Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Cachorro velho acompanha minha mãe nas dores da velhice

Por Folha

Nero, que no registro é labrador e na feição é só um cachorrão preto, fez 11 anos na semana passada. Mesmo sendo tratado por mamãe com banho de leite de rosas e atenção de filho caçula, o bicho envelheceu. Não pula mais para lamber a cara das visitas e tem sofrido bullying dos gatos que desfilam pelos muros.

O bicho chegou em casa em uma caixa de sapatos, mas com uma grande missão: ocupar um pouco da ausência que eu fazia na varanda, espaço onde eu e minha velha passávamos horas reclamando do calor e refrescando a memória de histórias cômicas da “famiage”.

Nero foi o cão durante a infância e juventude. Comeu o sofá, a camisola da irmã e um pedaço da cômoda. Derrubou o carteiro, beijou o leiteiro, invadiu a casa do açougueiro. Uivou uma noite toda de saudades durante um feriado e escavou o quintal até quase chegar ao Japão em uma tarde que misturou em sua alma animação e solidão.

cachorrovelho

Por mamãe, o cachorro não poupou emoções. Foi sua sombra e isso implicou se espremer em frestas do portão para ir atrás dela de qualquer jeito. Escondia-se embaixo da cama ao anoitecer, ficava saltando na janela da cozinha para vê-la preparar o almoço. Não parava quieto um minuto, não a deixava no tédio um dia sequer.

E, de repente, o tempo passou. Minha velha tem por agora um peludo idoso para fazer companhia –e se preocupar como se fosse um recém-nascido– e não mais um corisco atentado e disposto. Nero carrega o peso de uma vida muito bem vivida, ao mesmo tempo que guarda indignantes semelhanças com a maturidade áspera de sua mentora.

Os dois pouco enxergam, mancam de uma perna por “dores horríveis”, incomodam-se com muita agitação e mantêm um certo ar de cansaço que não se esvai, de angústia que não adormece, de carência de algo que nunca chega. Entre minha velha e seu cachorro velho mora um sentimento muito além de apenas cumplicidade, mas de amizade indelével, de uma certa tristeza de algo que não se decifra com o olhar.

Minha mãe tem se esquecido de muitas coisas ultimamente. Diz que a cabeça está parando de funcionar. O que ela jamais esquece é sua rotina com Nero. Ao anoitecer, ajeita os trapos do marmanjo na cama que fica no quintal e faz nele um chamego; ao amanhecer, dá a ele “bom dia, meu nego” e recebe de volta um fraco abanar de rabo, desajustado, mas sincero. Ao longo do dia, arruma sua comida, prepara para ele meticulosamente o remédio para as perebas na pele, outro para melhorar a tosse, ainda um para as dores na coluna, tem o que “ajuda a cabeça” e, por fim, um que promete a eternidade.

O cão também não se faz de rogado em sua missão de bom companheiro. Esforça-se para manter um rosnado hipoteticamente ameaçador para peludos estranhos que passam muito perto do portão, ergue uma das orelhas quando ela o chama para fazer alguma graça e late de felicidade e com muito esforço sempre que ela chega de qualquer lugar.

Muitos são os que reclamam de que os bichos estão sendo, por estes dias, mais bem tratados do que gente, mas a realidade é que os bichos, muitas vezes, sabem melhor da arte de ser gente, de ser velho e de cravar lembranças boas, inesquecíveis, no coração de amados entes.

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