Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Jogos Paraolímpicos no Brasil é chance de reencontro com esperanças perdidas

Por Jairo Marques

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Em geral, os atletas que vão disputar medalhas na Paraolimpíada do Rio, que será aberta na noite desta quarta-feira (7), sentem arrepios quando neles se procura algo mais do que um resultado esportivo, um grito de garra, uma marca histórica. Eles querem, com justeza, serem vistos por seus resultados e pelo empenho que colocaram em suas trajetórias em busca de serem campeões. Ninguém quer o peso de servir de exemplo ou ser visto apenas por seu esforço pessoal diante uma adversidade física, sensorial ou intelectual.

Mas não tem jeito. Para quem assiste a qualquer uma das 23 modalidades dos jogos, a experiência é sempre maior do que uma emoção vinda de competições acirradas ou da explosão gloriosa da conquista de um ouro, de uma prata ou de um bronze. Há algo de valor humano perdido, escondido ou escanteado no mundo que se vê cravado na aura desses competidores.

Como não analisar a própria preguiça de mudar uma postura autodestrutiva quando um chinês sem braços e sem pernas se lança em uma piscina e vai contorcendo seu valoroso “resto de corpo” em busca de percorrer 100 ou 200 metros na água? Como não procurar na alma coragem para enfrentar um desgosto no amor, no trabalho, quando se vê um canadense do tiro com arco usando os dedos dos pés para puxar a corda que levará a flecha rumo ao alvo e ao pódio?

Um gol da seleção brasileira de futebol de 5, jogado por cegos, é comemorado com tanto grito e euforia como se a intenção dos torcedores fosse iluminar com holofotes as escuridões que os impedem de enxergar possibilidades de viver melhor, de abraçar mais a diversidade, de ser mais atento ao julgar as diferenças alheias.

Em cada rodopiar de um cadeirante na quadra de basquete ou em cada choque assustador entre os jogadores de rúgbi em cadeira de rodas, um tilintar de novas ideias para os velhos e angustiantes problemas parece brotar na cabeça. É como se aquelas vidas que parecem tão impossíveis de serem vividas, protagonizando tantos movimentos, despertassem um sentimento de renovação nas já amplas possibilidades de seguir adiante em quem é contemplado com a “perfeição”.

E o que dizer da hora em que corredores sem as pernas, equilibrando-se em próteses de carbono “xyz”, tomam posição em suas raias no estádio? É momento de buscar esperança para reacomodar perdas íntimas, hora de consertar defeitos bobos de relacionamentos, hora de dar uma mãozinha para queridos que caíram em esquecimento.

A Paraolimpíada será no Brasil, país que chora tantas desonras, que clama por mais modelos de boa representação e que necessita de uma guinada de motivação urgente rumo a dias melhores. A Paraolimpíada será no Rio, cidade que adora se dizer “maraviwonderful”, mas que tanto pena por ser bonita de corpo e desajeitada de espírito.

Os Jogos Paraolímpicos serão aqui no quintal e as sementes para fazê-los inesquecíveis, frondosos e históricos estão nos bolsos dos brasileiros que, de quebra, poderão levar para casa e para o coração uma mensagem, uma imagem e uma história de motivação, de inspiração e de inclusão. A esperança de dias melhores nunca esteve tão perto.

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