Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Livro infantil revela o mundo de Lalá, uma menininha surda voltando a ouvir!

Por Jairo Marques

Muito nos emocionamos com os vídeos das “internets” mostrando pessoas surdas que, num repente, “voltam a ouvir” graças ao apoio da tecnologia. Embora o sentimento seja legítimo, o processo de retomada da audição é mais complexo, vagaroso e intenso que se costuma apresentar.

E é para mostrar de maneira didática, lúdica, poética e fantástica o poder do chamado implante coclear, dispositivo que se coloca na parte interna do ouvido e estimula a retomada da percepção do som, que a publicitária Lak Lobato, 40, e o designer Eduardo Suarez, 36, lançam no sábado (2) o “E Não é Que Eu Ouvi?”.

O livro já sai do “forno” com mil exemplares vendidos por meio de uma campanha de arrecadação de fundos.

É a segunda obra de Lak, consagrada por abordar o universo dos surdos, sobretudo aqueles oralizados – que fazem leitura labial e usam o português normalmente _ em seu blog “Desculpe, não Ouvi!”, que também dá nome à primeira obra da escritora..

O poder imagético de “E Não é Que Eu Ouvi”? deve encantar a criançada com suas texturas, cores vibrantes e delicadeza.

O evento de lançamento, que será na Casa de Livro (R. Capitão Otávio Machado, 259, Chácara Santo Antônio, em São Paulo), das 13h às 17h) contará, além de autógrafos e tietagens, com brincadeiras, contação de histórias (inclusive em Libras), pinturras e jogos para a molecada!

Para quem não puder comparecer ou não for de SP, o livro pode ser adquirido somente em loja virtual pelo endereço DesculpeNaoOuvi.com.br/paraCriancas

Abaixo, entrevisto a Lak e conto mais sobre a fascinante menininha Lalá!

Para a criança entender a tecnologia que auxilia a deficiência o desafio é duplicado?

Explicar deficiência e tecnologia nunca é fácil porque as pessoas já têm milhares de ideias prontas. E a maior delas é que a tecnologia vai curar a deficiência, o que não é o caso. As tecnologias auxiliam muito, mas não curam. A deficiência permanece. O que temos é acesso aos sons.

No caso de crianças, o desafio é simplificar essa explicação de forma que fique compreensível para elas. Tanto para a criança que usa uma tecnologia – pois podem ter dificuldade de entender por que só elas usam e os outros não – tanto para as que convivem com quem usa.

Como a escola, a sociedade podem fazer ser melhor a realidade de uma criança surda?

Em primeiro lugar, enxergando que a criança surda é uma criança como qualquer outra, mas com particularidades de linguagem. A deficiência auditiva é uma barreira justamente no desenvolvimento da linguagem e as formas de desenvolvê-la são múltiplas: através da língua de sinais, das tecnologias auditivas e/ou de ambos os recursos, de acordo com a escolha de cada família, aliada às possibilidades de cada criança. O importante é escola saber respeitar e abraçar a diversidade.

Entender o que cada criança em particular necessita em de tentar encaixá-la em um protocolo pré-definido deveria ser a missão de qualquer escola para qualquer criança. Não apenas crianças com surdez, mas também com déficit de atenção, hiperatividade, superdotadas, com dificuldades em matemática, etc

Trecho do livro, cedido gentilmente ao blog

A Lalá é uma surdinha do século 21… o que tem de Lak nela e o que é totalmente novo?

Sobretudo, a Lalá teve rápido acesso a informação sobre tecnologias auditivas. Diferente de mim, que tive que esperar bastante tempo [risos]. Ela tem consciência das limitações dela, mas não tem vergonha. O aparelho dela é cor-de-rosa, combinando com o vestido e os sapatos. Ela usa em cima do cabelo, bem vaidosa. Ou seja, ela não esconde os aparelhos, muito pelo contrário, se orgulha deles! Acho que reflete bem as pessoas com deficiência de hoje. Não precisamos mais nos envergonhar, nos desculpar ou camuflar nossa condição. Somos parte do mundo e a deficiência, parte de nós.

O livro tem um visual muito encantador. O mundo imagético é muito importante para o surdo?

A imagem é importante para crianças em geral. Elas gostam de coisas coloridas e chamativas. No caso da criança surda, a imagem se torna ainda mais importante, porque o mundo todo é praticamente explicado dessa forma. Afinal, não são todas as crianças que tem acesso ao som ou, se tem, não é sempre que o compreendem totalmente. Nesses casos, a visão é essencial para reforçar a informação que lhes falta.

Por isso, o livro “E Não É Que Eu Ouvi?” foi criado pensando em crianças de várias idades, com vários níveis de linguagem. Foi feito tanto para os pais lerem com elas e elas poderem acompanhar, como também para ser aquele livrinho que vai crescer junto com a criança. Ela pode começar entendendo só as figuras, com a alfabetização, passar a lê-lo e mais tarde poderá compreender sua própria deficiência lendo a parte técnica, que é um pouquinho mais complexa.

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