Jairo Marques

Assim como você

 -

Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade

“Rolezinhos malacabados”

Por Jairo Marques

É natural. Pessoas com gostos semelhantes, características semelhantes, ideais semelhantes costumam se unir.

Atualmente, com as famigeradas redes de gente, essas uniões costumam ser ainda mais comuns e mais fortes. Há grupo de gente que tem pinta na cara, grupo de quem gosta de melancia com leite, grupo de quem penteia a cabeleira uma vez por semana…  🙂

A reunião de pessoas que entoam a mesma canção, digamos assim, é para trocar ideias, para ver se arranjam um rabo de saia 😉 , para criarem formas de ficarem ainda mais unidos ou só para gastar tempo, mesmo.

“Beleza, tio, mas e daí? Onde cê quer chegar com esse verbo todo?”

Bem, penso que é preciso ter algum cuidado na defesa dessas reuniões exclusivíssimas, fechadíssimas e ‘malacabadíssimas”, em que SÓ PODEM entrar o povão quebrado, de toda natureza, e nada de quem se acha inteirão.

O problema em uma situação assim é que o discurso da inclusão fica de ponta cabeça. Como assim, as pessoas com deficiência, que cobram diuturnamente o “todo mundo junto”, está promovendo, cada vez mais, encontrinhos ‘excrusivos’?

Volto a dizer, é natural que grupos se reúnam e não é diferente com o galerê que vive nesse mundo paralelo de quem tem uma deficiência, mas a partir do momento que esses movimentos vão ficando cada vez mais fechados, começam a querer proibir que outros grupos de juntem e acham que vão ganhar o jogo sem pluralidade, o bicho fica estranho.

Um dos grandes desafios que me ponho no blog é que ele seja, de alguma maneira, interessante pros ‘zimininos’ sem deficiência. É claro!!!!

Como é possível construir uma sociedade que entenda, que interaja e que respeita o diverso se eu só falasse com gente que, de alguma forma, já conhece o meu ‘xororô’?

Meu amigo Dudé, que é músico e é do time dos “sem braço e sem perna” 😉 escreveu um texto com mais reflexões sobre essa questão a convite meu.

Não quero aqui dizer que não se pode fazer ‘rolezinhos de malacabados’, mas penso que é preciso pensar nas dimensões que esses eventos têm ganhado…

Claro que os coments são livre para discutirmos isso! O texto é formidável!!! Boa leitura!!

 ***

No último fim de semana, recebi uma interessante mensagem de um grupo formado por umas quatro pessoas, se eu não estiver enganado, sugerindo que eu não só fechasse shows em lugares com a devida acessibilidade (algo que acho super válido) como também eu deveria organizar esses shows visando única e exclusivamente a entrada de apenas pessoas com deficiência.

Dudé em estúdio
Dudé em estúdio

 A minha resposta, via mural do meu Facebook, pra esse pessoal foi:

Tem uma turminha que vem me perguntando sobre os shows em locais com acessibilidade, pra gente fazer uma festa só pra galera com deficiência. Pessoal, eu e a Garra Produções Artísticas estamos mapeando as casas com acessibilidade e já adianto que não tem sido uma tarefa fácil, por causa das pouquíssimas casas com música ao vivo que realmente tiveram a preocupação de adaptar suas dependências de acordo com o que precisamos. De qualquer forma, faremos shows nesses poucos lugares com acessibilidade sempre que for possível. Porém, gostaria de fazer uma proposta pra galera que me sugeriu uma festa, digamos, “exclusiva“.

Ao invés de fazermos um show só pras pessoas com deficiência, porque não uma baita festa em que TODOS, SEM EXCEÇÃO, PARTICIPEM? Vamos começar a sair dos nossos confortáveis e impenetráveis casulos, pessoal. Vamos viver todos juntos e não apenas à margem da sociedade. NUNCA SE ESQUEÇAM, SOB HIPÓTESE ALGUMA, QUE AMO VOCÊS DE PAIXÃO.”

Apesar da minha resposta, fiquei intrigado com tal proposta e comecei a pensar com meus botões: seria esse um pequeno grupo isolado de ‘malacabados’, ou essa ideia, digamos isolacionista, ainda encontra um último suspiro nos dias hoje?

Aproveitando as altas doses de tédio que aquela tarde de domingo me propiciou, resolvi fuçar os muitos grupos e páginas relacionados a nós ‘chumbados’, além de alguns blogs também, pra saber se mais pessoas compartilham desse mesmo ideal.

busca

Infelizmente, pelo menos pra mim, o resultado que apareceu na tela do meu computador foi bem desagradável. A galera que me pediu um show exclusivo não estava sozinha. Na verdade, as sugestões que encontrei no Facebook e em blogs eram das mais variadas. Entre elas, destaco um pessoal discutindo a viabilidade de um BBB onde apenas pessoas com deficiência participassem, além de outra turma reivindicando um canal de TV em os âncoras dos telejornais, apresentadores, atores de novela, etc fossem todos com deficiência.

A primeira coisa que pensei foi: “isso é sério?”. Prestando maior atenção aos comentários dos respectivos posts, percebi que sim.

E não parava só aí. Se eu fosse listar todas as “ideias brilhantes” sugeridas por esse pessoal internet afora, teríamos uma verdadeira Alice ‘Malacabada’ no País Da Segregação!

alice2

A coisa toda era bem vasta: parques, praças, boates, ônibus, vagões de metro. Tudo reservado para exclusivo uso ‘malacabado’, aos olhos vistos do restante dos reles mortais. A sensação de raiva que veio subindo a minha espinha, ao ler tamanha distribuição de bobagem, foi grande. Foi então que escrevi mais um post no meu perfil no Facebook criticando essa auto-segregação.

Esse segundo post, apesar do seu conteúdo sério, gerou as mais divertidas respostas dos meus amigos, muitos deles com deficiência. Alguns deficientes pregavam com fervor o isolamento. Isso acabou gerando algumas conclusões da minha parte:

1 – JUSTIÇA OU REVANCHISMO?

Sim, a vida de uma pessoa com deficiência no Brasil não é fácil. Tivemos algumas melhorias no decorrer de algumas décadas, mas como eu costumo a dizer, estamos ainda longe do ideal. Casos e mais casos de injustiça são relatados quase todos os dias, assim como a já clássica omissão do poder público.

Talvez isso seja o combustível perigoso que alimente tanta mágoa contida por anos. Imagina o prazer de um cadeirante ao olhar um cara sem deficiência nos olhos e dizer: “você não pode entrar aqui”? Sim, o olho por olho é sempre tentador. Porém, ele é justificado?

proibido

Alguns ‘malacabados’ precisam entender que o caminho não é esse. Justiça social deve ser conquistada com muita luta, sem dúvida. Mas a justiça não se conquista devolvendo a cusparada. Cuspir de volta implica sectarismo que não tem nada a ver com inclusão. Aquele que confunde isso está mal informado, ou então não alcançou a maturidade suficiente pra distinguir um do outro.

A justiça implica defesa do nosso direito de fazer parte da sociedade em que vivemos e não em criar um “universo paralelo” onde supostamente viveríamos felizes, alimentando nossos medos, através do que me parece ser um crônico problema de auto-afirmação.

2 – A CONCORRÊNCIA

É de conhecimento de todos, pelo menos de boa parte de nós, que algumas pessoas com deficiência possuem uma visibilidade na mídia quase obsessiva. Sim, quantos exemplos de superação pra nos espelharmos. Oh, fico até emocionado! 😉

Fico imaginando essa galera vivendo num meio social, onde todos são vistos como iguais. Pode parecer radicalismo da minha parte, mas acho que seria, comparando grosso modo, a mesma coisa que o grupo Hamas tentando sobreviver numa Palestina que conseguiu a independência.

Imaginem a tão sonhada busca pela nossa inclusão como uma savana. Nessa savana, existem apenas os leopardos. Os leopardos são vigorosos, atléticos, com sua pelagem que os destacam no ambiente. Nossa, como o leopardo é bonito, é ágil. Todos amam e reverenciam os leopardos.

Um belo dia, os portões da reserva, onde se encontram a savana, são abertos. Então, os leões e tigres começam a aparecer pra festa. É lógico que ninguém vai deixar de prestar atenção no leopardo, ele é bonito pra caramba. Só que a atenção será dividida com o leão e o tigre. Nessa savana, de agora em diante, todos terão seu espaço.

leoes

Eu sei, eu sei, esse exemplo ainda foi pior do que o da Palestina independente. Mas convenhamos, alguém já parou pra prestar atenção com mais cautela nos nossos “leopardos”? Temos muitos ‘malacabados’ hoje que se destacam fazendo o óbvio. Trabalham, estudam, namoram.

É o que todo mundo faz, certo? Sem exceção. Eles se destacam apenas porque são… ‘malacabados’! Sendo assim, seu destaque num universo exclusivamente malacabado estaria ameaçado pois é chato a gente ganhar tanto destaque nessa vida com o óbvio, pra depois nos tornarmos só mais um.

Opa, pera aí! Mas não é esse objetivo? A tão idolatrada Causa da pessoa com deficiência não é a defesa do nosso direito de sermos vistos de igual pra igual perante a sociedade? De sermos mais um?

Eu comecei a cantar na noite em 1989, aos 17 anos. Fui seguindo minha carreira como músico na velha e boa estrada que tantos outros percorreram, e percorrem, depois de mim.

Tive a tremenda felicidade de ter um professor de canto que me disse na época: “você tem uma diferença, você sabe disso. Mas vamos trabalhar seu lado musical e profissional de tal forma, que essa diferença passará como mero detalhe”.

cantor

Meu ex-professor, Nando Fernandes, muito provavelmente seria criticado hoje, sob a absurda alegação de que ele negligenciou o lado da deficiência do seu aluno. Como é gratificante saber que o Nando escolheu ressaltar meu talento como músico. Aliás, diga-se de passagem, como ele faz com todo e qualquer aluno há anos, desde o início da sua brilhante carreira.

Hoje, temos duas lideranças bem distintas: aqueles que trabalham por uma inclusão ampla e responsável e o sujeito que se preocupa demais com sua exposição de imagem de super-herói de araque. A preocupação maior é em ser o primeiro deficiente a escalar o Everest, o primeiro deficiente a caçar uma baleia azul, o primeiro deficiente no espaço. O bem comum, a gente vê depois que a minha matéria for pra TV.

É um mundo de fantasia que não agrega nada e que apenas reforça estereótipos, com um objetivo fútil de ser o herói de uma minoria.  É uma ideia rançosa que só ajuda a agirmos como avestruzes que enfiam a cabeça na terra, em vez de encarar o desafio à frente.

Ser aceito num meio exclusivo apenas pra nós deficientes, é a mesma coisa que se contentar em ser aceito apenas num boteco, ou num bingo, ou na guarita de um prédio. Por mais que seja poderoso e intocável, um dia, você vai ter que encarar a rua lá fora.

Tá na hora de se pensar a inclusão da pessoa com deficiência de dentro pra fora, com a maturidade que ela merece.

*Imagens do Google Imagens

Blogs da Folha

Versão impressa

Publicidade
Publicidade
Publicidade