Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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O grande filho

Por Folha

— Seu Jairim, peço desculpas, mas tenho de acelerar. Já são cinco para as quatro.

— Tudo bem, mas aconteceu algo? Surgiu algum imprevisto? Deu dor de barriga?

— Não, não. É que minha mãe fica me esperando chegar em casa. Se me atraso depois de 16h30, ela começa a me ligar, mandar mensagem, fica preocupada.

Parei por alguns instantes para tentar entender aquela cena que me parecia totalmente sem nexo. O motorista, um senhor de 50 anos, acostumado à correria e à rotina desarranjada de jornalistas, tinha de me entregar rapidamente de volta ao jornal, depois de uma tarde de trabalho, por causa da mamãe?

— Mas ela está passando mal? Precisa tomar algum tipo de medicamento? Está em apuros?

— Não, senhor, mas ela me aguarda chegar no final da tarde para fazer companhia. Passa o dia sozinha. Fica ansiosa, sabe como é?

— Sei… Ela está acamada? Tem alguma deficiência?

— Não, senhor. Mamãe está ótima! Tem 80 anos e vive muito bem. Tem uma memória prodigiosa. Mas ela fica doidinha de vontade de me contar como foi o dia, de falar sobre a inflação que está voltando com tudo, de reclamar que não tinha fruta boa no supermercado, sabe como é? Depois vamos assistir à novela e discutir o capítulo do dia. Não gosto de novela de hoje em dia, só tem bobeira, mas a mamãe se diverte e acompanho.

— Difícil ter filho assim nos tempos modernos. Cada um costuma seguir sua vida, tomar conta dos próprios problemas, da família. Não tem receio de ter de assumir responsabilidades maiores com ela? Ter de dar banho, comida na boca?

— Imagina! Estou preparadíssimo para o que der e vier. Dei muito mais trabalho a ela quando fui bebê e só chorava, não sabia explicar o que queria. Minha mãe me criou sem pai, dificuldade dobrada. Tudo o que eu fizer por ela ainda é pouco.

Fiquei ligeiramente consternado com aquela conversa. O dia a dia é tão mais duro que aquelas declarações de amor infinito. Tem o trânsito infernal, o Eduardo Cunha que não larga o osso, a luta pelas liberdades femininas, o Natal chegando.

— Mas não tem conflito de gerações entre vocês? Não tem vontade de chegar à 0h, bêbado, babando e falar “Não me amola, mãe”?

— Não fui um grande filho. Não dei à minha mãe nenhum orgulho memorável. Não me tornei doutor, mal estudei. Não tive um casamento perfeito nem consegui formar uma família de margarina.

Também não tenho como dar a ela uma vida maravilhosa. Então, agora que ela precisa da minha companhia, tem poucos amigos, está mais lenta, faladeira, estou aqui para fazer tudo por ela. É o mínimo. Amo minha velha.

Embora o papo estivesse muito bom, o motorista não parava de olhar no relógio. Dificilmente ele chegaria às 16h30 para o abraço na mãe. Ele, então, sacou o telefone e, sem rodeios, lascou um:

“Desculpa, mamãe, hoje vou me atrasar, mas logo estarei aí”.

Chegando ao meu destino, desci do carro rapidamente e encomendei um forte abraço à mãe de “Francisquinho”. Pensei que, naquele dia –e em vários outros–, não fui um grande filho. Não tive a oportunidade de poder chegar em casa no final de tarde para ver novela com dona Marli.

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