Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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O pai da noiva

Por Folha

Fico igual a um marimbondão preto quando preciso participar de celebrações dessas que exigem traje a rigor e são cheias de marcações bestas, como apresentação de discursos empolados, a hora de entoar a dancinha da moda, a liberação para avançar na comida.

Um tanto de meu calundu vem do fato de que colocar um cabra ruim das pernas como eu dentro de um fraque dá mais trabalho do que um porco solto, outro tanto é porque os locais onde rolam eventos tradicionais, para dar charme ao ambiente e aporrinhar a vida de cadeirantes, adoram ostentar uns degraus aqui, outros ali.

Mas, como nem sempre é possível rabiscar da agenda esses compromissos, lá fui eu, parecendo uma salsicha dentro de um pão amanhecido, a um casamento. Para melhorar meu humor, os “da família”, como era meu caso, tinham de se apresentar ainda mais engomados, o que me tornava o Tutancâmon aleijado.

“Relaxa e deixa de ser azedo. Vai ser legal”, buzinava a mulher ao pé do ouvido, com a ingrata função de equilibrar-se no salto enquanto me empurrava, acalmava a bebê, que estranhava o ambiente agitado, e ainda tinha de abrir caminho entre os convidados para me estacionar em um canto mais tranquilo até o momento de a peleja começar.

A primeira grande emoção da noite foi descer, com Elis no colo, uma rampa íngreme que dava acesso às proximidades do altar. Não podia eu ficar quieto na minha; tinha de ficar lá na frente dos holofotes. Vendo a cena, o povo dava sorrisos e suspiros achando aquilo uma boniteza.

Em seguida, entrou no salão a vó, que, além de se equilibrar em uma bengala, amparava no braço a imagem de uma santa. Haja equilíbrio, haja lágrima para os presentes, vários já colocando a mão no peito.

De repente, no prenúncio da chegada mais aguardada, a da noiva, surge um moleque faceiro em uma patinete arrancando sorrisos. Começo a gargalhar internamente pensando que nenhuma formalidade resiste à realidade de uma família, com velhos, com gente torta, com criança levada. Mas eis que adentra o salão a moça da noite, com um vestido tão reluzente e exuberante que faria aquela princesa da Disney, a do “Let It Go”, sentir-se como se estivesse usando farrapos. Durou pouco, porém, o seu estrelato. Ela claramente não queria marcar a noite como apenas sua.

Fazendo um esforço físico de trabalhador braçal, a noiva, sem medo de deselegância, amparava o pai pelo braço. Ela, radiante e emocionada. Ele, um italianão forte, já idoso, e pelas intempéries da vida, debilitado em movimentos, fala e visão.

O buquê ficou desajeitado, a postura dela estava longe da longilínea e frondosa esperada das noivas tradicionais, a maquiagem derretia com o suor do esforço e com o choro incontido, afinal, o público foi ao delírio e pouco importava o protocolo naquele momento.

O pai foi marchando devagarinho e degustando o momento ao máximo. A noiva, provavelmente, sentia-se realizada pela homenagem, por demonstrar gratidão.

Às vezes, cerimônias podem ser mais que caprichos sociais. Podem ser oportunidades de extrapolar amores, de quebrar formalidades em prol de belos atendimentos a necessidades específicas e legítimas. Vou tentar ser menos ranzinza. Um viva às noivas, mesmo meio atrasado!

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