Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Verdades alheias

Por Folha

É quase incontrolável no “serumano” querer cuidar da vida alheia e, consequentemente, avaliar que sabe o que é melhor para os outros e até tentar tomar atitudes com o talão de cheques que não lhe pertence.

Escrevo sobre algo diferente e mais significativo do que aconselhar, orientar. Escrevo sobre tomar para si uma verdade que você não construiu, que você não conhece profundamente e que você assume com valores próprios, não com conhecimento de causa ou com legítima propriedade.

O problema maior de construir verdades sobre os outros é a injustiça e o confinamento de ideias em torno de algo que, olhando mais perto, são avaliações errôneas, distorcidas. Isso afeta a abertura de oportunidades de crescimento, a vaga para o time titular e a igualdade de uma maneira geral.

Uma pessoa cega, por exemplo, pode ter muita autonomia, ao contrário do que se pode pensar e julgar apressadamente. Não ver não impede de casar, ter filhos, viajar, subir escadas e soltar pipa em tardes de ventania.

É comum, porém, que pessoas com deficiência tenham de se explicar cotidianamente para os outros sobre suas condições, decisões e possibilidades. “Não, o bebê não é do vizinho. Fui eu quem fiz”, diz o cadeirante com o filho no colo. “Não ouço, mas compreendo a letra da música, sim”, conta o surdo na balada.

Age-se —ou deixa-se de agir— na realidade dos outros pela pretensão de supor que seus valores e seus conhecimentos são os certos e são os únicos. Pouco se exercita tentar entender que não há apenas uma maneira de vencer uma mesma montanha.

Uma das figuras mais fantásticas que conheço se chama Leandro Kdeira, sendo a segunda parte de seu nome uma alusão a sua condição de vaguear em uma cadeira de rodas motorizada.

Ele deixou de andar do dia para a noite, aos 14 anos —hoje tem 31—, em virtude de uma doença dessas que, a cada dia, leva de seus “escolhidos” um bocadinho dos movimentos, da capacidade de dançar o “Lepo Lepo” em sua coreografia original.

Ao olhar Leandro por fora, sem visitar sua alma e suas inquietudes, verdades sobre sua condição brotam aos borbotões: imóvel, coitado, triste, “deprê”, dependente. Permitindo que ele mesmo conte suas verdades ou com um pouco mais de apuro ao sorrisão do meu amigo “mal-acabado”, uma nova realidade se apresenta.

Leandro, como ele mesmo diz, “pegando emprestado um pouco da energia dos outros”, quebra todos os “nãos” e vulnerabilidades que o rodeiam e apresenta possibilidades e capacidades diversas de fazer por si mesmo.

É um exercício desafiador ter um pouco mais de cuidado para evitar rotular os outros por meio de impressões que são suas apenas. Mas essa atividade é divisora de águas na vida de quem possui alguma limitação física, sensorial ou intelectual.

A natureza, a inteligência e a necessidade são craques em criar possibilidades que subvertem a lógica. Antes de soltar aterradores “ele não pode”, “ela não consegue”, “ele é um sofredor”, “deixa que eu faço para você”, seria interessante somar mais informação e mais pluralidade a suas verdades.

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