Jairo Marques

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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O que o novo prefeito da maior cidade do país propõe para inclusão e acessibilidade?

Por Jairo Marques

Nenhum grande debate colocando o tema da inclusão no centro da roda aconteceu durante a campanha para a Prefeitura de São Paulo. O assunto surgiu, vez ou outra, em perguntas genéricas, que geraram respostas mais genéricas ainda, em confrontos isolados.

Agora, o prefeito já está eleito –João Doria (PSDB)– e a análise passa a ser diretamente em ações apresentadas, não em promessas. Por enquanto, o que existe é o compromisso firmado no plano de governo.

Ponto positivo é que o tema “pessoa com deficiência” aparece no programa e se estende por diversas áreas básicas: educação, saúde, trabalho, acessibilidade entre outros. Li o texto e avaliei como moderno, bem redigido e dentro de expectativas sem mimimi e mais ligadas a demandas de cidadania atuais. Para consultar o conteúdo sobre pessoa com deficiência no programa de João Doria, é só clicar no bozo… bozo

O documento, porém, é genérico, não havendo nenhum tipo de comprometimento firmado com metas claras de avanço de calçadas inclusivas ou de ampliação da rede de atendimento para crianças com deficiência intelectual em contra-turno escolar, por exemplo.

João Doria, então candidato, fazendo campanha pelo centro de SP, região onde impera a falta de acessibilidade Foto: Zanone Fraissat/Folhapress
João Doria, então candidato, fazendo campanha pelo centro de SP, região onde impera a falta de acessibilidade Foto: Zanone Fraissat/Folhapress

O item de calçamento digno, uma das dívidas históricas dos administradores da cidade com o povo “malacabado”, é amplo e não diz o que de fato poderá avançar: “Investir na reforma das calçadas, tornando-as acessíveis e garantindo plena mobilidade aos cidadãos com e sem deficiência.”

Vale citar ainda que a gestão de Fernando Haddad praticamente ignorou essa demanda e sugeriu que cadeirantes e demais pessoas com mobilidade reduzida usassem as ciclofaixas e não os passeios assassinos da capital paulista, o que jamais concordei.

Prefeito Fernando Haddad, em 2012, visitando a AACD Foto: Jorge Araújo/Folhapress
Prefeito Fernando Haddad, em 2012, visitando a AACD Foto: Jorge Araújo/Folhapress

O petista sai de cena sem deixar nenhuma marca expressiva no âmbito da inclusão.

Por outro lado, não é certo nem que Doria mantenha a secretaria da Pessoa com Deficiência como uma pasta de sua equipe. No começo da campanha, ele chegou a dizer que acabaria com a estrutura, por achar que era dinheiro jogado fora, mas voltou atrás da “ideia”.

Caso mantenha a palavra, o desafio do prefeito será apresentar um nome representativo do público com deficiência, que tenha noções profundas das demandas dessas pessoas e que saiba lidar com a diversidade de uma maneira moderna, receptiva e propositiva. Normalmente, a pasta é usada apenas para atender interesses políticos e é ocupada por gente que não reforça o poder das diferenças com representatividade legítima.

A médica Marianne Pinotti, que ocupa a cadeira de secretária da Pessoa com Deficiência nos últimos quatro anos, investiu em criatividade, inovação e cultura inclusiva.

Fez, por exemplo, uma central de Libras, para pessoas com deficiência auditiva de variados graus, ampliou e modernizou significativamente o serviço “Atende”, de assistência ao transporte do povo “prejudicado das partes” e apresentou-se às mais diversas discussões em torno dos temas “inclusão” e “acessibilidade”.

Pinotti ficou devendo mais ações de acessibilidade física pela cidade, como piso tátil, passeios seguros, rampas (veja teste realizado pela Folha). Mas, sem orçamento específico e sem ações conjunturais, não era missão das mais simples. A pasta alega que houve avanço também nesta área, o que vejo como apenas simbólico.

E o que esperar nesse sentido do prefeito Doria “gestor”? Não tenho grandes expectativas, pois, afinal, o prefeito eleito quer entregar boa parte da coisa pública à iniciativa privada. A meu ver, tentar fazer com que a população “cuide” da própria calçada é jogo jogado e perdido. Em grandes cidades do mundo, passeios são padronizados e cuidados pelas adminstrações.

Trechocom calçada detonada na zona oeste de São Paulo Foto: Jorge Araújo/Folhapress
Trechocom calçada detonada na zona oeste de São Paulo Foto: Jorge Araújo/Folhapress

Outro ponto que boto em questionamento é que inclusão não se faz de maneira executiva, com medidas na ponta da caneta dizendo o que é “certo e errado” e com ares de patrão açoitando empregado. Como tudo na área social, inclusão precisa de diálogo, de entendimento profundo de demandas, de sensibilidade para adoção de posturas e de mudanças de atitude.

Como nem sentou na cadeira, é fundamental dar um voto de confiança ao tucano e acompanhar suas medidas par e passo, cobrando atitudes e protestando por possíveis desvios e descasos. Importante é frisar que as demandas são de milhares de cidadãos que já não aceitam mais passivamente serem relegados à insignificância!

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