Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Missão de irmão

Por Jairo Marques

A ideia do casal era bem definida e irredutível: teriam um segundo filho para que ele fosse o parceiro inseparável e incondicional do primeiro, que havia nascido descompensado da cachola e precisava de um grande amigo. O segundo seria perfeito, com alma de salvador e disposto a enfrentar o que desse e viesse, sendo o candeeiro da família para um futuro mais tranquilo.

Hoje, é possível pensar no segundo filho como elemento de reparação de um primeiro organismo que tenha nascido com alguma deficiência. Seria concebido para ser doador de um de seus órgãos, de parte de seu material genético e até de parte de sua própria vida.

Um grande amigo já me disse que entende a necessidade de um segundo filho como uma espécie de “poupança” para a velhice. Deixar a responsabilidade de cuidar dos pais nas mãos de apenas um rebento pode ser uma tarefa ingrata e exaustiva.

Em cada um desses conceitos, evidentemente, moram não apenas a racionalidade da solução de um problema que se impõe, mas também um possível compromisso de criar um ambiente repleto de bons sentimentos para o crescimento de “serumanos” solidários e a urgência de propiciar melhor qualidade na existência de um ente.

Embora tudo pareça ter um manto irretocável de justeza e humanidade, vir ao mundo com uma missão predeterminada soa como a fabricação de uma peça para girar uma engrenagem emperrada ou como ser o guardião das chaves do único caminho que leva à felicidade.

Isso quando o que está envolvido não é um perigoso anteparo para um bastião de culpas, de medos e de sensações de fracasso. É vão o pensamento de querer compensar uma história com outra porque os enredos são sempre diferentes na lida real.

Nascer para ajudar é realmente nobre, emocionante, mas é um tanto presunçoso acreditar que todos os elementos de uma vida podem ser controlados e moldados para a conquista de uma finalidade. Em essência, vir ao mundo envolve um absoluto fuzuê de possibilidades e de direções que podem ou não ser abraçadas e assumidas.

É necessário algo além da sorte e da dedicação extrema na criação para botar todas as fichas na menina “segundinha” como excelente zeladora do caçula down ou autista, por exemplo. Há um contexto de preparo emocional a ser avaliado, de vocação, de interesse.

O mesmo vale para imaginar o filho como o provedor dos pais debilitados pela idade. Dá gosto ao coração quando isso se realiza e acontece de maneira natural, embalado por consciência de gratidão, de amor e de transição lógica de gerações, mas não existem regras rígidas que determinem de maneira perfeita um caráter, um senso de responsabilidade ou mesmo formas de expressar sentimentos profundos.

Como sou o caçula, meus irmãos não foram planejados para dar suporte aos meus perrengues de ªmal-acabadoº, mas acabaram por abraçar, de certa maneira, demandas de minhas inabilidades. Eles me levavam para a escola quando podiam, passavam-me piolho quase sempre e cobravam da mãe igualdade de tratamento dentro de nossas diferenças. Meros irmãos, mera família.

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