo um pequeno radiante e pedindo pra ir de novo, “só mais uma vez”.

“Nesse você vai, né, papai?”. Contaminei demais minha filha com a política do “todo mundo junto” e agora me vejo em maus lençóis tendo de dizer a ela que nem tudo poderemos seguir atados. É uma sensação estranha, uma certa impotência de viver, mas que faz parte dessa jornada “malacabada”.

Nesse momento, somos abordados por uma ajudante de Noel, toda vestida de verde. “Você vai embarcar também? Temos um trenó acessível para pessoas com deficiência”. Relutei, em princípio, mas tive de ceder ao sonho de minha menina de ver sua galera curtindo lado a lado aquele momento tão lúdico.

Finalmente, brincando no trenó

Desmonta o trenó, traz uma rampa móvel, leva o papai para dentro do carrinho, ata o cinto de segurança, testa se vou suportar a velocidade de 5Km/h e a fila vai ganhando mais e mais gente, pois. para que eu entrasse, o passeio de todos teve de aguardar por alguns momentos. Só quem parecia nada chateada com a espera era Elis.

Vi a “neve”, presentes caindo da chaminé, Papai Noel se balangando e minha filha em êxtase. Lembrei da exclusão da minha infância, de minha mãe passando comigo sempre longe dos brinquedos e parquinhos. Criança muda a vida da gente. Felicidade é brinquedo que não tem.

* Imagens de arquivo pessoal

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