Jairo Marques

Assim como você

 -

Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade

“Sou mãe de um cadeirantinho estrela”

Por Jairo Marques

Não existe um modelo, uma forma ideal para educar uma criança com deficiência. As realidades das famílias são diferentes, as necessidades impostas pela “malacabação” são diferentes.

O que eu acredito, porém, é na filosofia de encorajar os filhos para enfrentar seus desafios e estimulá-los, sempre, a evoluir. Em graus distintos, isso é possível para todos e é definitivo, em modo de ver, para o futuro.

Conhece Adriana Dutra há seis anos e sempre fui admirador da maneira com que ela conduz os caminhos do João Lucas, seu pequeno, que estreou nesse blog um tiquinho de gente e agora é um garotão.

João teve comprometidos graves desde quando bebê. Ficou “cadeirantinho”, com desafios de jornada árduos, mas traça, desde novinho, uma trajetória de sucesso. É esportista, ator, modelo e “tudibão”.

E foi para falar dessa transformação, de “patinho feio” à estrela, que convidei a Dri para falar aqui, às vésperas do Dia das Mães.

Vocês vão gostar! Um ótimo final de semana a toooodas as mães!

 ♥

Sejamos sinceros, tudo que uma mulher gravida deseja é que o seu bebê nasça perfeito e saudável, mas e quando isso não acontece? Garanto o mundo desaba em sua cabeça, medo de perder o “seu pedacinho”, medo do que será da vida agora, medo do que ele terá que passar, medo….., medo….., medo……

 Só incertezas, se é forte o suficiente para cuidar, para proteger, para encarar essa nova vida. Não sei ao certo de onde vem essa força, mas garanto: nessa hora somos capazes de tudo, de qualquer coisa para ter a chance de ter uma vida ao lado do nosso “filhotinho”.

 Comigo não foi diferente, preferi encarar cada dia como uma nova oportunidade de dar o meu melhor por ele, amamentando e dando todo o meu amor. Quanto ao resto, deixei nas mãos dos médicos e acima de tudo de Deus.

driejoao1

 

O João Lucas, na UTI, já se destacava: um bebê de 50 cm, três quilos e meio. Perto de vários prematuros, era um “gigante” que chorava alto. Mas ali todos tinham suas semelhanças lutando pela vida, cada um com a sua peculiaridade, mas todos valentes guerreiros.

 Não tem como dizer o que é viver isso, só uma “mãe de UTI” tem dimensão do que se passa dentro de nós. Com 40 dias, ele foi para o centro de reabilitação. Era o único bebê, no meio de adultos. Naquela época, a lesão medular só era atendida na fisioterapia dos maiores, ou seja, novamente virou o centro das atenções.

 Foi para a escola com dois anos, era o único cadeirante, mudou de escola, novamente o único cadeirante. Tenho a impressão que a vida de uma pessoa com deficiência no Brasil é praticamente de um desbravador, se não é o primeiro é um dos, se não é o único tem mais um ou dois, vive cercado de curiosidade, ignorância e preconceito.

driejoao2

 Lugares despreparados para receber tanto na estrutura física como no preparo de pessoal, dificultando, e muito, a vida de todos. O João Lucas sempre foi uma criança com a autoestima muito elevada, encara a vida com alegria e coragem. Com isso, ele garantiu o seu espaço e eu dei a ele o direito de viver plenamente.

 Tento ao máximo que o João seja tratado como uma criança com direitos e deveres iguais a qualquer outra. Sei que ele precisa provar em dobro a sua capacidade, porque ele chega aos lugares com o paradigma de que todas as pessoas com dificuldade de locomoção tem comprometimento intelectual, não sei explicar a razão de pensarem assim, mas garanto que isso dificulta muito a aceitação da criança em todos os contextos.

Como ele sempre gostou de esporte, tento proporcionar o contato com o maior número de modalidades possível, com isso ele já teve a oportunidade de experimentar esportes como o Kart e o mergulho, que ainda são bem pouco conhecido por esse público. São poucos os locais que oferecem e falta investimento público para facilitar o acesso da pessoa com deficiência, de uma maneira geral, a todas as modalidades.

Escuto muitas pessoas que falam, você pode, basta querer e lutar pelos os seus objetivos você conquista, mas, no Brasil, as coisas não são bem assim, a dificuldade de se praticar uma modalidade esportiva é fato, vejo que muitas pessoas com deficiência não praticam, não é por falta de coragem e determinação, mas sim por absoluta falta de opção.

  driejoao3

As pessoas muitas vezes falam: como o João Lucas foi parar na novela? Ele lutou pela vaga como qualquer outra criança que participou. Ele se inscreveu da mesma forma, foi passando nos testes até conseguir conquistar a vaga.

Eu, como mãe, acreditei que seria uma oportunidade de mostrar que todas as crianças são iguais e podem ter interesse em todas as áreas, achava que o João estando ali, abriria as portas para outras crianças com deficiência realizarem os seus sonhos de serem artistas, modelos, terem oportunidade nessa área onde o estereotipo é tão forte.

Infelizmente, percebi que esse foi apenas um passo de formiguinha e ainda há muito o que se conquistar, mas o importante é não desistir. Estamos começando ainda, com o tempo, conquistaremos um espaço total lá dentro.

*Imagens de arquivo pessoal

Blogs da Folha

Versão impressa

Publicidade
Publicidade
Publicidade