Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Para os velhos, robôs

Por Folha

Fiquei igual a um marimbondão preto, como diria minha tia Filinha, ao assistir pela TV a uma reportagem que mostrava as nova maravilhas robóticas criadas no Japão. A função das máquinas tecnológicas era inusitada: ajudar no trato dos velhos, fazer companhia a eles, cantar musiquinhas e tornar suas tarefas diárias supostamente mais seguras.

A ideia das invenções não seria, segundo seus criadores, substituir os cuidadores e acompanhantes, mas facilitar o dia a dia do idoso, dando a ele mais independência e oferecendo mais tranquilidade para toda a família… sei.

Dessa forma, um robô em formato de foca que pisca de maneira lacrimal faria sala para o vovô em alguns momentos, um outro contaria historinhas para boi dormir e ainda haveria um capaz de reagir à fala da vovó com gargalhadas, surpresa ou espanto. Valha-me, Deus!

Uma série britânica brilhante chamada “Black Mirror”, disponível na Netflix, mostra de forma extremada, mas bastante verossímil, o possível custo de deixar que as relações humanas se tornem controladas ou mediadas por componentes eletrônicos e programas de computador. Tudo parece muito prático, fácil, moderno e confortável, mas, nas entrelinhas dos capítulos da série, vão se formando ruínas emocionais e lacunas de compreensão ao próximo tão angustiantes como perversas.

Em um dos episódios, por exemplo, os personagens são capazes de instalar na mente um software que grava ininterruptamente o cotidiano deles e que permite retomar qualquer trecho do dia e do passado e ainda exibi-los em uma tela. Assim, um confronto interminável de verdades e mentiras ditas é formado.

Fugindo da ficção, por vezes e vezes me distraio com os apetrechos do telefone celular enquanto minha Elis, aparentemente incrédula com a situação, baba em um bloquinho de plástico e resmunga minha atenção. Péssimo de pensar que o mundo on-line consome meu mundo de pai.

Claro que a tecnologia avança para fazer as chatices mais brandas, para entreter e para ajudar, mas apavora pensar que, em vez de gente, de neto, de parceiro, um robô poderá ser o interlocutor daquela situação engraçadíssima que o vovô já contou 300 vezes, com o mesmo entusiasmo e disposição de arrancar sorrisos.

O conteúdo da velhice merece futuro melhor que ouvidos mecânicos e palavras programadas. E não é exagero projetar que, para diminuir o “trabalho” de ser atento às demandas do avançar da idade, a humanidade vá criando mais e mais dispositivos para que cada um se vire por si mesmo apertando botões.

Mas nem tudo nesse jacarandá são cupins. Diego Ohara Silva, rapaz egresso de escola pública, filho de alfaiate e que conquistou o primeiro lugar no curso de medicina da USP neste ano —feito que cabe aos gênios—, declarou o seguinte motivo para se dedicar a uma nova carreira, haja vista que já era formado em engenharia: “Eu penso em cuidar dos meus pais”.

Se há dureza na obrigação de assumir as consequências da velhice das pessoas próximas e tudo o que se quer são máquinas que desobriguem de desgastes físicos e emocionais, há também alguma ternura resistente em reconhecer o velho como razão de projetos de vida e de amor real.

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