Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Brasileira do “miss mundo cadeirante” quer quebrar preconceitos e ser inspiração

Por Jairo Marques

Vinte e quatro mulheres com deficiência de todo o mundo estão concorrendo ao título de “Miss Mundo Cadeirante”, que tem a final marcada para acontecer na Polônia, em 7 de outubro.

A quarta edição do concurso, que tem intuito de promover a beleza na diversidade e afirmar a feminilidade da mulher com qualquer tipo físico, tem uma brasileira na reta final. Carla Maia, moradora de Brasília.

Carla, que tem tetraplegia –ou seja, dá um trabaaaaalho, danado–, também é jornalista e esportista e está entre as mais votadas para chegar à fase final da competição. Para conhecer as misses e votar, clique aqui ou no bozo… 

Conversei com a nossa “miss malacabada” sobre o sentido de haver um concurso como esse, sobre seu impacto inclusivo, as expectativas e os detalhes da disputa. Ela também falou sobre como recuperou a autoestima, os desafios de manter a vaidade e seu engajamento por mais inclusão.

Tá divertido, tá inclusivo, tá bonito! Bora?

Miss cadeirante” não é algo muito específico? O que a convenceu a participar? Nunca fui modelo. Já neguei convites por me sentir constrangida em desfilar ou posar. Em princípio, além de desconfiada dos riscos da internet, achei que seria um concurso de beleza sem repercussão e quase deixei a oportunidade passar. Como gosto de aventuras, me interessei em pesquisar sobre o assunto, até pela possibilidade de uma viagem internacional kkkk. Mas, ao ver os vídeos dos concursos Miss Polônia anteriores promovidos com competência, e conhecer os objetivos do evento, me identifiquei com a busca pela mudança da visão da mulher com deficiência na sociedade, um problema no Brasil, e pelo visto, em outros países também. Ao ficar cadeirante, com tetraplegia (não mexo as mãos), por um sangramento espontâneo na medula aos 17 anos, eu perdi completamente minha vaidade e deixei de me sentir mulher por acreditar em ‘pré-conceitos’.

Ser miss pode contribuir com mais inclusão, com valorização da diversidade? Penso que a integração com mulheres ativas e em condições semelhantes às minhas de várias partes do mundo pode ajudar a entender como está a questão da deficiência em nossos países. Com isso, posso contribuir de forma mais ativa profissionalmente ou pessoalmente em meu retorno. Também apostei que a visibilidade do concurso pudesse ajudar outras mulheres cadeirantes que vivenciam dificuldades como as que vivi. Que elas fossem inspiradas de alguma forma a se permitir mais. Além da visibilidade do evento informar melhor os brasileiros sobre nosso potencial.

Como se dará o concurso? É a primeira vez que ocorre um evento deste porte. Um olheiro da organização do concurso me encontrou no Facebook e perguntou se eu gostaria de concorrer a uma vaga. Despretensiosa eu aceitei. Achei que não me prejudicaria pelo menos tentar, e enviei fotos, vídeo, além de responder uma pequena entrevista em inglês. Para minha surpresa, fui selecionada. O concurso Miss Polônia começou com a luta de duas mães em busca de mais qualidade de vida para as filhas cadeirantes. Depois da entidade polonesa Jedyna Taka (Only One) organizar com sucesso quatro concursos nacionais, com apoio da cidade de Varsóvia, inovou e organiza, este ano, a competição em nível mundial. Eles estimulam os países a também organizarem o próprio evento nacional, oferecendo o know-how que adquiriram nas experiências anteriores. Quem sabe o Brasil não se interessa? A partir do dia 30 de setembro vamos participar de workshops, desfilar com um traje típico que representa o país, e um de gala. Até seis de outubro é possível votar na votação popular do Miss Mundo Cadeirante. Mas a coroa principal é entregue por um júri no dia 7 de outubro.

Chegaremos ao dia de um concurso único entre todo o tipo de gente? Assim como o esporte paralímpico começou apenas com cadeirantes após a segunda guerra mundial, e hoje existem as categorias para que as disputas sejam entre pessoas com tipo de limitações semelhantes, acredito que este tipo de concurso também siga essa tendência. Quem sabe um dia, em um mesmo evento, se tenha a disputa entre cadeirantes, e outra entre andantes? Adoraria que a Olimpíada ocorresse junto com a Paralimpíada.

A mulher com deficiência ainda padece de muito preconceito em sua sexualidade, vida sentimental. Como isso pode mudar? Antes da lesão eu era super-feminina e vaidosa. Ao me ver com uma tetraplegia, passei a agir diferente. Acreditei no que aprendi inconscientemente até os 17 anos: que mulher com deficiência não pode ser atraente. Para mim, não adiantava arrumar o cabelo. Passei a usar tranças. Brincos? Que ridículo! Para quê? Perdi o namorado porque não era de bom senso eu ficar com ele e “estragar a vida” de um jovem rapaz. Deixei de me sentir mulher. Quanta tristeza infundada, gente! Demorou um tempo para eu entender que continuava a ser a mesma Carla, com os mesmos desejos de ser feliz. Mesmo assim, até hoje ainda ouço na rua: “tão bonita e em uma cadeira de rodas”. Como se mesmo eu, que vivo intensamente, tivesse morrido pra vida porque sou cadeirante. Tem gente que não entende como uma mulher bonita pode ter, ao mesmo tempo, uma deficiência. Sério! Tem homem que fica meio revoltado kkkkk. Acredito que informação educa e traz mudanças. Quero ajudar a quebrar esse preconceito. Quero que mulheres com deficiência continuem se sentindo mulheres. Quero que vejam que uma limitação grave, não impede a pessoa de ser atraente, se relacionar e ser plena.

Ser cadeirante e ser bonita depende do que? Além da energia pra cima que aumenta a beleza em qualquer pessoa feliz, esteticamente, cadeirante com uma lesão alta como a minha [vértebras cervicais C5 e C6] tem que trabalhar um pouquinho mais para manter a forma. Mas já disse: não é por ser mais difícil que signifique ser impossível! A gente gasta bem menos caloria do que quem anda. Eu, que sou paraatleta de tênis de mesa desde meados de 2003, tenho muita gordura na parte em que não me movo, como se fosse obesa. Tem que controlar muito mais a boca. Além de que, por causa da tetraplegia, eu não tenho controle abdominal. É só comer um pouquinho mais para ficar barrigudinha kkkkk . Exercícios? Sempre fiz com os braços. Descobri a pouco tempo os benefícios da eletroestimulação. E consegui depois de anos de lesão virar sozinha, se deitada de barriga para cima. Quem sabe fico com a barriga sarada e dividida em quatro como a deputada, Mara Gabrilli, que tem uma tetraplegia mais alta do que a minha, afirma ter no seu livro, graças a eletroestimulação. Haha

Agora papo de miss: A paz mundial é possível mesmo com esse Kim lá na Coreia do Norte? Rir para não chorar, né? Mas, serei uma miss cadeirante com outro propósito. Deixo a questão de defender a paz mundial para a nossa atual Miss Brasil, Monalysa Alcântara, (linda). A minha bandeira é quebra de preconceitos e defesa da acessibilidade! Conheço a importância disso para garantir a dignidade das pessoas com deficiência no país. Esse espaço em veículos importantes como a Folha, por exemplo, mostra que eu estava certa ao aceitar esse imenso desafio. Ainda mais para uma atleta e jornalista (risos)! Estou me esforçando ao máximo. Tenho certeza que, pelo menos, um leitor dessa reportagem vai pensar duas vezes antes de estacionar em uma vaga reservada, nem que seja por cinco minutinhos.

O faz para se divertir e para manter a forma? zzzzzzz Sou uma mulher comum. Gosto de encontrar a família e os amigos. De vez em quando, ir ao cinema, teatro, restaurantes… E adoro axé. Haha… Admiro a Ivete Sangalo demais (já fui salva por ela em um trio elétrico aqui em Brasília. Sério! risos) e atualmente, vou ao show do Saulo, Bell e Durval. Cada vez menos. Mas toda vez que vou, curto demais! Adoro dançar do jeito que dá!

Acredita em fada, príncipe encantado e tals? Gostaria de acreditar 😉

Qual sua mensagem para o mundo? Acredito em Deus. Sinceramente, creio que esta oportunidade veio por um motivo. O de mostrar ao mundo que é possível. Com isso, ajudar outras pessoas a acreditar na vida e na prosperidade, mesmo com uma deficiência severa. E cada pessoa pode fazer a diferença. É só promover a acessibilidade. Cumprir a lei. Que as crianças de hoje aprendam, que nós que temos alguma deficiência, somos dignos de respeito e não de pena.

Imagens: Gaia Schüler/Divulgação

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