Jairo Marques

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Cura de lesão medular é ‘sonho mundial’, diz líder de pesquisas

Por Jairo Marques

A professora e pesquisadora brasileira Denise Tate está no comando de uma das 15 frentes de linhas de pesquisas levantadas pelos EUA em busca da melhoria da qualidade de vida das pessoas com deficiência, particularmente das que tiveram lesão medular de qualquer origem (acidentes, quedas, doenças crônicas).

Em uma conversa direta e franca com o blog, ela falou, com propriedade (uma vez que participou e participa de dezenas de pesquisas voltadas à reabilitação nas melhores universidades do mundo), a respeito de todas as especulações em torno de uma possível “cura” para paraplégicos e tetraplégicos com lesões medulares vinda de laboratórios americanos.

Lamentavelmente, nenhum estudo, até agora, parece prometer a solução perfeita, oferecendo cura da lesão medular”, afirma Denise, que dá aulas na Univesidade de Michigan.

Por outro lado, Denise fala sobre o que realmente tem sido ganho de qualidade de vida para as vítimas de lesões medulares, como a tecnologia biônica (que existe também no Brasil, na rede Lucy Montoro), na regeneração de células nervosas que possibilitam ganhos de movimentos e também sobre o uso das redes sociais como instrumento de inclusão.

Especialista em reabilitação e em fisiatria, Denise Tate também falou sobre realidade dos estudos sobre células-tronco, nos EUA, e a respeito dos riscos de ser “cobaia” em experimentos científicos pontuais, sem o resguardo de grandes instituições e de grupos certificados de cientistas.

Leia a íntegra da conversa abaixo

Blog – Muito se propaga no Brasil, que nos EUA as pessoas estão conseguindo a “cura” de suas deficiências físicas, de suas lesões medulares. O que, de fato, há hoje de avanço para a reabilitação de lesados medulares?

Denise Tate -A cura da lesão medular é o sonho não somente daqueles que sofrem este tipo de lesão, por várias causas (traumáticas como por acidentes de trânsito e queda ou não traumáticas devido a doencas crônicas como câncer), como também de muitos cientistas e profissionais de saúde em todo o mundo. Nos Estados Unidos, pesquisas sobre a reabilitação de pessoas com lesão medular estão sendo realizadas principalmente pelo Centro Nacional de Pesquisas (National Institutes of Health ou NIH) e por 14 centros que recebem financiamento do Instituto Nacional de Pesquisa em Deficiência e Reabilitação (National Institute on Disability and Rehabilitation Research ou NIDRR), além de outras organizações não governamentais.

A Universidade de Michigan, onde trabalho como professora e diretora de pesquisas, é um dos 14 centros dedicados a pesquisas clínicas sobre lesão medular. Muitas pesquisas atuais concentram-se, não necessariamente na cura, mas na proteção dos neurônios, células nervosas, para evitar ainda mais danos destas celulas após a lesão medular. Outros estudos focam na regereração dessas células e na estimulação do crescimento de neurônios ou no transplante de células-tronco, como uma tentativa de substituir os neurônios que foram destruidos ou danificados com a lesão medular.

Apesar de muitos avanços científicos nessas duas áreas, lamentavelmente nenhum estudo até agora parece prometer a solução perfeita, oferecendo a cura da lesão medular. Os melhores resultados obtidos até o momento são aqueles que combinam várias modalidades de tratamento para reabilitação dos indivíduos com lesão medular. O uso de terapias baseadas no princípio de “neuroplastia” (capacidade do cérebro de se reorganizar formando novas conexões entre as células nervosas) e exercisios fisicos poderá resultar no reestabelecimento das funções motoras responsáveis pelos movimentos , necessários para andar por exemplo.

Estas terapias, conhecidas nos Estados Unidos com terapias de reabilitacao baseadas na atividade fisica (activity based rehabilitation therapies) estão fazendo muito sucesso no processo de reabilitacao principalmente para fortalecer músculos e reestabelecer movimentos.

Recentemente, tivemos notícias de um estudo no Centro de Pesquisa de Locomoção Humana em Kentucky, nos Estados Unidos, que usou uma estimulação epidural com eletrôdos para estimular os neurônios medulares. Os resultados não proporcionaram a cura, mas aumentaram as chances de reestabelecer movimentos e andar, em pacientes em que a lesao medular era incompleta.

Blog – Volta à tona por aqui, também, a aplicação de células-tronco com ações “milagrosas”, com efeitos impressionantes e rápidos. Em que nível estas terapias se encontram por aí?

Sabe-se pouco até o momento, sobre o papel da célula-tronco como tratamento da lesão medular. Atualmente, existem muitos estudos clínicos usando essas céulas, mas a evidência de cura ainda não chegou e poderá demorar mais alguns anos.

Em 2014, um estudo usando células-tronco humanas foi iniciado, na Universidade da California, em São Diego, para o tratamento de pacientes com lesões medulares completas no nível torácico, mas os resultados ainda não foram divulgados.

Há muitos centros pelo mundo que divulgam ter a cura para a lesão medular. No entanto, na verdade, nada existe de concreto ainda nessa área, por isso, os pesquisadores sérios são cautelosos ao divulgarem seus resultados, evitando dar falsas esperanças aos pacientes e familiares.

Cabe alertar que a participação nesses estudos experimentais, além de ter custo alto, muitas vezes os participantes sofrem efeitos colaterais como infecções graves, piora da lesão com perda de sensibilidade e/ou de movimentos, sem terem direito a contestar por se tratar de um experimento para o qual ele se candidatou

Denise Tate

Blog – Outro modelo que, no passado, foi visto como “cura” e que hoje já há um entendimento melhor é a reabilitação intensiva, com grande carga de exercícios visando a musculatura que sobrou. Essas iniciativas ainda são atuais? Como equilibrar essa modalidade com a reconstrução da vida cotidiana?

Com o auxílio de equipamentos mecânicos, muito progresso está ocorrendo na área das terapias funcionais e de exercício físico. Essa área da reabilitação tem evoluido rapidamente com o avanço da tecnologia biônica.

No Brasil, já temos visto o uso de equipamento robóticos para treinamento de marcha como o Lokamat que existe no centro de reabilitação Lucy Montoro, em Sao Paulo. O Brasil está atualmente fazendo uma parceria com Estados Unidos para desenvolver pesquisas avançadas na área de lesão medular. Essa parceria envolve a USP e a Universidade de Michigan, com pretensão de envolver no futuro outros centros de reabilitação e de pesquisa.

Essas parcerias podem abranger muitas áreas de estudo e estão sendo apoiadas pela FAPESP em São Paulo e pelo Instituto Nacional de Saude (NIH) nos Estados Unidos. Entretanto, ressalto que as terapias fisicas são apenas uma parte da história de cada paciente. O mais importante e manter o equilibrio emocional, social e espiritual para podermos viver o dia a dia com mais confiança, sem estresse, mais vitalidade e felicidade.

No Brasil, principalmente, precisamos de ambientes que facilitem a acessibilidade fisica para pessoas em cadeiras de rodas como restaurantes, calcadas e transportes que possam ser usados por todos. Estas modificacoes facilitam a socializacão e participacão das pessoas com deficiência na vida cotiana em qualquer país do mundo.

Blog – A reabilitação, de modo geral, ainda está muito ligada ao “voltar a andar”, mas ela pode e vai muito além disso? O que há de novo nesse sentido na ciência?

O uso da tecnologia para facilitar a independência pessoal e o acesso ao ambiente, a tecnologia de comunicação por meio de computadores, celulares, redes sociais (facebook, twitter). Nessa direção, o mundo virtual em geral, está começando a ser integrado a reabilitacao como novas formas de terapia e intervenções para a auto-gestão (self-management), buscando a autonomia e a participação.

A equipe de reabilitação deve incluir especialmente a familia e o paciente, que decidirão o percurso do tratamento e as prioridades individuais. Essa abordagem, centralizada no paciente (patient centered rehabilitation) e no seu papel nas decisões sobre sua reabilitação, é fundamental para o sucesso de qualquer programa de reabilitação e está sendo utilizada pela maioria dos centros de reabilitação dos Estados Unidos.

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