Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Carta ao candidato

Por Folha

Resolvi escrever porque já se está a um beiço de uma pulga das eleições e, por mais que eu assista aos debates, acompanhe o show de horrores do horário eleitoral na TV, leia as notícias, sinto que não o conheço a ponto de confiar meu voto ou mesmo o meu cachorro na coleira.

Não consigo entender, seu candidato e sua candidata, como é possível você cacarejar ser contra os direitos civis sendo que, por todo lado que se olhe, nota-se claramente que o mundo é “das gay”, “das sapatão”, das vadias e das novas famílias.

Não consigo entender como você consegue tirar tantas “selfies” pela rua, tocar tambor animadamente, segurar criancinha borrada no colo, de uma forma tão fofinha, se em seus discursos não se escuta nada sobre infância, sobre direitos humanos, sobre construção de amor entre as pessoas, sobre projetos para incentivar a paz, o bem e os coraçõezinhos.

O senhor gritou sentido e pensou nos pequenos quando ouviu a gravação do Bernardo clamando socorro? O senhor vestiu uma camiseta com a inscrição “não é só pelos 20 centavos” e vai dar dignidade aos transportes públicos?

O senhor cumpriu o desafio do balde de gelo e sabe que doenças raras são relegadas à própria sorte no país? O senhor tem um gato vira-lata adotado e saca que bicho, hoje, é família? O senhor sabe por onde está o garoto amarrado ao poste e tem ojeriza, como eu, quando se avalia que solução para a criminalidade é prender meninos?

Prego os olhos em suas palavras e da sua boca só saem números obtusos, defesas a respeito de acusações de bandidagem sua ou de sua gangue, promessas de um país tão bom como é Minas Gerais –que é tão longe e diferente daqui do Amapá–, uma falação sobre rompimento com a “velha maneira”, numa demonstração de que a história, para você, tanto faz como tanto fez.

Queria vibrar ao ouvir você falando sobre os velhos, seu candidato. Mas não aquela papagaiada de sempre assistencialista e caridosa. Os velhos estão no “Face”, seu candidato, querem trabalhar, querem proteção básica, respeito, lazer, mas sem esse nhe-nhe-nhem besta de que você vai “cuidar deles com carinho”.

O senhor é muito ocupado, seu candidato, e não deve saber, mas existem milhões de eleitores no país que não podem andar, ver, ouvir ou tudo isso junto. Há, por aqui, seu candidato, “serumanos” tchubes das ideias, mas que são cidadãos.

Não ouço o senhor falar em inclusão fora das fronteiras médicas e hospitalares. Esse povo não é doente, seu candidato. Esse povo quer acesso, quer estar junto, quer poder chegar a Brasília e estender uma faixa de protesto, como um grupo social qualquer: “Vou pela rua porque aqui no Brasil as calçadas não prestam, presidente”.

Para ter o meu voto, você vai precisar ser menos “coxinha” –me mandando buscar respostas em seu plano de governo– e mais atento às demandas do mundo de hoje. Precisa ter uma inteligência que me cative as emoções e me satisfaça a razão.

Queria ter vontade de recebê-lo em minha casa para discutir diplomacia e o prazer de acompanhá-lo na cracolândia –sem seus cupinchas para falar com os “noias” sobre futuro.

Aguardo sua resposta, por e-mail, comentário no blog ou scrap nas redes sociais. Abraço.

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