Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Antes de abortar

Por Folha

Pouquíssimas chances de viver estão restando aos bebês com microcefalia. Por aqui e por ali leio que eles “choram demais”, têm o cérebro completamente comprometido, têm deficiência visual, são abandonados pelos pais, pelo governo e nem as almas querem encarnar naquilo.

A ciência e a medicina ainda não conseguiram demonstrar com exatidão como o vírus da zika afeta o cérebro do feto nem quando ele agiria, mas são capazes de prever que vida decente ele não terá e que será um “serumano” imprestável diante dos desafiantes caminhos de ser gente em nosso tempo.

Tomar a decisão do aborto parece ser a mais tranquila e menos dramática para todos, inclusive para a sociedade, que não terá de lidar com esse problema a mais.

Encarar, amar e fazer evoluir um filho nascido em desacordo com tudo o que se acha normal seria uma estupidez, quase uma ação bárbara diante a modernidade de corpos sarados à base de granola e malhação.

Embutidos na ação de gerar um novo ser estão desafios ocultos que empoderam –e fazem sofrer, evidentemente–, colocam convicções contra a parede e ensinam maneiras diferentes de encarar a realidade. Cada vez mais, porém, parece que o legítimo, o correto e o “descolado” é saborear apenas a bonança.

Milhares de pessoas convivem com deficiências bastante incapacitantes, em diversos níveis, no mundo. Um punhado delas, com apoio, com acesso a intervenções diversas desde o nascimento, com entendimento de suas necessidades, evoluem a ponto de ser quase aquilo que se espera em um porta-retratos de uma família perfeita.

Não cabe nestas linhas discutir o direito da mulher de tomar as decisões que melhor lhe convierem sobre o seu corpo e o seu ventre, mas a legitimação do arrasto de uma geração para o esgoto aflige quem habita a terra das ditas imperfeições físicas, sensoriais ou intelectuais.

Cada pai e cada mãe que abraçam um filho com deficiência, embora, potencialmente, abriguem alguma frustração na mente, amam cada centímetro de seus pés tortos, dão risada em algum momento com suas doidices, jamais o abandonariam à própria sorte.

O espanto e a tragédia da microcefalia têm gritado com muito mais força do que sentimentos de resiliência, de transformação de pingos de vida em cachoeiras de possibilidades de ser feliz e de promover felicidade.

Sem encorajar de maneira robusta e contundente as famílias afligidas, o ato de abortar como medida higienista da raça humana tende a ganhar mais e mais terreno, sempre resguardado pelo terror da incapacidade futura do bebê e do pânico de não ter uma fofura deitada no berço.

Defendo o livre arbítrio, mas não me conformo com a ocultação do outro lado, extremamente mais frágil, desta avalanche provocada por uma doença não totalmente mapeada, entendida e projetada. Não me conformo com o tom de piedade gerado em torno de quem decide seguir adiante e botar garras de bicho selvagem na defesa de sua cria “mal-acabada”.

Não, não gostaria de ter um filho microcéfalo cheio de limitações e que consumisse a maior parte do meu tempo, dos meus recursos financeiros e das minhas emoções, mas não pautaria uma decisão de ter ou não um bebê com deficiência severa em avaliações simplistas, mecânicas, individualistas, baseadas em medo, vaidade ou supostas incapacidades pessoais.

jairo.marques@grupofolha.com.br

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