Jairo Marques

Assim como você

 -

Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

Perfil completo

Publicidade

O prefeito ‘cadeirante’

Por Jairo Marques
Em uma cadeira de rodas, prefeito João Doria testa calçadas na zona norte de SP
Em uma cadeira de rodas, prefeito João Doria testa calçadas na zona norte de SP

Tenho de discordar de muitos que espinafraram e desaprovaram, nas redes sociais e também de forma pouco sociável, o prefeito de São Paulo, João Doria, que zanzou por calçadas esburacadas e criminosas da cidade a bordo de uma cadeira de rodas.

A atitude do mandatário não poderia ser compromisso mais protocolado nos cartórios da opinião pública com a inclusão e com a melhoria da acessibilidade nas vias públicas da metrópole. É assinatura com firma reconhecida em contrato de quatro anos.

Caso contrário, ou seja, que o prefeito pop tenha saracoteado na cadeira apenas para posar para fotografia e passar recibo de bacana com a diversidade, vai ter para o resto de sua vida uma pecha: a de ter usado a imagem de pessoas com deficiência para se promover levianamente.

E eu quero é mais! Quero que Doria use a cadeira de rodas para tentar pegar ônibus coletivo, às 18h de uma sexta-feira, saindo da zona sul rumo à zona leste. Quero que o prefeito procure banheiro público acessível na região central em que caiba sobre rodas. Nesse caso, sugiro levar um penico.

Seria ótimo se o gestor pudesse também, “vestido de malacabado”, tentar ter vida social. Vá ao cinema, veja que reservam para os quebrados sempre os piores lugares. Vá aos bares, prefeito, e perceba que poucos cumprem a lei de oferecer cardápio em braile, banheiro acessível ou mesmo o básico: uma rampa bacana na entrada.

De quebra, é “di certeza”, como diria um amigo meu que já morreu, que o senhor bombaria no “Insta” postando fotos em uma escola inclusiva do município fazendo as vezes de um auxiliar de uma criança com deficiência intelectual. Vai valer para analisar a qualidade da educação oferecida a esses públicos pela prefeitura.

Depois, Doria, vá a um centro público de atenção psicossocial, de preferência se passando por um pai de um pequeno com autismo _sugiro dar uma de doido, caso não consiga vaga. Lá, ele deve ter atendimento multiprofissional para ter a vida que merece e que é obrigação do poder público oferecer. Vai ser um sucesso!

Um excelente presente para a cidade, que completa 463 anos nesta quarta-feira (25), seria ganhar um prefeito que não se passasse por competente, que não se passasse por comprometido com o cidadão, que não se passasse por realizador de mudanças, que não se passasse por engajado com as várias formas de “serumano”.

São Paulo precisa, com urgência, de administradores que assumam suas funções legais de verdade, suas obrigações públicas de verdade, seus votos de verdade e suas próprias vestimentas.

Sentir na pele para conhecer mais de perto o buraco em que está enterrado o outro costuma servir apenas de alívio para quem não vive uma situação de penúria social, mas que quer a aventura, o friozinho na barriga de engolir um pouco de terra, mas, depois, safar-se incólume e com uma memória rasa e nada proativa em relação à realidade alheia.

Mas agora, boto fé, será diferente. A vivência em cadeira de rodas do prefeito da maior cidade da América Latina foi para abrir caminho para passeios “maraviwonderful” em todas as regiões paulistanas. Se assim não for, mais uma cretinice histórica ficará registrada nas calçadas da infâmia deste país.

Blogs da Folha

Versão impressa

Publicidade
Publicidade
Publicidade