Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Os meus 50%

Por Jairo Marques

Eram 5h30, o chão começou a tremer e um barulho de broca mal alinhada tomou conta da casa. Saltei da cama buscando uma rota de fuga e, na sala, encontro a mulher fazendo inalação na bebê, que havia ficado resfriada. Embora seja algo comum, para pais de primeira viagem um nariz fungando em sua cria tem efeito de hecatombe no raro sossego que resta à madrugada.

– Mas ela tá respirando tão direitinho, digo

– Sim, mas tem um negócio fazendo barulho por dentro dela, retruca minha amada e mãe desesperada.

Não são necessárias explicações lógicas nestas situações, já aprendi. Catei o inalador do chão, segurei firme para conter um pouco a vibração _que até agora sacoleja algo em mim_, e fiquei entre o cochilar e o escutar grunhidos de Elis, que me parecia super de boa.

Ao final, com as meninas mais calmas, pensei comigo mesmo: “1% realizado”.

Acho justa, moderna e humana a combinação de casais da atualidade em dividir meio a meio a responsabilidade de dar prumo à vida dos filhos desde o nascimento, mas, preciso confessar que, para esse pai quarentão e mal-acabado das partes, não tem sido fácil, nem simples e muito menos plenamente possível. Não tenho consigo passar nem por aproximação.

As mobílias de bebês não foram nada pensadas para dar ergonomia a papais cadeirantes. Para limpar o bumbum da Elis no trocador, tenho de ficar na alça de mira de uma possível nova rajada de rejeitos e sem grande mobilidade para escapar da tragédia. Ao final do dia, tenho limpado a lixeira, dado uma arrumada nos apetrechos da pequena e somado mais 1% à meta.

Mas a minha derrocada numérica na matemática da igualdade de adular menino se atenua diante de algo inusitado: a pança. Fomos premiados com uma menina que tem cólicas nível arrasa quarteirão. Depois de bolsinha de água quente na barriga, fitoterápicos “poderosíssimos”, horas de um chiado chato emitido pelo celular que juram ser “o som do útero”, é mesmo a pança do papai o que vai relaxar a neném.

Acomodo a danada na protuberância que a medicina tanto condena, canto músicas de São João, damos uns gingados juntos e, geralmente, funciona. Elis dorme gostoso, enche minha camisa de baba e somo lá meus 5%.

Tenho agrupado também ao meu vexatório percentual de pai “modernozo” a função de fazer as pesquisas mais esdrúxulas da história dos buscadores das “internets”. Mando ver em perguntas do tipo “como saber se a bebê está gostando da tiara de oncinha em seu cabelo?” ou “devo me preocupar se o neném arrotou muito rápido?”.

Defendo que descobrir a cancão “Chá-chá-chá”, do grupo Palavra Cantada, um alívio para os ouvidos que já recusam “Galinha Pintadinha”, valeu-me, no mínimo, mais 0,5% na média.

Não é moleza ser um pai não-convencional. A conta parece nunca fechar nas questões práticas e há sobrecarga óbvia para a mamãe. O que me resta é estourar a banca de amar minha menina, de brincar com ela de olhares vesgos e com vozes estrambólicas. Os meus 50% terão de ser de um jeito diferente. Terão de ser 100% atentos em pequenos mimos quase sem valor, quase.

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