Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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O peão que virou (cadeirante) tatuador

Por Jairo Marques

Ander durante um de seus trabalhos
Ander durante um de seus trabalhos

Às vezes, o coice de um cavalo, de um touro é forte o suficiente para mandar a vida de um peão para dimensões bem mais duras que o chão. Ele é capaz de provocar uma reviravolta, à força, em toda a realidade de uma vida.

A espetacular história de Anderson Luis Dias, 31, o Ander Tatoo, vai nesse caminho, um bocadinho mais cheio de pedregulhos…. Emoticon.

Multidões de pessoas com deficiência no Brasil ainda, lamentavelmente, perdem tempo demais chorando as perdas e problematizando como irão retomar suas histórias partidas por acidentes, doenças ou outras desgraceiras. Ainda não se é encorajado ou incentivado a contento para repensar os rumos, planejar de novo uma jornada.

Não há culpados para esse processo viciante, evidentemente. Ele é fruto de elementos diversos criados dentro da sociedade como cultura assistencialista, como falta de preparo estrutural e de comportamento das entidades públicas e privadas e até mesmo por uma entrega ininterrupta de tentar resgatar a condição de “normalidade”.

Ander exibe uma de suas tattoos, no antebraço direito
Ander exibe uma de suas tattoos, no antebraço direito

Mas, com Ander, tanto a força da necessidade como a força interna o levaram a recriar horizontes e possibilidades em um terreno completamente diferente das arenas de rodeios.

 “Eu era competidor de rodeios em touros. Já era profissional, em 2003, com apenas 20 anos, montei o quase o ano todo e não quebrei nada. Em nove de novembro, fui a um sitio treinar com uns amigos e sofri o acidente que mudaria minha vida.

Foi uma queda muito feia. Desloquei a coluna e não consegui correr. O touro, que estava ainda dentro da arena, me pegou no chão me deu mais umas cabeçadas. Em meio a isso, me pisou na lombar.

Fui levado às pressas para um hospital e descobriram minha lesão na vértebra L2. Fiquei paraplégico. Não poderia mais andar. Durante semanas, fiquei completamente dependente para tudo: tomar banho, me trocar. Mas não tive revolta. Resolvi encarar e aceitar a minha nova vida.”

Mas, levar um capote, em algumas ocasiões, vem acompanhado de desdobramentos que só fazem ampliar os desafios. Para os de “fé”, é uma provação elaborada pelo destino, para os que creem em energias, é um descompensado profundo do equilíbrio, para os céticos, é momento de chorar pelado no asfalto quente… 😎

“Um mês após o acidente, minha namorada me abandonou. Em seis meses, eu não tinha mais os antigos amigos de rodeio. Só sobraram meus irmãos, minha mãe e meu pai, que acabou sofrendo um AVC e também ficou em uma cadeira de rodas, sem falar, sem enxergar e sem nos reconhecer. Contamos com a ajuda de muitas pessoas voluntárias novas que iam surgindo e fui aguentando toda aquela mudança”.

Após o acidente, uma série de mudanças tomaram conta da vida do ex-~peão
Após o acidente, uma série de mudanças tomaram conta da vida do ex-~peão

Geralmente, a mudança ocasionada por um trauma físico vai acarretar em diversas outras transformações seja nas questões práticas seja em relacionamentos, organização e projetos de vida.

Por essa razão, uma boa reabilitação envolve bem mais do que realocar a força física ou reaprender a lidar com um novo corpo, envolve um reequilíbrio emocional, uma reorientação de objetivos e uma readequação da mente para aguentar o tranco das mudanãs intensas.

Ander teve de buscar dentro de si talentos que nem sabia que possuía, teve de visualizar uma trajetória que seria completamente diferente de tudo o que havia experimentado. De certa maneira, esses desafios são empolgantes, mas, ao mesmo tempo, trazem angústia, medo…

“Comecei a me tratar na AACD e fui aprendendo a ser feliz em minha nova condição, na cadeira de rodas. Novos amigos foram surgindo com novos valores. Eles gostavam mesmo daquilo que eu era, não do que eu tinha.

Redescobri minha sexualidade, conheci novas garotas, grandes parceiras. Sempre com algo a me ensinar. Certo dia, comentei com um amigo, o Luis Gustavo (mais conhecido como Vitamina), que gostaria de fazer uma tatuagem. Ele, então me sugeriu para fazer um curso sobre a técnica.

Procurei um estúdio e, novamente, a realidade bateu à porta. Eu ganhava apenas um salário mínimo de aposentadoria e não teria condições de arcar com os custos. E os novos amigos foram fundamentais nesse momento.

O Vitamina pagou o meu curso do próprio bolso e disse que eu poderia usar um espaço que ele tinha para montar o meu estúdio. E mais, como eu moro em Divinolândia (a cerca de 260 Km de São Paulo), não tinha condições de arcar as viagens até a capital paulista. Outro amigo, o Éderson Jorge (o Cueca), me deu R$ 2.000 para as despesas. Disse para eu pagar quando pudesse.”

Como os equipamentos são portáteis, Ander não precisa de grandes adaptações para trabalhar
Como os equipamentos são portáteis, Ander não precisa de grandes adaptações para trabalhar

É aquele barato de “o universo conspirar”, né, meu povo? Do nada, tudo começa a se encaixar para que um novo caminho seja armado.. Muito legal de construir esse pensamento na cabeça. Claro, nem sempre a vida é assim, mas quando é, é bom demais.

“Fiz o curso, paguei as ajudas dadas por meus amigos, passei vários perrengues, mas consegui levantar a ‘Ander Tatoo e Piercing’, que já completou oito anos. Nesse tempo, venho conquistando espaço e lutando para manter o negócio e a vida. Já sofri mais dois acidentes depois do primeiro (adendo do tio, afemaria! ) primeiro, voei para fora de um carro e fraturei o fêmur, no segundo, capotei da cadeira e quebrei a perna esquerda.

 Tenho dores neuropáticas há onze anos, mas aprendi a conviver com elas. Consegui, além do meu estúdio, comprar um carro e tenho descoberto, dia após dia, a ser uma pessoa melhor, mais feliz, que sabe aproveitar os momentos.”

Tá, tudo beleza, a vida é linda e azeitona tem caroço, mas ser um tatuador cadeirante num causa certa estranheza nas pessoas? Num rola uma resistência dos clientes?

A ajuda dos amigos foi fundamental para Ander conseguir reconstruir sua vida
A ajuda dos amigos foi fundamental para Ander conseguir reconstruir sua vida

“Já aconteceu, uma vez, de uma mulher, ao chegar no estudio e ter visto que eu era o tatuador desistiu e foi enbora. Não liguei porque ela perdeu. Não por não ter feito a tattoo mais por ganhar um amigo deficiente, de aprender algo sobre diversidade.

Não uso nenhuma adaptação especial atualmente porque os equipamentos são portáteis, automáticos. Já fiz tattoo em muitas pessoas com deficiência. Acho bacana, fico feliz!

Uma das tatuagens que fiz e me marcou foi em uma senhora de 70 anos que, desde menina, tinha vontade de ter tattoo e, por ser algo mal visto antigamente ela nunca teve coragem. Quando ela ficou viuva, tomou coragem e procurou o estúdio. Fiz nela um beija-flor; Isso muito me marcou.”

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