Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Cotoveladas na cara

Por Folha

“Bateu de frente, é só tiro, porrada e bomba.” A cada vez que se concretiza pelo mundo a ameaça da filósofa do funk, Valeska Popozuda, multidões passam a compor a estatística dos incompletos, dos semivivos, dos fora da caixinha.

A violência, seja ela urbana ou militarizada, gera deficiências com velocidade que insulta e desanima os melhores e mais equipados centros de consertar ou remendar gente de todo o planeta. Mesmo assim, segue-se brigando, atirando, soltando mísseis e tramando novas maneiras de destruir um pouco mais a máquina humana.

Após a explosão de uma bomba sobre uma escola, o número que publicamente se conhece e se difunde é o de mortos. Ficam para trás os que perderam a visão com a fumaça, com estilhaços e com a poeira levantada. Ficam para as famílias os que deixaram partes do corpo embaixo dos escombros. Ficam para a sociedade os reflexos de cidadãos surdos em decorrência dos estrondos gerados.

Balas perdidas e tiros pelas costas destroçam medulas e encaminham para cadeiras de rodas, quando não para o túmulo, com a facilidade que jamais os alvos atingidos voltarão a encontrar para construir felicidade.

Há também as deficiências produzidas pelas cotoveladas na cara, por golpes de lutas marciais e vale-tudo aplicados por machões descompensados. Essas deixam permanentemente mal-acabadas as emoções, a segurança de tocar o dia a dia e a autoestima.

Os gabinetes e os covis, onde, sempre com a justificativa de alcançar um “bem maior”, se decidem o início ou a continuidade de uma guerra devem ser protegidos dos ruídos da dor e do desespero de realidades partidas.

As conquistas e as derrotas avançam, passam, mas as histórias de cada pessoa fica para sempre amputada, cega, despedaçada, abalada. Para sempre se reviverá um drama e se regurgitará uma angústia.

O assustador é que, nem mesmo quando os exemplos dos produtos saídos das fábricas de deficiência são meninos e meninas que mal tiveram a chance de desfrutar de sabores fundamentais de existir —como a liberdade e o coração em desarranjo de amor—, se consegue mobilizar a contento contra a violência, contra a guerra.

Angustiante pensar que nenhuma exposição de horror foi ainda capaz de parar a produção de deficiências pela violência: não importam a mulher quase morta pela cotovelada do irritadinho, os que perderam braços e pernas por explosivos em Gaza, a cabeça rompida do corpo no deserto, a rosa que dilacerou entranhas em Hiroshima.

Tudo parece tão distante das “timelines” engraçadas geradas pelas redes sociais, do animado almoço de família aos domingos, das férias divertidas em Bariloche, que já alivia soltar um “que barbaridade” quando se escuta o estampido de um fuzil descompassando uma vida.

Quanto menos houver empenho profundo e compromisso incansável para a semeadura de uma cultura de paz, em todos os terrenos, quanto menos se cobrarem firmemente de líderes ações antibélicas e antiviolência, mais os produtos da fábrica de deficiência e as cotoveladas na cara vão ganhar proximidade, interrompendo destinos imaginados tranquilos e promissores.

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