Jairo Marques

Assim como você

 -

Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

Bote seu sangue na rede

Por Folha

Elis entrou na fase que muitos, inclusive leitores deste espaço, me alertavam havia tempos que chegaria: a do demônio da tasmânia. Não para quieta um segundo, zanza a casa toda, louca, com sorriso desatado e olhos inquietos, em busca de sabe-se Deus o que será.

As consequências não poderiam ser mais previsíveis também. Na semana passada, tropicou em sua própria euforia de viver e “catapum”, foi de cara, bichinho de pelúcia e lacinho de cabelo para o chão. Junto com um berro animado, a menina apresentou com eloquência seu sangue tipo A negativo, que jorrava daquela boca que me beija e me arrasa o coração.

“Vamos logo para o hospital. Vai que ela precise de uma transfusão”, disse a mulher, mais preocupada do que barata atravessando galinheiro. Não era para tanto. O choro logo passou, o sangue estancou rapidinho e nenhuma marca, além de uma fissura minúscula no beiço, ficou. O que não passou foi um pensamento em torno da fragilidade humana, de ter de ser ágil na busca pela salvação para os lamentos do corpo.

A gente sempre lê e ouve que os bancos de sangue estão carentes de doações e, em tempos bicudos e de frio, a boa vontade do povo se esvai como areia entre as mãos. Assim, quem precisa fica ainda mais vulnerável, exposto à ausência de mais consciência de amparo ao outro.

Quando eu era menino, fiz uma cirurgia na coluna que me abriram igual a um salmão na mesa do açougueiro, do final do pescoço ao começo da bunda. Para o procedimento, minha mãe teve de arregimentar, em um lugar estranho, onde não conhecia ninguém, oito pessoas para repor estoques de O positivo ao banco do hospital.

A colaboração para a minha situação-limite veio de homens parrudos do Exército, organização que, até hoje, supre emergências de hemoderivados deste país.

E centenas de pessoas, todos os dias, passam por momentos semelhantes em meio a dores emocionais e físicas provocadas por traumas, procedimentos médicos complexos e outras desgraceiras. Além de toda a instabilidade gerada pela quebra da normalidade, é preciso correr atrás de sangue para fazer girar com mais tranquilidade as “casas do elixir da salvação” para outras pessoas.

Mesmo que todos os anos campanhas e campanhas martelem no público a necessidade de doar, o Brasil, segundo pesquisa do Instituto Colabore, com base em dados do Ministério da Saúde, ainda não atingiu padrões internacionais de conforto de garantia do insumo vital.

Os números mostram que, embora a palavra (solidariedade) seja grande, sua aplicação é ainda diminuta: 1,8% dos brasileiros doam sangue; nenhum Estado colheu, em 2014, a quantidade de bolsas suficiente para atingir a marca mínima apregoada pela Organização Mundial de Saúde: 5% da população.

Agora, até as “internets” vão servir de veia para que a fome atinja a vontade de comer. Um aplicativo chamado Heroes (www.heroesbrasil.com.br) vai mostrar ao usuário a situação dos bancos de sangue próximos a ele, vai indicar quais tipos estão mais em falta e até poderá mandar alertas de estoques muito baixos. A ferramenta também serve para tirar dúvidas de quem pode doar, como fazer para não ter “medinho” e como se tornar doador! Achei “maraviwonderful”.

Blogs da Folha

Versão impressa

Publicidade
Publicidade
Publicidade