Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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A morte do gênio da reabilitação

Por Jairo Marques

Minha primeira consulta no hospital Sarah de reabilitação, cravado no centro do Brasil, em Brasília-DF, foi no final dos anos 80, mas a memória dos fatos de chegar ali me são presentes como se os acontecidos tivessem sido na semana passada.

Além do impacto que um matuto do interior como eu teria normalmente com um ambiente tão atencioso, preocupado com o bom atendimento e rigorosamente limpo e organizado, senti o choque da boa acolhida.

Logo em meu primeiro encontro com aquele universo de consertar gente quebrada, conheci o doutor “Campos da Paz”, que morreu ontem, aos 80 anos. Ele dirigia a instituição desde 1960 de uma maneira exemplar para o país e para as pessoas.

Todas as vezes que um caso fora da curva surgia, com alguma complexidade nova, com um grau de comprometimento muito severo do paciente, logo o doutor Campos aparecia na sala de atendimento para olhar, analisar e ajudar em diagnósticos e procedimentos.

Eu era menino, mas entendia que aquele médico guardava algo de genial e de admirável. Estava em todos os lugares do hospital, em todos os dias, nas mais diversas situações.

Doutor Aloysio Campos da Frente diante do Sarah, em Brasília - Crédio: Sergio Lima/Folhapress
Doutor Aloysio Campos da Frente diante do Sarah, em Brasília – Crédio: Sergio Lima/Folhapress

Em um dos raios-x que fiz na coluna, um ponto de desafio surgiu a meu médico, na ocasião. Para decifrar o que fazer, toca chamar o doutor Campos, que chegou e falou com segurança sobre qual procedimento adotar.

O doutor Campos foi um dos primeiros médicos no Brasil a começar a incutir na cabeça do povão “malacabado” a necessidade de construir novas realidades a partir do potencial do novo corpo lesionado, abatido da guerra da vida, de doenças ou do que fosse.

Aprendei com esse médico que deficiência não tem mimimi e não bloqueia a vida das pessoas, mas, sim, exige uma maneira nova de relacionar com o corpo e com os seus potenciais.

O modelo Sarah, tão ferozmente defendido e propagado por doutor Campos da Paz, transformou e realinhou vidas de milhões de pessoas, muitas vezes sem esperanças de dias melhores.

Gênios não podem ser apenas reconhecidos por suas contribuições científicas, seus dotes de conhecimento acima da média, por suas descobertas. Gênios podem e devem ser reconhecidos naqueles que alteraram positivamente a realidade do “serumano”.

Campos da Paz foi e nos deixa como um gênio da reabilitação.

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