Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Gratuidades perigosas

Por Jairo Marques

 

O Congresso está preparando mais uma “bondade” a ser oferecida às pessoas com deficiência no país: tornar os pedágios (sejam de estradas sejam de cidades) gratuitos para esse público.

O benefício, caso aprovado, será dado a deficientes condutores. Beleza, não tenho nenhum dado estatístico, mas afirmo sem titubear que a maior parte das pessoas com deficiência não são condutoras, são passageiras, caroneiras, pacientes de ambulâncias…

Ter um carro, saber dirigir com autonomia ainda é para poucos aqui no Brasil. As pessoas mal conseguem o direito à reabilitação para dirigir a própria cadeira de rodas, a bengala, as muletas ou mesmo adquirir uma boa prótese logo, ter um veículo é praticamente um luxo, então.

A justificativa apresentada no projeto é a “integração nacional” e o direto do “malacabado” buscar suas reabilitações/tratamento onde bem entender.

A cobrança da tarifa prejudicaria ainda mais o “ir e vir”, a “mobilidade” desse povo, o que me parece fazer sentido, bem colocado.

Caso algum dia se estabeleça pedágios urbanos em São Paulo, para adentrar ao centro, por exemplo, eu e “meia dúzia” de quebrados estamos na roça sem enxada, pois a cidade tem transporte público internado na UTI e calçadas de darem vergonha (o mesmo acontece em boa parte do Brasil).

Então, impossibilitados de ao menos sair de casa como todas as outras pessoas, precisamos de instrumentos outros para sermos minimamente cidadãos.

Esse é um pouco do espírito das leis que isentam de impostos (não é ‘dar desconto’) os carros até R$ 70 mil, o direito a abatimento em passagens aéreas para acompanhantes, a gratuidade para o uso de veículos de condução de massa.

Bem, mas voltando ao “benefício” do momento, a conta desse justo desconto, segundo os parlamentares, pode ficar bem amarga para ser paga, o que inviabilizaria economicamente o projeto.

A saída, então, seria eleger os “estropiados” que fossem, além de abatidos pela guerra tivessem o bolso furado. Isso ainda não está definido.

O universo de ungidos, agora, seria formado por deficientes capazes de dirigir e que fossem pobres. Fico imaginando, então, que só eu passaria na faixa pelas cancelas (dirijo uma Kombi veia, afinal de contas! kkkkkkkkkkkkkkkkkk).

Não posso escrever simplesmente que sou contra às gratuidades, que tem um preço altíssimo a ser pago em seu esgoto (propaganda de políticos, atraso de direitos outros, ampliação do assistencialismo, oportunistas que se tornam paladinos da Justiça entre outros), mas não tenho dúvidas que, a médio prazo, esses “benefícios” são perigosos.

pedagio

 

Estamos longe, muito longe de dominar o mundo para que ele seja mais plural, mais inclusivo, mais acessível, mas o foco que não pode ser perdido de vista é a construção dessa ideia.

Todas as vezes que as migalhas são jogadas aos “fracos”, mais distante se fica da igualdade de condições de fato. O passe livre nos aprisiona mais na falta de condições ideias de um transporte que conduz a todos, o pedágio de graça para os “deficientes pobres” oculta a necessidade de dar condições de trabalho e renumeração justa a essas pessoas.

Entendo que há uma demanda imediata a ser resolvida e que o curativo que se apresenta se faz necessário, mas apoiar uma “causa” nisso é claramente uma derrota de busca de igualdade.

Talvez, haverá diferenças que, de fato, irão precisar de aparato social para levaram suas vidas, o que vejo como absolutamente legítimo e humano, mas reluto em entender isso como uma regra.

De maneira geral, penso que são raros os casos em que não será possível a construção de um cidadão pleno: que trabalha, que interage socialmente, que constitui família, que exerce direitos e cumpre deveres.

Enquanto ter uma deficiência física, sensorial ou intelectual for fator de motivação para a criação de benefícios exclusivos amparados na carência de condições inclusivas de verdade (e sem metas claras para que elas sejam criadas), mais a sociedade se distancia de entender o que de fato se busca nessa labuta.

Para ler a íntegra do projeto de lei, basta clicar no bozo: bozo

* Imagem do google imagens

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