Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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A Escola dos Lindos

Por Folha

“Na nossa escola, só entram os muito bem-nascidos de feição. Apenas a beleza rara, a pele de pêssego, os lábios bem desenhados e carnudos, os cabelos desembaraçados e tratados com manteiga de karité nos interessam. Aqui não aceitamos os encardidos, os de olhos tortos, os perebentos, os com marcas roxas, os que pensam demais e franzem a testa e os gorduchos. Não abrimos mão da lindeza!

A filosofia do nosso antro de saber é a negação das esquisitices –seja ficar falando sozinho na hora do intervalo, seja ficar pulando com uma perna só. Defendemos o ódio às verrugas e às pintas de nascença, bem como cirurgias plásticas imediatas para qualquer marca deixada pela catapora ou pela vacina BCG.

Não ofertamos, em hipótese nenhuma, bolsas de estudos para pobres, para pessoas com olhos muito puxados ou com cabeça cujo diâmetro destoe durante a brincadeira de bambolê. Pretos, somente os caramelizados com traços europeus serão analisados para matrícula.

As práticas desportivas dentro da nossa unidade educacional não envolvem contato físico com outros alunos para evitar qualquer inconveniente para as unhas das meninas e para manter o bom odor dos meninos.

Nossos professores foram selecionados por meio de concursos rigorosos de aptidão para incentivar a vaidade extrema, a competitividade pelas pernas mais torneadas e pelo peitoral mais bem desenhado da turma. Cada um deles sabe como é fundamental incentivar em nossos alunos o espírito da inquietação sobre si mesmos e a busca incessante pela reparação de sobrancelhas desalinhadas.

Aleijados de qualquer espécie não entrarão em nossas dependências com as sujas rodas de suas cadeiras, com seus cães-guia pulguentos, com modos ‘tchuberubes’ ou com baba no canto da boca. Essa gente é um perigo e a queremos longe.

Eles são problema do Estado e já temos gastos importantes com o fomento de inclusão em nossas dependências: inclusão de espaços para descansar a beleza, inclusão de uma área de incentivo ao ‘insemesmamento’ e inclusão de ideias de jerico na cabeça das novas gerações.

Por tudo isso, pela garantia de um futuro vistoso para seus filhos, cobramos o justo: os olhos da cara, mais o valor de suas calças com todas as pregas. Educação é coisa séria e não tem preço! Venha para a Escola dos Lindos”.

Quando escolas particulares fazem um movimento para barrar a entrada de alunos com deficiência em suas dependências, quando se negam a enxergar que apoio e fomento a tudo o que é diverso é princípio básico e sólido para a educação, mais um tijolo é botado na construção da Escola dos Lindos.

É no ambiente múltiplo da sala de aula, do pátio do recreio ou da quadra de esportes que são incentivados, orientados e identificados cidadãos menos preconceituosos e atuantes, gente necessária para um país com menos desigualdades.

Defender que “custa caro” o apoio escolar a uma criança down, com autismo ou com imobilidade extrema e ir à Justiça para fechar a porta do “todos juntos”, embora seja legítimo da democracia, é tão moralmente nocivo como distinguir crianças por seus padrões estéticos. Com a inclusão não se gasta. Investe-se em um ambiente escolar mais plural, exemplar e de vanguarda.

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