Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Karnal considera ‘mimimi’ demandas de quem só quer representação

Por Jairo Marques

Um dos mais novos sábios do conhecimento pop nacional, o historiador Leandro Karnal, colunista do jornal “O Estado de S. Paulo”, que tem suas falas e ideias coladas em milhares de janelas de redes sociais falando “verdades” sobre comportamentos da humanidade, fez uma recente crítica bem-humorada a respeito do que chamou de “geração mimimi” ou hipersensibilizada.

O calundu do professor veio diante da insatisfação de alguns grupos organizados ante o uso de termos que, vez ou outra, ele lança mão ao falar com multidões, sempre elevando e parafraseando grandes filósofos e pensadores para refrescar o conhecimento dos plebeus.

Karnal usa em suas concorridas palestras expressões como “corrupção é como herpes”, “liquidez esquizofrênica” ou “sair do autismo tradicional”, entre outras, que, na literalidade, ligam condições de vida diversas e já bastante estigmatizadas a desgraceiras as mais espantosas.

O historiador Leandro Karnal

Não é só o respeitado intelectual da moda quem propaga e enraíza, por exemplo, que o termo “anão” é algo ligado ao inexpressivo –Brasil, o anão econômico–, assim como não é apenas ele quem traz à luz definições históricas e de dicionário em defesa do uso das palavras que são questionadas, e é aí que se agrava a coisa.

Há em curso uma batalha árdua e contínua para que gente tratada como “mimimi” ou chata do “politicamente correto” seja vista com dignidade, respeito e como cidadão pleno e isso passa por uma representação adequada de suas demandas, suas especificidades e suas denominações sociais.

Organizados, os grupos reclamam, pedem retratação (até a ministra Cármen Lúcia chegou a pedir desculpas por um uso atravessado) e tentam explicar que a língua tem dinâmica própria, mais veloz que os glossários, e que, quanto mais a sociedade dá sentido torto à palavra “travesti”, por exemplo, como sinônimo de algo mentiroso, falso, mais podem ser hostilizadas e marginalizadas as legítimas travestis.

“Ah, olha quem tá falando! O sujeito ‘malacabado’, prejudicado das pernas, desbocado!”

Como sempre defendi, “pé de galinha não mata pinto”. Faço parte da trupe, sinto-me legitimado e empoderado para avançar na piada para chegar a uma finalidade supostamente séria; guardo o valor da liberdade de expressão e do estilo; invoco a tolerância e procuro provocar a crítica de quem quer que seja.

Óbvio que a flagrante não intenção de ofender, o desconhecimento e as características de uma fala ou de um escrito devem ser amplamente considerados e debatidos. Do mesmo modo que não dá para espernear e desqualificar “causas sociais” a bel-prazer.

Causas são ações políticas que detêm em seu bojo razões para o uso de termos que consideram mais representativos e acolhedores –procure usar pessoa com deficiência, em vez de portador– e não somente desejos organizados por mais acesso, por inclusão, por remédios e por tratamentos.

A ampliação do conhecimento requer humildade. Requer ouvir clamores e lamúrias que podem ser vistos apressadamente como bobajada, mas que podem fazer sentido, podem ser demandas honestas. O antigo tem de dialogar com o novo para conclusões modernas e representativas. Sócrates não foi “maraviwonderful” à toa ao propagar ao universo: “Só sei que nada sei”.

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