Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Adulto fuma em lugar proibido, atropela ciclista, diz ofensas, destrata garçons, fala sobre vida alheia

Por Folha

É urgente que se crie logo uma lei, que se baixe uma porcaria, ops, uma portaria, que proíba gente adulta de frequentar certos lugares legais para curtir a vida como parques, redes sociais e restaurantes. Não é preconceito, antecipo, é questão de dar qualidade à existência.

Onde tem adulto tem intriga, tem olhares tortos para quem não anda engomado, tem alguma maldade sendo planejada. Adulto fuma em lugar proibido, atropela ciclista, diz ofensas sobre negros, velhos e pessoas com deficiência. Onde tem adulto tem falação sobre a vida alheia.

Quem acha absurdo proibir que adultos entrem em certos locais não faz ideia do que eles são capazes. Nos bares, destratam garçons ou os tratam como seus capachos; na praia, lotam a areia de lixo e ocupam espaços muito maiores que suas reais necessidades só para “não se misturar”; na política, saqueiam, enganam, trapaceiam e eduardo cunham.

 

Pessoas passeiam pelo parque Ibirapuera

Desde criança tenho comigo essa ideia de que, proibindo esse povo dono da razão de se misturar com os pequenos, a humanidade só tem a ganhar. Brincar seria muito divertido, valendo puxar todas as toalhas das mesas da cantina com prato e tudo, praticar o dadaísmo em qualquer parede, inclusive as das casas das tias muito organizadas, limpinhas, alvas e perfeitas.

Admito que essa proposta pode guardar certa mágoa, certo ranço vingativo, afinal, ainda “cadeirantinho”, os adultos me proibiam de ir e vir por várias partes: ora não tinha rampa, ora não tinha espaço e muitas e muitas vezes o que não tinha era coração e consideração com a diversidade humana, com o cada um é diferente e é assim que se vive.

Sem adultos, a molecada sentaria toda no chão e dividiria a refeição em partes quase iguais, mas respeitando o direito daqueles com fome maior de comerem mais. Haveria, de tempos em tempos, a dança do roda-roda, para ter o gosto de pegar nas mãos de um parceiro novo e receber e dar a ele carinho, trocar energias.

Não haveria gritos, além dos de extrema felicidade, nos picos onde proibissem os adultos. Sairiam os deboches, a rispidez e a empáfia para dar lugar a bolhas de sabão, perguntas sobre como nascem os bebês e abraços desengonçados.

Do jeito que está, tudo misturado, a criança pouco pode imaginar um mundo mais doce para toda a gente, bem melecado de amor ao próximo, multicolorido, com múltiplas possibilidades de esculpir massinhas e imaginar voos no espaço, tombos sem dores. Os grandalhões sempre ocupam a cena e projetam um mundo que atenda apenas suas próprias vontades.

Do jeito que está, tem sempre um que manda o pequeno calar a boca para poder escutar a “notícia” da fulana que traiu o sicrano ou para ver o último vídeo de “violência merecida” postado no “Face”. Querem sossego para namorar em paz, para curtir a “night” sem que pestes atormentem seus planos cercados de desejos ao redor do próprio umbigo.

Quer saber? Vou parar de criancice e pensar como os Mutantes: “É proibido proibir”. Adulto sem criança é baile sem canção. Criança sem adulto é destino sem lição.

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