Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Avante, leõezinhos

Por Folha

Todos os dias chegam até mim pedidos para dar uma “mãozinha” em campanhas de arrecadação de fundos para auxiliar pessoas “malacabadas” das mais diversas partes, com as mais diversas intensidades. Como a saúde brasileira não tem dado conta nem de espantar mosquito, o jeito é procurar socorro na solidariedade e no “bom coração” do povo.

Não costumo me comover com gente que quer inventar moda com farrapos. Ir para os cafundós atrás de doutores “xing lings” que prometem milagres ou pedir ajuda para melhorar uma condição física ou sensorial que já se mostra avançada diante da realidade de muitos, isso é coisa a que não dou eco, vá me desculpando. Entendo que querer progredir um quadro de adversidade seja legítimo, mas chega um ponto da vida em que é necessário mirar outros caminhos de avanço que não consertar a funilaria amassada ou os faróis meio turvos. Navegar é preciso. Os mares são imensos e os ventos não param jamais.

Há, contudo, situações em que o amparo coletivo me parece a única opção para que um barquinho desatole e encontre um novo rumo. Geralmente, são casos que envolvem crianças cheias de possibilidades para reinventar-se, mas com pouco recurso para estender as velas.

Nem sempre se encontra fôlego e disposição para entender que o problema grave dos outros pode, sim, ter reflexos e repercussão em minha realidade. O altruísmo é um poderoso elixir contra egoísmos, intolerâncias, desvios de caráter, ganância, arrogância e crueldades que, se não minam riquezas, criam crateras emocionais, câncer e outras desgraceiras. Parece até que é científico!

Há algumas semanas, durmo e acordo com a história do João Vicente, 4, na cabeça. O garoto sofreu um AVC (‘ah, vá, cê tá falando sério?’), sim, um AVC, quando tinha um ano e oito meses. Ficou todo descompensado e atrapalhado das partes. Parou de andar, de falar, de interagir e de ser um bebê gute-gute para ser um desafio gigantesco de sobrevivência para si mesmo e para seus pais. Em seguida, a família ainda teve a surpresa deselegante de descobrir no pequeno uma síndrome rara de lascar: a Shua (Síndrome Hemolítico Urêmica Atípica), que pode minar gradativamente órgãos vitais. Somente com garras afiadas, terapias e medicamentos modernos se consegue firmar a alma no lugar.

Assistir às imagens de João saracoteando e sorrindo, tudo “dentro do padrão”, antes de ser abatido pelo destino, e as de depois de ele ficar ausente de várias de suas funções básicas de existir já é o suficiente para desestabilizar um orangotango alfa. Mas o custo de aparar a juba, manter o pelo viçoso e o coração do menino batendo forte e com segurança é alto. Ajuda-se e compreende-se mais visitando facebook.com/avanteleaozinho.

A selva é gigantesca e, constantemente, há pequenos felinos abatidos à espreita e à espera de salvação, de um empurrão para voltar a urrar a plenos pulmões, para avançar em suas trajetórias. Um deles, certamente, todo o mundo pode ajudar seja com um suculento bifão, seja com uma doação. Sacudir os galhos do conformismo diante dos complexos desafios, para alguns, de habitar a Terra ajuda no fortalecimento de toda a cadeia que alimenta os instintos mais profundos de evoluirmos como humanos.

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