Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Pai narra em livro a angústia e as aflições extremas de criar e de amar um filho com autismo severo

Por Jairo Marques

“A calhordice humana não falha”. Por alguns minutos, parei nessa frase, cujo contexto era de uma atitude preconceituosa, até ter fôlego suficiente para voltar a encarar o livro “Meu Menino Vadio”, de Luiz Fernando Vianna, que narra, com doses cavalares de conceitos pouco ditos, as agruras de ter um filho com autismo.

E fui lendo e parando para digerir as asperezas, as durezas e frases que mais pareciam marteladas firmes na cabeça dura de quem romantiza ou trata com eufemismo realidades de pessoas com deficiência, sobretudo deficiências intelectuais.

Em dado momento, senti-me tremendamente oprimido com um pai que, “se pudesse voltar atrás”, não teria o garoto, com o saco cheio da situação vivida, com “a aposta genética perdida na loteria” da vida, com a angústia ganhando da felicidade durante a convivência com o garoto.

Pensei em minha mãe dizendo aquelas verdades sobre mim e sobre minha condição “malacabada”. No cansaço de seu corpo que me carregava, na pobreza que eu impunha à família diante de minhas enormes demandas por virar gente ou algo do tipo.

Não faz muito tempo, ela me contou o tanto que sofria, quando eu era bebê, ao ver crianças caminhando, dançando e rindo perto de mim, imóvel, torto, debilitado, feio e justificadamente preferido entre três filhos.

Da escola de sinceridades que Vianna defende em sua obra, sou professor há anos e sei quanto seus ensinamentos podem ajudar no avanço do descortinar de conceitos equivocados e antigos sobre a diversidade, mas admito sem elegância que procurei vorazmente nas páginas um refúgio de amor, de elevação e de agrado àquele menino, que era um pouco minha própria imagem.

As inquietantes e agoniantes experiências de Henrique, o filho, o menino vadio, o autista, ao lado pai, vão oprimindo o leitor com a brutalidade de uma mordida no rosto, com a ausência de falas em um colóquio ou com uma repetição infernal de uma palavra qualquer ao ouvido.

Cada de “Meu Menino Vadio”, da editora Intrínseca

As brisas de carinho, quando surgem, extremamente poéticas, refrescam ligeiramente a ardência dos golpes da narrativa que apregoa: “Aos que estão de fora e não passam por situações dessas [de comportamentos extremos de pessoas com autismo] não tentem dar lições, por favor.”

Ficar quieto diante uma aflição humana é colaborar para que ela se perpetue. Penso que vidas nunca são em vão e algumas vão estar atadas a um cordão umbilical eterno, mas serão, assim mesmo, formas de “serumano”. É ajudando a pensar caminhos para elas que se avança, se inclui.

Atender expectativas de normalidade de quem quer que seja, de minha mãe, de um pai, ou ainda de uma sociedade que cria modelos e não quer se habituar a formas de ser distintas, afunda perspectivas de libertação.

“Menino Vadio” é um curso rápido e intrigante sobre o universo de uma pessoa com autismo severo e sua repercussão poderosa na família. A narrativa divide com o leitor leigo um pouco da sensação de querer fugir _sem poder_ daquela realidade, daquela rotina aflitiva, com pitadas de ternura.

Mas senti falta de alguma esperança, motor que dá sentido a qualquer existência, no decorrer da obra. Penso que minha mãe tenha ganhado também com os percalços que a fiz passar. Dificuldades dão o contorno grandioso que todo o mundo espera para suas jornadas.

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