Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Coisas que você não quer saber

Por Folha

A provocação estava logo nas páginas iniciais do livro, que abordava atos de violência cometidos por crianças e adolescentes: “Nesta obra, há vários casos que você, normalmente, não vai querer saber”.

O soco me pegou de jeito. Incomodou meus pensamentos até o momento em que decidi perturbar outras pessoas, os leitores.

Mais do que fritar meu estômago construindo situações horripilantes de abandono, degolas e aviõezinhos do tráfico, pirei na ideia de imaginar quem são as pessoas que conseguem sobrepor as amarras do “não é problema meu” e enfrentar realidades azedas, vidas dilaceradas e crianças azucrinadas pelo vício. Ou seja, pirei naqueles que querem saber.

E, cada vez mais, quer se saber menos. O idiota que abre o vidro do carro e joga na rua o plástico da gosma verde que comia não está nem aí para a Voz do Brasil e bota para tocar seu MP3 do “como é lindo o meu umbigo” quando percebe pelo retrovisor que o seu lixo estaciona na sarjeta de uma escola. Quem irá recolher? Quem irá limpar o grude da rua? Quem irá sofrer com a enchente? Não quero nem saber.

Não se quer saber o que a prefeitura fará com os “craqueiros” resultados da milésima desinfecção do centro de São Paulo. Basta saber que a ciclovia vai ficar livre. Não se quer saber o que haverá para comer no Natal no abrigo dos idosos, parte se contenta com a ideia de haver um lugar para depositar a velhice.

A gente não quer saber se um cadeirante irá demorar duas horas a mais que um trabalhador comum, na hora do rush, para conseguir entrar no lotação e chegar em casa. É problema dele. Muito menos quer saber quantas pulgas tem o vira-lata jogado na rua pelo vizinho. Quer saber, sim, se ele dará um sabão de boa qualidade.

Nessa lista cabem exemplos de chorar lágrimas para encher o Cantareira, mas o formidável é que há quem queira saber. Há quem se dedique a apanhar papel voando na ventania, quem se faça de Papai Noel para o menino internado no HC, quem se empenhe em reconstruir vidas despedaçadas, a fazer uma nova e criteriosa busca de infâncias perdidas.

Não é todo mundo que nasce ou precisa nascer com uma célula de irmã Dulce e vai sair de casa para dar panetone para presidiários, vai oferecer peru para haitiano refugiado em paróquia da periferia. O problema é que há demandas complexas, pesadas e insanas em demasia e almas caridosas em falta.

Por essa razão, é, sim, um alento e são, sim, vibrantes as gigantescas correntes solidárias que se formam durante o período de festas e que muitos veem como oportunismo, como uma tentativa de limpar a consciência de quem fez questão de botar os olhos para correr das feiuras humanas ao longo dos meses.

Boas ações natalinas ajudam a refrescar e desafogar um bocadinho a labuta dos que querem saber o ano todo. Dos que são Páscoa, Dia da Criança, Carnaval, Dia da Amizade e aniversário.

Fazer uma vez no ano é melhor do que não fazer nunca e é oportunidade para reconhecer que, de tanto não querer saber, um dia pode-se também entrar para o clube dos relegados.

jairo.marques@grupofolha.com.br

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