Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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‘Reconstrução’ de DJ que perdeu 40% do corpo é oportunidade para redimensionar perdas

Por Jairo Marques
O DJ Renildo Santos, que perdeu 40% de seu corpo

Ao longo da vida, são várias as situações em que o “serumano” passa por desastres pessoais que causam danos diversos, às vezes, até com discurso de irreparáveis, que vão exigir esforço, perspicácia e coragem para que ele se recomponha, para que ele se reconstrua e possa seguir adiante.

Quebra-se a cara no amor – as pernas podem ser quebradas por um rival no trabalho ou a alma estilhaçada na desesperança –, um erro na família pode destruir a moral, um sonho pode ser amputado com a força da realidade.

Mas há também as fatalidades que levam à literalidade da perda e que afetam a integridade, as partes: arranca-se um braço no trânsito insano, arrebenta-se o peito com o tiro no assalto, perde-se metade do corpo após anos de negligência médica, como foi o caso do DJ Renildo Silva Santos, narrado nesta Folha.

Devido a um câncer, Renildo foi partido ao meio, da cintura para baixo. Era a única opção de sobreviver, de ter mais tempo de buscar felicidade. Foi pragmático, embora a incerteza sobre o que restaria de si mesmo, de sua alma, fosse razão de momentos de aflição, de profunda angústia.

Reconstruir-se costuma ser processo menos apavorante quando a força da solidariedade é mais presente e vigorosa no apoio para vencer a trilha tortuosa do que no engrossar o choro e no temor das curvas fechadas.

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Dessa maneira, quanto menos se compadece e se lamuria pelo leite derramado, menos também se atrapalha quem precisa submergir de dores, de lamentos e de ressentimentos. Postura que ajuda é a mão estendida, a faísca acesa, o ombro firme, não o vacilo, a dúvida, a especulação.

Quando não se está lambendo a ferida de si mesmo, é útil, é humano, é agregador e é fundamental estar alerta para acudir o outro em seus furacões, tsunamis, catástrofes íntimas. Alguém precisa jogar a corda aos que estão no fundo do poço e ainda gritar lá do alto: “sooooobe!”.

Drummond, em seu poema “Justificação”, diz que “não é fácil nascer de novo. Mais difícil ainda, complemento, é quando se tem de renascer novo, sendo diferente do conhecido, do habituado, do testado, do aprovado pelos outros. Embora seja da natureza do vivente, refazer-se mexe com a consistência da fé que se atribui a si mesmo, catuca a capacidade de ver além do que se domina.

Embora seja sempre necessário após tragédias emocionais ou físicas, pois o tempo tem lá seus efeitos terapêuticos e cicatrizantes, o luto não pode tornar-se prisão. Certa é a lagartixa que após perder o rabo, olha rapidamente ao redor e segue viagem, pois um novo dia virá –e uma cauda nova também.

A reconstrução de Renildo, que se adaptou em tempo recorde a uma prótese corporal inédita no mundo, é oportunidade cabal para redimensionar perdas, para reposicionar energias gastas com lamentos efêmeros e pouco agregadores. “E La Nave Va”.

Cada história tem suas linhas e seus roteiros, mas um exemplo narrado pode ser universal e pode não só ajudar a romper a inércia que mantém o desânimo como também fazer acreditar que é possível uma nova chance.

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