Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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O tempo de cada um

Por Jairo Marques

 

Fiquei quinze anos da minha vida batalhando, junto com minha família,  contra o que o vírus da paralisia infantil aprontou com meu corpinho. A ideia era ver se rolaria ficar em pé novamente, dar uns passinhos e uma rebolada…

Particularmente, por mim, essa guerra teria acabado bem antes uma vez que, para mim, a minha vitória já tinha sido consolidada: eu não tinha morrido, eu não me sentia um ser inferior e queria fazer outras coisas da vida além de ficar pulando de hospital em hospital, em cada um deles com uma sofridinha a mais.

Recebo, vez ou outra, críticas por supostamente não entender o “tempo dos outros” para o enfrentamento de suas labutas contra as desgraceiras da existência, sejam elas acidentes graves, doenças, fatalidades.

Segundo algumas avaliações, eu deveria ficar calado diante às ilusões alheias de achar que o bem vence o mal e espanta o temporal, como diriam no He-Man Deveria respeitar o luto de quem chora suas perdas de movimento, de sentido e dar mais esperança e fazer menos crítica.

Tenho um espaço de opinião e de construção de debates. Não tenho uma doutrina de vida para oferecer, não tenho a chave que abre todas as portas dos mistérios da existência nem pretendo inaugurar um templo religioso.

tempo

Até hoje, no Brasil, por questões culturais, religiosas e de tradição, seguimos uma lógica perversa que só prega, em um primeiro momento, o valor de: “se esforça que tudo irá ficar melhor, se esforça que Deus proverá”.

Caso eu fosse um adesista a isso, não seria preciso um espaço (e de vários outros) para mostrar caminhos de seguir adiante. Era necessário apenas apostar no potencial dos indivíduos e no divino.

Sou um defensor incansável de “andar com fé”, mas não posso ser omisso, como comunicador, de alertar que outros aspectos são necessários de serem avaliados, mesmo diante do luto da perda de movimentos, de choques profundos na composição do corpo e dos sentidos.

Vendedores de ilusão estão no mundo aos montes. Eles se nutrem das fragilidades e ofertam aquilo que só se realiza nos sonhos. Em dado momento, sobram apenas o deficiente e sua deficiência, além de alguns membros da família.

Enquanto isso, amplia-se o espaço da depressão, da contestação de si mesmo, do fracasso, da repetição e da degradação de tudo de bom e potencial que restou.

A troco do eterno “se esforçar e acreditar” (e só isso mesmo) mais distante se fica da obtenção de instrumentos ímpares para remodelar a vida, tomar um novo rumo.

Cada pessoa tem o seu tempo de descobertas e de olhares diante suas condições paralíticas, tetraplégicas, cegas, surdas. Mas alguém tem de se atrever a chamar a atenção para o tempo que corre, para a vida preciosa que existe e se esgota à luz das promessas e da dó, somente a dó, alheia.

Qualquer condição humana alterada por fatores diversos pode ser realinhada. Cadeirantes podem voltar a andar, amputados podem ganhar uma prótese, cegos podem voltar a ver…

Mas tudo isso precisa ser buscado com a razão e com o preparo necessário para a atuação da ciência, da tecnologia e até do charlatão. E isso envolve seriedade na maneira de entender a si mesmo, envolve abrir bem a mente para que entrem mais informações e possibilidade e menos quimeras e “tosquidão”.

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