Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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“Só não estuda quem não quer, certo?”

Por Jairo Marques

Na vida desse povo lascado por uma deficiência, seja ela física ou sensorial, estudar, preparar-se intelectualmente para os desafios cotidianos é tarefa das menos complexas. O desafio maior, muitas vezes, é conseguir chegar até a escola, até a faculdade, até o local onde mora a sapiência!

A labuta para simplesmente entrar na sala de aula pode envolver uma logística preparada com dias de antecedência, uma vez que ruas, transportes e até mesmo cidadãos não sabem lidar (ou não querem) com a diversidade!

A deliciosa (e de chorar) história que segue abaixo, narrada pelo Levi Wenceslau, autor do livro “Cadeira Elétrica”- Memórias de quem Sobreviveu – ilustra um pouquinho o que é uma decisão de ir em frente, aproveitar “as oportunidades” e capacitar-se para o mundo!

A “novela” serve para mostrar que, muitas vezes, apenas a dedicação da própria pessoa com deficiência não é o suficiente para “chegar lá” e garantir o que parece ser “para todos”, com o direito à educação.

Estudar  ficou caro, e uma das alternativas que me apareceu foi o polêmico e controverso FIES (Fundo de Financiamento Estudantil), destinado a financiar a graduação na educação superior em instituições não gratuitas, e para concluir o burocrático  processo para ter acesso ao tal, depois de dias e horas  tentando fazer a inscrição pela internet, finalmente consegui, e pelo jeito que anda as coisas acho que fui um dos últimos.

Eis que tenho que ir ao banco para assinar o contrato, só vou até  lá em casos de extrema necessidade, não é um ambiente acolhedor, é hostil para alguém de baixa renda. Este simples ato foi repleto de acontecimentos inusitados para os expectadores da façanha. Cadeira de rodas no porta malas do carro, cinto de segurança bem colocado e conferido, pois nunca se sabe…partimos para a missão. 😎

Vagas exclusivas facilitam um tanto a vida dos cadeirantes, dos idosos e de quem tem mobilidade reduzida, o problema é a falta de consciência de muita gente que as utilizam sem necessidade. Na vaga reservada, próxima à rampa de acesso ao banco, estava estacionada uma moto de  corrida, não entendo a linguagem de potência pela qual se classifica as motocicletas, mas igual aquela só vi parecida em corridas exibidas na televisão.

Se de  fato for um deficiente ou um idoso o condutor da mesma, vai valer a pena aguardá-lo e apreciar sua habilidade e coragem para, mesmo com alguma limitação física ou mobilidade reduzida, encarar um transito tão caótico e perigoso como o da região metropolitana de Salvador, onde vivo, pilotando uma maquina tão veloz.

A espera foi frustrante, e no fundo eu já esperava por isso. De  óculos escuros e traje  de moto velocista, encosta na máquina um homem de aproximadamente um metro e oitenta, com um porte atlético e uma agilidade incrível ele pula em cima da moto e nos da um tremendo susto ao ligar suas potentes turbinas, quase  raspando na janela do meu carro faz sinal de positivo e diz: “Foi rapidinho”.  🙄

Estacionamento superado. Em portas giratórias cadeiras de rodas não passam. Um guarda pergunta para outro guarda se ele sabe quem é que guarda a chave da porta auxiliar, é confuso assim mesmo, em alguns minutos o guardião da chave surge, mediante  tal movimento já tenho a atenção de metade da agencia.

Levi em sua cadeira "elétrica", que não passa em porta giratórias de bancos
Levi em sua cadeira “elétrica”, que não passa em porta giratórias de bancos

Ter preferência no atendimento é importante por vários motivos, no meu caso tenho horas limitadas  para ficar sentado sem prejudicar meu físico, mas neste momento estava confortável e sem pressa, poderia aguardar a minha vez tranquilamente, porem, quando me aproximo da fila do setor indicado eis que vejo um surto coletivo de consciência, a fila se desmancha e todos abrem passagem para a imponente cadeira de rodas, a atendente me dirige um sorriso amarelo e sinaliza para que  eu  me aproxime, com toda essa coerção aceitei a preferência.

Mais uma etapa de burocracias vencidas a atendente pergunta: “como você assina”?

Levi Wenceslau de Oliveira, respondi, com um sorriso mais amistoso, ela reformulou a pergunta.

Pedi sua caneta emprestada, ignorei os milhões de germes e bactérias contidos no objeto e a coloquei na boca, pedi que aproximasse da ponta da caneta os documentos postos em uma prancheta, e tranquilamente assinei as 18 páginas do contrato.

Quando acabei, levantei a cabeça, olhei em volta, e estava cercado de admiradores, um deles tocou as mãos, temi que fosse menção de aplausos. 😯  Anos atrás tudo isso seriam motivos para me manter recluso, mas hoje em nenhum momento me senti mal, talvez só um pouco aviltado.

O  vizinho do guichê de atendimento me perguntou: “é FIES?”

“Sim”.

Ele retruca: “Pois é, hoje em dia só não estuda quem não quer, né não  parceiro?”

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