Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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O mendigo

Por Folha

Todos os dias, quando venho para o trabalho, troco olhares, impressões e bom-dia sem palavras com ele. Usa paletó puído, chapéu dos arredores do Panamá e muletas encardidas. Não tem uma das pernas, a esquerda, e pede esmolas a todos os que estão em seus automóveis parados no semáforo, menos para mim.

Não imagino que ele me ache sovina. Ele vê no para-brisa da minha “Kombi” o selo que indica que sou de seu time, o dos quebrados, e deve achar meio antiético tirar de mim moedinhas ou balas de hortelã.

Talvez possa parecer exagero poético meu, mas penso ser tênue o limite entre os deficientes limpinhos e os que estão na rua pedindo. O abandono familiar por alegada falta de condições de cuidar “daquilo” e a exclusão social para tudo formam uma mistura tão poderosa que apenas a rua é capaz de abrigar.

Certa vez, um mendigo cadeirante que arrecadava seu café, pão velho e cigarros pelas ruas do centrão de São Paulo me fez passar um apuro emocional desconcertante.

“Eu conheço você. É aquele jornalista, não é? Já li muito texto seu. Tem umas mensagens boas e umas graças engraçadas, viu? Como vai a vida?”

Fiquei meio trêmulo, condoído e me senti na obrigação de tentar fazer algo útil pelo meu leitor de rua. Palavras breves durante o sinal fechado decerto não saciariam sua possível fome ou seus vícios nem dariam um rumo novo àquela situação.

“Cara, por que pedir? Hoje em dia tem tanta bolsa miséria, tem abrigo da prefeitura, têm cotas para arrumar um trabalho…”

Ele sorriu com dentes falhos e feios. Meio entre a vergonha e a galhofa, ele me respondeu: “É complicado, é complicado”.

Só tive tempo de dar a ele um cartão —será que fui protocolar ou arrogante?— e pedir com ênfase “me liga!”. Nunca ligou, nunca mais vi e não sei se continua gostando dos meus rabiscos.

Reluto em colocar qualquer etiqueta que me exiba como especial, como exemplo, como puro creme do milho, mas reconheço que não é fácil, concomitantemente, buscar um espaço de cidadão e abrir espaço para a cadeira de rodas, o cão-guia, a bengala ou qualquer outro apetrecho de acessibilidade e inclusão.

Talvez seja por isso que o tiozinho do paletó e das muletas encardidas só me faça um aceno com a cabeça e, em seguida, um sinal de “firmeza” com o dedo polegar. Ele entende como poucos o lugar-comum: “Não tá fácil para ninguém”.

Embora existam milhares de charlatães que usam a cegueira, a paralisia e a surdez para amolecer corações que choram centavos, é realidade que deficiência escancara as portas da pobreza devido aos desafios que impõe para ser colocada no seu lugar: apenas uma diferença física ou sensorial do restante dos outros comedores de arroz com feijão.

É preciso ser bem atrevido para avaliar e chegar à conclusão de que não é preciso haver alguma proteção social firme e efetiva, como a Lei de Cotas, que minimize o impacto da ausência de condições dignas para que todos possam ser humanos.

Entendendo isso, talvez a consciência de meia dúzia de gatos-pingados que não acham legal bolinar mulheres no Metrô incomode menos quando se fechar o vidro da charanga e fingir que ninguém pediu um trocado.

jairo.marques@grupofolha.com.br

 

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