Jairo Marques

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Postulantes ao Oscar de ‘melhor filme’ colocam espectador para pensar na vida e nos outros

Por Jairo Marques

 

Cena de Moonlight

Neste ano, a premiação máxima do Oscar, a de melhor filme, não será destinada a uma megaprodução puramente de guerra, de ficção, de aventura ou de universos fantasiosos, seja qual for o vencedor.

O prêmio vai ser entregue a uma película que incentivou o espectador a pensar sobre aspectos controversos de sua própria vida ou sobre questões coletivas que afligem a harmonia social, que catucam a pasmaceira de “serumano”.

Do balaio cinematográfico que embola a vulnerabilidade infantil, exposta pelo angustiante “Lion: Uma Jornada para Casa”, com a intolerância ao novo, com aquilo que não se domina de cara e fragiliza convicções, do intrigante “A Chegada”, saem aflições que ajudam a atormentar o conformismo de cada dia.

Brilham também nos filmes selecionados a levar a estatueta um agradável estrelato a quem de direito, o respeito e entendimento a um conceito apagado de alguns discursos toscos da atualidade, o lugar de fala, a voz para quem de razão, para quem toca no fogo e não apenas aos que propagam as labaredas.

É assim no atordoante “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, no vibrante “Estrelas além do Tempo” e em “Um Limite entre Nós”, todos dando aos pretos um legítimo e já tardio protagonismo em dramas tão antigos e tão modernos em suas realidades, como a falta de oportunidades iguais, o racismo, a intolerância, a pobreza, o preconceito e a obrigação de ser quem o meio, os outros, querem que o indivíduo seja.

Embora quase tudo não passe de ficção _alguns postulantes são baseados em histórias reais_ e, acabando a trama, pode também se esvair a pressão desconfortável no peito, é extremamente importante levar frescor à folia descompromissada da casa-grande, que ultimamente vem achando que parar o açoite é suficiente para viver em paz e de forma justa.

Mas, para os que têm achado esse papo de respeito ao outro, respeito às diferenças, uma chatice sem fim, as películas que concorrem ao Oscar também têm potencial de fisgar tocando em sentimentos e atitudes íntimas, individuais a que todos, querendo ou não, estão expostos.

Em “Manchester à Beira-Mar”, que leva ao extremo aquela vontade de ter o poder de voltar a vida no tempo por cinco minutos e consertar bobagens que se tornam hecatombes e desarrumam por completo os trilhos de uma existência mais ou menos comum, é impossível se furtar de pensar.

Cena de La La Land

Sobra ainda o frescor do despretensioso “La La Land”, que, enquanto embala o público com suas canções e cenas deliciosas também o carrega para uma encruzilhada: o que você está disposto a ceder em seus planos para acomodar o seu amor eterno, seu romance mais saboroso? Como seriam os Carnavais se à colombina não fosse reservada apenas uma dança?

Fico devendo uma palavra de “Até o Último Homem”, que, pela sinopse, a indicação segue com firmeza a linha de elevar uma trama que embute em sua essência causar no cérebro o desconforto de abrir janelas em casarões abandonados de conceitos que se tem preguiça de repensar, reavaliar e reaprender.

Ninguém precisa assistir a um filme buscando nele conteúdo para edificar a alma e está valendo curtir apenas as emoções e o “creck-creck” da pipoca, mas é formidável quando a arte faz despertar para a grandiosidade da vida.

jairo.marques@grupofolha.com.br

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