Jairo Marques

Assim como você

 -

Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade

Porta-padrão

Por Folha

Eu já estava vendo estrelas naquele momento de tanta vontade de aliviar minhas represas íntimas, cujo volume estava totalmente vivo. Pudera, havia sido uma tarde de suco de melancia, cervejinha, chope preto e água para o calorão, tudo devidamente pressurizado com as chacoalhadas de uma marchinha ou outra de Carnaval.

O bar não tinha banheiro que me coubesse com a cadeira de rodas. O jeito era pegar firme na mão de nossa senhora da bicicletinha até a hora derradeira do encontro com uma casinha mais larga e que me abrigasse juntamente com minhas rodas.

Na perspectiva de quem não é cadeirante, toda porta de mictório é grande o suficiente para passar uma boiada, então, quando se descobre que o “serumano” aleijado precisa se aliviar, rapidamente o fato ganha destaque e não faltam opiniões seguras de lugares onde eu poderia fazer o meu xixi.

“Ah, ali na casa do Zezinho das Couves cabe. É ‘di certeza’. O banheiro é grande. A porta é padrão.”

Mesmo não sabendo que raios significa “porta-padrão”, não estava em posição de ficar contestando nada, embora, no meu íntimo, algo me dizia que seria roubada.

Subo na Kombi, cato a mulher, desmonto a cadeira, jogo a cadeira no porta-malas e deito o cabelo para a casa do Zezinho, repleta de foliões ávidos para botar, igual a mim, as águas para rolar.

Alguém vai na frente com uma sirene natural ligada para que eu tenha prioridade total no uso do banheiro. Era questão de dignidade para a minha fantasia de palhaço, já surrada e meio rasgada nas avenidas sem acesso desta vida.

Chego, monto a cadeira, dou mais uma respirada em busca de espaço na bexiga e voluntários vão abrindo alas para que eu adentre o mais rápido possível ao prometido paraíso de minha libertação urinária.

Não preciso me aproximar muito para já ir desmontando a esperança de fim do arrocho. A porta-padrão era estreitíssima e não havia chance de eu conseguir entrar ali. Naquele momento a torcida pelo “xixi do Jairão” já era grande e minha dignidade desaparecia em uma braguilha semiaberta.

Ninguém melhor do que o próprio cadeirante sabe onde cabe ou não cabe, que vão é capaz de passar ou não passar. Porém convencer os outros disso é custoso e até cômico.

“Empurra com mais força, que passa pela porta!”, gritava um. “Com jeitinho, vai”, berrava o outro. Desisti. Invoquei meu monge interno de enfrentamento do mundo sem acessibilidade e voltei para a charanga.

Naquele momento, umas 30 pessoas já sabiam da minha angústia mictória e cercavam o carro, no meio da rua, dando soluções mirabolantes. Eu já não tinha direito a decidir sozinho o destino da minha cerveja.

“Lá na casa do Jeter vai dar. Lá é porta-padrão. Certeza que dá, não é, Jeter?”

Jeter confirma, cabreiro, mas consulta a mulher: “Bem, lá em casa a porta do banheiro é padrão, não é?”. A mulher, por sua vez, pergunta pro filho, que joga a bola para a irmã.

Arranquei com o carro, mas, antes disso, uma boa alma joga pela janela uma porção de copos descartáveis. O alívio é por ali mesmo, descartando tudo em um buraco de esgoto. No Brasil, banheiro acessível ainda é copinho vagabundo de plástico. Ano que vem, tem mais Carnaval.

Blogs da Folha

Versão impressa

Publicidade
Publicidade
Publicidade