Jairo Marques

Assim como você

 -

Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

França proíbe vídeo sobre valor da vida com down

Por Jairo Marques

Meu povo, uma polêmica envolvendo pessoas com Síndrome de Down vem ganhando terreno desde o final da última semana aqui no Brasil. É que autoridades francesas resolveram proibir a veiculação de um vídeo que tem como finalidade mostrar que a vida de um bebê com down deve ser preservada e vale a pena.

Vários conceitos estão amarrados nessa questão: o avanço científico que consegue detectar com o feto em poucas semanas a possível ocorrência da síndrome, o direito da mulher e da família em decidir se querem ou não ter o bebê “diferente” e a própria ampliação de conceitos relativos à viabilidade de uma existência diante uma diferença física ou sensorial.

É preciso pontuar, antes de mais nada, que a França descriminalizou o aborto há mais de 40 anos. A mulher, no país europeu, tem a supremacia sobre seu corpo e decide se quer ou não levar adianta uma gravidez, independentemente de o feto ser assim ou assado.

Dito isso, penso ser importante colocar que naquele país o debate de ideias tem outro nível de evolução, que os direitos individuais possuem outra dimensão e que a questão da proibição não passa isoladamente pela defesa de uma bandeira liberal. São décadas de argumentação e contra-argumentação.

O principal ponto para a proibição da peça, que é uma fofura pura, muito bem produzida,premiada,  e é  muito comovente (veja abaixo), é que ela agrediria ou deixaria numa situação de constrangimento das mulheres que por ventura desejem abortar um feto com down e ainda aquelas que tenham abortado.

Por dezenas de vezes já manifestei aqui no blog e em minhas colunas a minha convicção de que um bebê, uma criança, uma pessoa com down possuem capacidade de desenvolvido e de viver de maneira feliz e completa incontestável.

As leis brasileiras se ampliaram no abraço a essa diversidade humana e as famílias têm se apoderado mais e mais para capacitar, encorajar e defender seus “filhos” em sociedade. Tudo isso é formidável, mostra, a meu ver, evolução em reconhecimento do “serumano” em suas mais diversas representações.

Bem, mas, tudo isso, é diferente de fazer um julgamento razoável da atitude dos franceses. Penso ser pouco legítimo para mim, de fora da convivência cultural do país, emitir uma opinião rápida sobre a ação de proibição.

Em uma comunidade onde os direitos individuais já foram debatidos de maneira exaustiva, não passa apenas por um sim ou não uma decisão como essas. Retirar a peça publicitária do contexto francês e trazê-lo para o Brasil, que ainda proíbe o aborto, é uma atitude temerária.

Se alguém delibera que há ofensa em relação à mãe que quer abortar, penso ser necessário levar isso com mais profundidade do que apenas dizer que seria um absurdo proibir uma ação de defesa da vida, da viabilidade da vida com down.

São claramente discussões diferentes e que, de forma diferente, precisam ter suas defesas consideradas. Talvez seja um absurdo para um americano da Califórnia, por exemplo, saber que o Brasil proíbe certas publicidades de comidas infantis, afinal, ele é regido por outros tipos de discussões e valores.

Um manifestação pública de várias partes do mundo pedindo a liberação do comercial das crianças com down na França está sendo feita, o que também considero legítimo. A peça comercial, feita no intuito de divulgar a causa dos downs, conta a participação de pessoas de várias partes do mundo. O que é fundamental levar em consideração é que não se impõe verdades e convicções sobre os outros, sem amplo conhecimento da realidade do outro.

O avanço científico, o direito da mulher e a vida em sua plenitude de possibilidades evoluem todos os dias e vão demandar sempre a atualização das discussões em diversas esferas sociais. O melhor caminho para soluções razoáveis me parece estarmos dispostos a ouvir o contraditório, a questionar nossas verdades e a ampliar nossos conceitos.

Blogs da Folha