Jairo Marques

Assim como você

 -

Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

Perfil completo

Publicidade

Enquanto realeza emplaca terceiro filho, plebeus labutam para dar conta de um

Por Folha

Biscoita batia na porta do banheiro sem parar e perguntando com voz de galhofa: “Tem alguém aí?”. Não dava para acreditar. Eu havia acabado de entrar no banheiro na tentativa de ter 15 minutos de individualidade matinal longe das músicas do Patati e do Patatá e dos bonecos da Turma da Mônica que ela arrasta sem trégua pela casa.

Resmungo qualquer coisa e a guria de dois anos e pouco juízo engrossou a pressão, gritando “papaaaaaai, deixa eu escovar os dentes e fazer a barba também. Abre a pooooorta, Mariquinha!”.

Abri uma frestinha, mas o suficiente para ela invadir o espaço e interromper a leitura que muito me interessava no trono naquele momento: “Família real anuncia que Kate e o príncipe William esperam o terceiro filho”.

Só de entrar no inevitável debate do segundo filho sinto calafrios e vejo tons de vermelho em minhas contas de classe média. E o clamor de ampliar a família vem de todos os lados, das situações mais insólitas. “Elis não para de fazer a posição de chamar irmãozinho, seu Jairo”, diz Horacina, a babá.

Chamar irmãozinho que nada. Aquilo é ioga que ela viu no YouTube. Enquanto isso, a realeza emplaca o terceiro e dá sorrisos para a mídia do mundo. Eles não têm medo da bomba do Kim Jong-un? Não temem que o Bolsonaro vire presidente? Não têm receio da reforma da Previdência? Sabem dessas saidinhas marotas dos “supremacistas brancos” nos EUA?

Às vezes, até penso que família precisa de uma dose maior de insanidade que o atual trio que componho, mas, quando a escolinha manda um recado de que é preciso enviar “R$ 150” para o passeio na fazendinha do tio Zezé, esmoreço.

Tá bem, não é apenas uma questão de finanças, afinal onde comem 10, com uma boa gestão, 15 devem conseguir se virar também. E como diz o povo, tenho que pensar no futuro, em um companheiro ou companheira para que biscoita não cresça sozinha, alguém que a ajude terminar de rasgar o sofá, a fazer meus últimos fios de cabelo irem logo à lona.

O que resisto a pensar é ter menino para “cuidar” de mim e da mulher na velhice. Duvido também que Kate e William tenham tido esse pensamento, pois pajem deve haver de pencas no Palácio de Buckingham. Não dá para ter filhos querendo imaginar que eles terão o projeto de vida já determinado previamente pelos pais.

Já me disseram também que, no segundo, terceiro, quarto filho, tudo se torna mais fácil, as angústias são mais bem administradas e a delícia das brincadeiras bobas, o comer pipoca em tardes de domingo tornam-se prazeres quase inenarráveis. Mas ser plebeu me faz estar amarrado na dura realidade da dúvida permanente sobre conseguir oferecer um bom prover, um digno prover.

Não sei até quando biscoita quererá entrar no banho comigo e já tenho uma ponta de saudade de sua desengonçada e atrevida infância, da dádiva que representa a desconstrução que a criança faz em lógicas tão chatas criadas pelos adultos.

 

Blogs da Folha

Versão impressa

Publicidade
Publicidade
Publicidade