Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Na vida de um cadeirante, tirar uma simples ‘chapa’ dos dentes pode virar uma epopeia

Por Jairo Marques
Uma grande aventura para tirar o dente do juízo

A missão era apenas tirar uma “chapa” dos dentes, como diria minha tia Filinha, mas, como nada na vida fora de casa é simples para um cadeirante, tornou-se uma epopeia.

Chego em frente à clínica e não aparece vivalma para me auxiliar a retirar a cadeira do porta-malas da Kombi. Sempre uso esse procedimento por ser mais seguro que levar o cavalo dentro da charanga, o que é possível, mas me exige muito esforço físico.

Fico ali com cara de “meu Deus, o que será isso?” por alguns minutos e resolvo, então, ligar no consultório e pedir ajuda. “Para periabical, digite 1. Para panorâmica, digite 2, Para perder a paciência, digite 3”.

Depois de alguma insistência, consigo falar com uma moça não eletrônica, embora o papo tenha sido um tanto truncado.

– Não estou entendendo, senhor. Cadeira de rodas no carro? Aqui é clínica de boca, senhor.

– Tô aqui em frente, moça. Preciso só de uma mãozinha, entende?

Não veio ninguém. Resolvo, então, tentar abordar uma alma caridosa passando pela rua. Rapidamente, surge um rapaz que me auxilia com um sorriso de quem desconfia que fugi da ortopedia da Santa Casa.

Finalmente, estava serelepe, livre para fazer o fatídico exame. “Para ser atendido, aperte a campainha”, informava uma placa, na porta com vidros escuros do consultório. O problema é que a maldita ficava numa altura impossível de ser acionada sentado.

Espero por um momento e de dentro da clínica uma funcionária de óculos parece me ver. Abre a porta e, mesmo assim, preciso de ajuda para vencer a rampa íngreme que dá acesso ao local. Seguro firme na mão de nossa senhora da bicicletinha. Vai acabar logo.

“Estica bem o pescoço. Mais… Ajeita o ombro. Olha, você precisa esticar o pescoço. Vai. Segura. Não deu certo… Vamos tentar de novo”, dizia a operadora da máquina de chapa.

Sério, quase que minha cabeça estava saindo do corpo para me acomodar naquilo. O equipamento, como várias outras máquinas de saúde, não foi pensado para pessoas com realidades físicas incomuns. Devem pensar que “malacabado” já é doente, então não fica doente.

Consegui! Com o resultado do exame na mão, estou orgulhoso de conseguir ter essa vida tão independente. Agora era só partir para o trabalho.

Ao lado de minha Kombi, um desses carrões de madame está ligado para não perder o friozinho do ar-condicionado. Lá dentro, uma pessoa engravatada deve estar esperando alguém que também fazia exames. Pensei “vai me dar um help básico”.

Entro no carro, faço cara de pidão e nada de me oferecer uma ajudinha. Dei um tchauzinho, o sujeito abriu o vidro do carro e lascou: “Que calorão, né?”.

Dei meu jeito e fui embora. Não sou de frescuras, mas nenhuma missão básica do dia a dia é “coisinha simples” para quem não se enquadra em padrões de “serumano”.

Ora não há acessibilidade, ora não há consciência de que o diverso está aí nas ruas, no hospital, na escola, na firma, no consultório do dentista, na lida por se manter íntegro.

Não há culpados pelo desenho do mundo ser esse rabisco, mas o dente do siso está aí para incomodar a todos. Pensar plural, projetar estruturas plurais desembaraça muito o cotidiano da gente, com ou sem juízo.

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