Enquanto realeza emplaca terceiro filho, plebeus labutam para dar conta de um

Biscoita batia na porta do banheiro sem parar e perguntando com voz de galhofa: “Tem alguém aí?”. Não dava para acreditar. Eu havia acabado de entrar no banheiro na tentativa de ter 15 minutos de individualidade matinal longe das músicas do Patati e do Patatá e dos bonecos da Turma da Mônica que ela arrasta sem trégua pela casa.

Resmungo qualquer coisa e a guria de dois anos e pouco juízo engrossou a pressão, gritando “papaaaaaai, deixa eu escovar os dentes e fazer a barba também. Abre a pooooorta, Mariquinha!”.

Abri uma frestinha, mas o suficiente para ela invadir o espaço e interromper a leitura que muito me interessava no trono naquele momento: “Família real anuncia que Kate e o príncipe William esperam o terceiro filho”.

Só de entrar no inevitável debate do segundo filho sinto calafrios e vejo tons de vermelho em minhas contas de classe média. E o clamor de ampliar a família vem de todos os lados, das situações mais insólitas. “Elis não para de fazer a posição de chamar irmãozinho, seu Jairo”, diz Horacina, a babá.

Chamar irmãozinho que nada. Aquilo é ioga que ela viu no YouTube. Enquanto isso, a realeza emplaca o terceiro e dá sorrisos para a mídia do mundo. Eles não têm medo da bomba do Kim Jong-un? Não temem que o Bolsonaro vire presidente? Não têm receio da reforma da Previdência? Sabem dessas saidinhas marotas dos “supremacistas brancos” nos EUA?

Às vezes, até penso que família precisa de uma dose maior de insanidade que o atual trio que componho, mas, quando a escolinha manda um recado de que é preciso enviar “R$ 150” para o passeio na fazendinha do tio Zezé, esmoreço.

Tá bem, não é apenas uma questão de finanças, afinal onde comem 10, com uma boa gestão, 15 devem conseguir se virar também. E como diz o povo, tenho que pensar no futuro, em um companheiro ou companheira para que biscoita não cresça sozinha, alguém que a ajude terminar de rasgar o sofá, a fazer meus últimos fios de cabelo irem logo à lona.

O que resisto a pensar é ter menino para “cuidar” de mim e da mulher na velhice. Duvido também que Kate e William tenham tido esse pensamento, pois pajem deve haver de pencas no Palácio de Buckingham. Não dá para ter filhos querendo imaginar que eles terão o projeto de vida já determinado previamente pelos pais.

Já me disseram também que, no segundo, terceiro, quarto filho, tudo se torna mais fácil, as angústias são mais bem administradas e a delícia das brincadeiras bobas, o comer pipoca em tardes de domingo tornam-se prazeres quase inenarráveis. Mas ser plebeu me faz estar amarrado na dura realidade da dúvida permanente sobre conseguir oferecer um bom prover, um digno prover.

Não sei até quando biscoita quererá entrar no banho comigo e já tenho uma ponta de saudade de sua desengonçada e atrevida infância, da dádiva que representa a desconstrução que a criança faz em lógicas tão chatas criadas pelos adultos.

 

Comentários

  1. Interessante o senhor falar da Família Real Inglesa e nada aludir ao pequeno Michel Temer cuja babá é paga pelo Erário.
    Interessante o senhor apontar a Família Real Inglesa mas esquecer de apontar que até “cuidadora” de roupa da Marcela quem arca somos nós, os contribuintes brasileiros.
    Quem nos dera ter um Orleans e Bragança mandando no Pais, pelo menos teríamos alguém Patriota e que coloca o amor ao Brasil acima de tudo. Como fizeram Dom Pedro I e Dom Pedro II.Aliás, se o Marechal Deodoro soubesse que a República iria dar nisso, teria ficado sossegadamente gozando a sua aposentadoria.não tem nenhuma razão.

  2. Adorei – análise muito especial sobre os prazeres da paternidade e maternidade e da fantasia do mundo da realeza…distante da agenda do colégio e dos inúmeros presentes a serem comprados para festinhas infantis…e da fatura do supermercado e da nossa distante aposentadoria…segundo filho deve ser bem mais fácil tirando tudo isso…

  3. Pronto, a mocinha já cumpriu sua função. O palácio só precisava de bacia larga e útero fértil para tirar cria. Provou ser boa parideira gerando 3 rebentos sucessórios e já pode passear de carro pela noite londrina. No dia alegre do meu noivado
    Pedi a mão todo emocionado
    A mãe da moça me garantiu: É virgem, só que morou no Rio
    O pai falou:
    É carne de primeira
    Mas se abre a boca
    Só sai besteira
    Eu disse:
    Fico com essa guria
    Só quero mesmo
    Pra tirar cria

  4. Excelente texto sr Jairo
    E vem de encontro à memoria da folha de hj sobre o Marmiteiro, plebeu e questionador.
    Estou na classe media e no segundo filho. E ponto, é só o que consigo prover.
    Valeu a pena abstrair preocupacoes excessivas e deixar vir essa linda e saudavel crianca.
    Como sabemos, cada uma sabe onde o calo aperta. Ainda que a Igreja afirme que a tabelinha é um otimo metodo anticoncepcional- inverdade- só o casal deve decidir o tamanho da prole.
    Afinal, como diz a música “e quem é que vai pagar por isso??”

  5. SEU LIXO metendo o pau na monarquia que da lucro pelo turismo. Todas as parlamentaristas são ricas, estável e prósperas, cheias de valores moral.

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