Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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O Rio de lágrimas

Por Folha

A menos de um ano da Paraolimpíada do Rio, a prefeitura da cidade anunciou que vai começar a fazer, a partir do mês que vem, algumas rampinhas para tentar ajudar a vida do povão quebrado das partes -milhares de pessoas, de diversos pontos do mundo- que tomará conta dos espaços públicos cariocas e zanzará em busca de esportividade, inclusão, lazer e diversão na terra do samba e da poesia.

Atitude assim, de última hora, baseada apenas em migalhas arquitetônicas, sem planejamento profundo de impacto e viabilidade, não vai despertar jamais o que tanto batalha quem busca por mais igualdade na sociedade: a cultura inclusiva, o todos juntos para tudo.

Ações em massa de acessibilidade no Rio tinham de ter começado há quatro anos, pelo menos, para que pudessem inspirar o comércio, os empresários e a população em geral a também promoverem em seus quintais o ir e vir sem barreiras físicas e de atitude.

As pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida não querem ir à cidade “maraviwonderful” para ver apenas o queixo do Cristo Redentor, para sentir o sabor do Pão de Açúcar ou para dar bom dia à estátua de Drummond em Copacabana.

Promover cultura inclusiva, uma das razões de existir uma competição paraolímpica, envolve qualquer um conseguir ir e ficar em casas da luz vermelha, ao trabalho, ao baile funk no morro ou tomar todas nos bares da Lapa (conseguindo, depois, usar as casinhas mictórias dos botecos).

Envolve também inspirar os cidadãos de uma cidade, de um país, a contemplarem as diferenças sem prejulgamento, a apostarem em maneiras distintas de atingir objetivos iguais e a darem oportunidades, sem preconceitos, para que haja convívio, integração e construção entre qualquer tipo de gente.

Recentemente, em São Paulo, um anão “go-go boy” dançando em uma polêmica festa virou chacota nacional. Toda a pilantragem maior e mais importante da situação, que era o uso de uma repartição policial para uma balada de policiais, tornou-se fato menor. O importante foi o “feito bizarro do anãozinho”.

Como irão ser recebidos nos shoppings da Gávea, nos pontos de brisa do Arpoador, no bondinho de Santa Teresa, as centenas de paradesportistas com nanismo que disputaram medalhas na natação, no halterofilismo e outros esportes?

O público irá vibrar ou rir à boca miúda de multimedalistas com deficiências severas que resultam em corpos com formas não convencionais? Irá apostar com fervor nos cegos corredores ou sentirá dó de seus esforços?

Quando se constata que a cidade mãe da bossa-nova ainda está apanhando para tentar evitar que as pessoas sejam saqueadas na praia, durante a prazerosa hora de bronzear as partes ao sol e serem todos “garotas de Ipanema”, ou matutando sobre como espremer menos o trabalhador em suas lotações, o que me vem à cabeça sobre o sonho de criar um oásis inclusivo neste Brasilzão é apenas aquele velho samba de Luiz Ayrão:

“Um lencinho não dá pra enxugar o Rio de lágrimas que eu tenho para chorar”.

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