Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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O poder do improvável

Por Folha

Ninguém precisa nem deve pirar nas possibilidades daquilo que é improvável de acontecer, mas o problema é que raramente as pessoas se dão uma chance de pensar que o ceticismo, a confiança extrema e a falta de informação adequada podem perder o jogo para a fatalidade, para o erro ou, se preferir, para o acaso.

Schumacher foi o maior campeão da F-1 de todos os tempos. Dominou a velocidade como ninguém, viu o vento bater no rosto como poucos, passou raspando do abraço da morte em diversas situações. Está hoje, segundo as poucas informações que existem, imóvel.

Ser o mais rápido do mundo não deu ao alemão imunidade às consequências de carreiras na neve, onde ele se acidentou com gravidade. No intervalo de uma vaidade, de uma segurança excessiva, pode operar aquilo que jamais se espera.

Como alguém capaz de domar um carro a 300 km/h até em pistas molhadas pode ter espatifado o corpo pilotando um par de esquis? Foi vítima de uma tragédia indominável pela expertise humana. À espreita de ações radicais, extremas ou displicentes, mora o risco de algo sair errado.

Um olhar mais atento ao redor, uma lida rápida nas instruções, uma freadinha, uma consulta na consciência ou uma desistência para se preparar melhor, mesmo que seja na última hora, podem diminuir o poder dos desarranjos da vida.

Parece óbvio, mas os lamentos pelo ªe seº são cada vez mais constantes, sobretudo porque o ritmo do viver é sempre mais veloz e impõe limites para tomadas de atitudes racionais e menos entusiasmadas.

Um amigo que quebrou as partes todas em um mergulho em água rasa de um rio me revelou nesses dias que, pouco antes do acidente que o deixou tetraplégico, tinha feito um mapa astral. Lá estava escrito que a vida dele teria uma ªmudança radical, em breveº.

Não sou desses que botam as economias nas indicações dos astros nem mudaria uma letra do meu nome ainda que a numerologia o recomendasse, mas o sopro para o incremento da vigilância, mesmo que tão genérica, cantado ao meu amigo muito me intriga, assim como todas as histórias que possuem esses elementos abstratos e meio ªviajandõesº.

Ele reconhece que, quando saltou para o seu acidente, em nada matutou. Só pensou em se jogar gostoso na água refrescante. Nem mesmo observou o nível do rio, claramente mais baixo que o habitual. Tampouco se deu conta de que estava pulando de uma altura perigosa ou de que ninguém estava se banhando ali naquele momento.

Flerta-se com o força do improvável com mais frequência na juventude, quando é maior a ilusão de dominar completamente os elementos ao redor. A vulnerabilidade de estar vivo, no entanto, apresenta-se para qualquer um que não se alerte diante do estresse, da euforia, da displicência e até da procrastinação.

Oxalá esteja certa aquela canção ªchicleteº dos Titãs: ªO acaso vai me proteger enquanto eu estiver distraídoº, mas não custa estar um pouco mais atento à leitura dos sinais, alguns objetivos e reluzentes, outros mais tímidos e descomprometidos, que invariavelmente rondam os infortúnios.

Respeito os que chamam isso de coincidência, mas prefiro pensar em angústia dos anjos.

 

 

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