Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Uma certa solidão

Por Jairo Marques

Não posso dizer que seja uma característica inerente às deficiências, mas percebo e vivo uma íntima relação entre não poder andar e uma certa solidão, que me acompanha desde sempre.

Por mais que tenhamos amigos, irmãos, amores, enrabichados, naturalmente, a condição que impõe a diferença física ou sensorial também irá impôr momentos de ficar sozinho.

Afemaria, tio, que deprê!”

É um pouco, sim, mas vejo e entendo essa questão como pertinente, como ponto de reflexão para famílias e para toda a sociedade que pretende incluir mais.

Quando uma pessoa é impossibilidade, por barreiras físicas ou de atitude, de fazer determinada tarefa ou de participar de determinado evento, ela está exposta totalmente a se consolar consigo mesma, a ir se isolando por conta própria.

Quando se alia a isso uma postura defensiva dos outros, mais as condições de solidão se ampliam: ‘não vou abordá-lo porque não sei se ele consegue’, ‘não vou chamá-lo porque ele não vai conseguir ir’, ‘não vou conversar com ele porque não sei como ele se comunica’.

Não quero dizer que existam culpados ao redor, mas que, sim, há uma certa complacência social com o isolamento. Joga-se na lomba das diferenças um “jeitão” estranho que justificaria não compor todas as turmas (acho que fui muito viajandão neste parágrafo, não é? 😯 )

Com as crianças “malacabadinhas”, o processo do isolamento causa impactos muito mais prejudiciais e que tem potencial de afetar toda a sua vida. Daí, toda a atenção dos pais e professores se faz necessária. É necessário criar formas diversas para integrar, sempre.

coragem

“Ahhh, Zairo, solidão é do ‘serumano’, nada a ver com deficiência.”

Penso que a relação é clara, embora pouco se reflita com atenção sobre ela. São as raras as situações e os ambientes que se apresentam totalmente acessíveis a todos. Então, uma porção de gente se recolhe naquilo que lhe dá a garantia mínima de tranquilidade, de conforto e de oportunidade.

Logo, o que protege a diferença também pode isolar, apartar, ocultar. Por se andar muito devagar, por ter dificuldades de ver, por não conseguir ouvir, em diversas situações do dia a dia, pode-se ficar sozinho… sozinho com suas próprias imperfeições.

* Imagem retirada do Google Imagens

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