Jairo Marques

Assim como você

 -

Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

‘Coitadinhar’

Por Folha

Uma das melhores interpretações já feitas do verbo “coitadinhar”, neologismo que aprendi durante um papo-furado com uma grande amiga que é cega, foi feita no filme “Shrek”. Ela acontece no momento em que o Gato de Botas, para fugir de uma situação em que estava encurralado, esbugalhou os olhos, comprimiu o pescoço, ensaiou um choro e conseguiu, por fim, amolecer o coração dos malvados que o cercavam, escapando ileso.

“Coitadinhar” é prática ainda muito recorrente entre o povo da minha espécie, os quebrados das partes, que, no afã de aceitação, no intuito de criar um argumento para que seja compreendida sua limitação, coloca diante do enfrentamento das situações o seu jeito torto, o seu escutador de novela avariado.

“Coitadinhar” é deixar que a incapacidade seja maior do que de fato é e esperar que os outros empunhem o batido e cansativo rótulo de “exemplo de superação” por estar simplesmente vivendo, tocando o dia a dia, batalhando por um espaço como qualquer outro “serumano”.

Quem permite ser chamado de “exemplo” porque respira direitinho, consegue abrir uma lata de sardinha, rodopia e chama o movimento de pasodoble ou esculpe bichinhos em massa de modelar e considera-se Rodin, corre sério risco de estar “coitadinhando”.

Com isso, criam-se ranços e falsas impressões: o cego sempre vai precisar ser puxado pelo braço no meio da rua para chegar ao lugar onde precisa, uma vez que cegueira e independência não se misturam; o down será colocado na “sala especial”, uma vez que necessita de um cantinho só para ele, e o surdo será dado como mudo e “difinitivamente”, como diria minha tia
Filinha, ninguém vai tentar se comunicar com ele.

Hoje em dia, porém, há também gente se “coitadinhando” no Congresso Nacional, nas redes sociais e até no enfrentamento natural da vida. Assim, não se assumem lambanças, criam-se subterfúgios para ser considerado inocente; não se interage, apenas publica-se o tempo todo imagens e mensagens com autoestima de cachorro molhado e, por fim, não se faz autocrítica, culpa-se os outros pelas próprias desgraceiras e inconsistências.

Quando alguém se “coitadinha”, abre a porteira para ser avaliado como ser inferior, digno de pena, que precisa de ajuda permanente para resolver os perrengues do dia a dia. Você passa a ser oficialmente a mala mais pesada da viagem de férias, aquela que todos sabem que existe, mas que exige coragem e saco para ser encarada.

Por esses dias natalinos, em que rever posturas diante de si mesmo é tradição, está escancarada a oportunidade para fazer diferente.

Em vez do puro lamento, a divisão realista de um sentimento; em vez de se esconder atrás de ausências, batalhar pelo direito de igualdade; em vez de um vago apelo por caridade, a coragem de tentar outros caminhos.

Não há mal na fragilidade, na necessidade de ser assistido, em ser alvo da fraternidade e da boa ação. O problema é quando o ditado “Quem tem quem o chore, faz que morre todos os dias” vai sendo incorporado sem pudores no cotidiano e amarra terminantemente a vontade de acordar para a vida.

Volto antes de o ano se fechar! Um ótimo Natal a todos.

Blogs da Folha