Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Dez dicas de um pai (fresco) cadeirante

Por Jairo Marques

Meu povo, resolvi escrever este texto como serviço para futuros pais “malacabados” como eu e que vão viver a aventura de rodar por maternidades da vida. Embora seja uma experiência particular, penso que alguns pontos relatados aqui podem servir para todos:

1 – Mulheres grávidas podem continuar dando suas mãozinhas para maridos cadeirantes normalmente. Afora em uma gravidez de risco, ajudar a botar a cadeira no porta-malas da charanga, uma empurradinha em terrenos íngremes, ajudar a vencer meio-fio não pega naaaaada. O corpo da mulher foi preparado para carregar um menino no bucho e outro pendurado no pescoço, logo, uma cadeira é bico!

2 – As salas de ultrassonografia costumam ser pequenas e dificilmente é possível chegar até a maca onde a mamãe irá se posicionar para o exame, mas sempre há um “cantinho” para acompanhar o procedimento. Hoje, os laboratórios grandes possuem TVs que projetam as imagens enquanto o médico faz o passeio pela barriga da mulher, então, dá para acompanhar tudo de boa.

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3 – Programe-se para o “grand finale”. Deixe as ‘malaiadas’ da mulher e do bebê preparadas, tenha à mão o telefone de algum parente ou amigo que possa auxiliá-lo no momento em que a mulher estiver “nelvosa” com as dores e pedir para ir à maternidade.

4 – Geralmente, os bebês dão “sinais” vários antes de nascer (em caso de partos não programados). Observe e converse muuuito com sua mulher. Então, o lance é deixar o máximo de preparação adiantada: gasosa no carro, parentes em alerta, amigos do trabalho avisados.

5 – Visite a maternidade antes. Observe se há acessibilidade pelos caminhos que sua mulher e o seu bebê irão ser levados. Cheque se há “casinha” preparada para o xixo, pergunte se há apartamentos de internação próprios para pessoas com deficiência. A minha experiência foi na Maternidade Santa Joana, de São Paulo. Embora haja condições de acesso, o quarto tinha adaptações sofríveis. Como minha bebê ficou na UTI, também encontrei uma dificuldade básica: lavar as mãos, pois as pias eram bem altas. Reclamei e prometerem melhorar.

6 – Cadeirante entra na sala de parto, sim. Não aceitem frescuras de “higienização” como impeditivo. Converse com a equipe médica sobre o melhor lugar para que você possa ficar sem prejudicar a movimentação do galerê. Avise ao obstetra sobre a sua condição. Não tive nenhuma dificuldade de acessar também a UTI, mas é preciso ter vigilância com as mãos: tocou no aro da cadeira é preciso mandar ver no álcool para garantir a segurança do bebê internado.

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7 – Cuidado com o estacionamento do hospital. Na hora da chegada da mulher barriguda já quase dando a luz a seu pimpolho, poucos pensam que podem deixar a alma para pagar a tarifa de horas e horas para que guardem o seu carro no próprio hospital. Para pessoas com dificuldade de locomoção, deixar a charanga o mais perto possível do local é condição básica, mas, prepare-se. No meu caso, que tive de usar o estacionamento por vários dias e várias horas, quase perdi a minha dignidade. O ideal é que um familiar ou amigo deixe você na portaria e procure um lugar de parada mais em conta (embora essa dependência seja terrível).

8 – Observe bem as redondezas da maternidade. Você vai precisar se deslocar por ali em algum momento para comer, ir ao cartório “resistrar” a cria, comprar “maracujina” para a mulher etc. Eu me ferrei de verde e amarelo, pois os arredores do hospital onde ficaram minhas deusas (na Vila Mariana) tinham calçadas pobres, além de a ruas serem terrivelmente íngremes.

 

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9 – Não tirem sarro do tio com essa dica, mas ela é porreta. A mesma almofada de amamentação que a mulher usa para ajudar a dar comida pro bebê, ajuda demaaaais o “estropiado” a ajeitar o filho no colo. Ela dá sustentação ao recém-nascido ao mesmo tempo que dá conforto ao braço do cadeirante. É meio ridículo, mas ajuda, com certeza!

10 – Respire fundo porque vão achar que você não é o pai do bebê, claro. Para isso, é preciso se impor. Ainda vivemos num país que avalia pessoas com deficiência como “menos gente”, então, tome a frente da situação e procure tolerar pequenas gafes. É um momento em que a prioridade é o seu bebê e sua mulher, não a dominação do mundo!

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