Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Criança lá em casa

Por Folha

No próximo domingo, Dia da Criança, terei menino ou menina meus lá em casa. É, a mulher engravidou e somos pura dúvida, puro mimimi e pura graça de pais frescos já há algumas semanas.

Dá calafrios imaginar que, em um futuro breve, o bagageiro da Kombi terá de comportar a cadeira de rodas do papai e o carrinho do bebê, e que, em dias de garoa, a mamãe vai enlouquecer na árdua missão de dividir a proteção de um guarda-chuva para três.

O berço não poderá ser desses convencionais, pois, sentado, retirar o cagãozinho e levá-lo para o alívio do lencinho suave e da pomada perfumada ficará difícil para mim. Ainda estudamos a ergonomia da banheira e do trocador.

Já está decidido que compraremos um daqueles cangurus que os modernos usam para fazer caminhadas enquanto ninam seus rebentos. Para nós, será uma forma tranquila para mamãe empurrar suas conquistas de sentimentos, com o papai guardando o pequeno no peito.

Meu maior projeto paterno será tentar ensinar meu filho a mergulhar nas possibilidades da diversidade humana. Vamos jogar bola ou brincar de casinha à nossa maneira, mas gritaremos gol ou cantaremos “borboletinha” a cada momento em que recebermos o abraço de um velho, do primo pretinho e dos amigos lelés, cor-de-rosa e diferentões, que, em nosso mundo, sempre serão bem-vindos.

Mamãe e eu não pretendemos que nosso bebê cresça com ideias fixas de ser médico de cabeça, empresário de sucesso, atleta milionário ou celebridade. O que nos importa é que ele tenha a chance de conhecer várias possibilidades de viver bem, de trabalhar pelo bem, de cantar músicas boas em tardes cinzentas e de oferecer sorrisos e apoio a quem necessitar.

É inebriante a perspectiva de quem nunca andou ensinar a dar os primeiros passinhos, de quem nunca correu incentivar a respirar fundo, de quem nunca foi o rei do baile embalar para sacudir o corpo até as pernas não mais aguentarem, mas quero estar pronto também para meditar com um carinha zen, com uma garota alternativa.

Desejamos que nosso feito de amor mais sublime possa degustar manga lambrecando as mãos, que dê risadas rasgadas com bolha de sabão e que seja o líder da turma do “deixa disso” quando surgir qualquer manifestação de guerra, a não ser que ela seja de beijos no vovô ou de papel crepom, daquelas que todos ganham com a diversão.

É claro que um pai mal-acabado como eu fica torcendo para que a cria não herde o seu nariz grande e que venha dos céus inteiramente revisada, mas sinto, junto com a mamãe, a sensação de entender a chance de vir ao mundo como uma dádiva. Poderá tanto ser feliz ao ver o brilho das luzes da torre Eiffel como uma lua nova pela fresta da janela.

Venha para nos ajudar a sermos melhores, meu filho. Venha para nos ensinar mais sobre doação e gratidão. Venha para nos roubar o sono e para nos brindar com sonhos de um verão com castelos de areia e de edredom como cabaninha no inverno.

Nenhum pensamento de dificuldade ou medo nos interessa agora, porque você ainda é um pedacinho de gente que merece apenas água boa, luz e carinho para vir ao mundo berrando e dançando “Macarena”, do jeito que a mamãe gosta, ou mais quietinho, com a mãozinha no queixo, para o orgulho do papai. O que nos importa é te amar.

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